Da inquietante definição de «cultura»

Por muitas razões, nunca esgotaremos a definição de cultura. Não a esgotaremos, em primeiro lugar, porque a cultura se metamorfoseia a cada instante, em cada palavra que lemos ou escrevemos, ou de cada vez que tentamos, novamente, descrever o seu conceito. Não se pode interrogar esse objecto sem, através da própria interrogação, modificá-lo. Mas descrever e interrogar são operações diferentes, como seriam enaltecer, denunciar, ou mesmo renunciar a uma definição una. Observar a cultura não apenas a altera, mas altera-a de formas essencialmente discordantes, transformando a suposta unidade inicial do conceito numa miríade de cosmovisões. E essa multiplicação é também um gesto cultural, ou mesmo político.

Existe outro motivo para esta ser uma tarefa infinita: um trabalho de cisão ou compromisso, dentro do conceito de cultura, entre as ideias de progresso, emancipação, beleza, por um lado, e horror e barbárie, por outro. Tento equacionar, em termos certamente demasiado velozes, esse inquietante paradoxo, que pede uma resolução interminável, impossível: a cultura permite, provoca, exige a barbárie – em suma, a cultura é a barbárie. Porque o oficial nazi lê Goethe e ouve Schubert antes de torturar e matar; porque houve Marinetti, Céline, Riefenstahl.

Cito extensamente No Castelo do Barba Azul, de George Steiner:

    Foram raros os que puseram ou sondaram a questão das íntimas relações existentes entre as formas do inumano e a matriz ambiente contemporânea da civilização avançada. Mas o certo é que a barbárie que sofremos reflecte, em numerosos pontos precisos, a cultura de onde brotou e quis profanar. […] Porque é que as tradições humanistas e os modelos de comportamento correspondentes se revelam defesas tão frágeis contra a bestialidade política? De facto, seriam uma defesa, ou será mais realista identificarmos na cultura humanista apelos expressos ao autoritarismo e à crueldade?

    Não vejo como um debate sobre a definição de cultura e sobre a viabilidade da ideia de valores morais possa evitar estas questões. Uma teoria da cultura, uma análise da nossa situação de hoje, que não logre considerar no seu eixo as modalidades do terror que levou à morte, por meio da guerra, da fome e do massacre deliberado, cerca de setenta milhões de seres humanos na Europa e na Rússia, entre o início da Primeira Guerra Mundial e o fim da Segunda, não pode deixar de me parecer irresponsável. (1971: 40)

Existe uma imensa lucidez nestas palavras que interrogam a maior obscuridade no conceito de cultura. Freud descreveu (1916) as revoluções de Copérnico/Galileu, Darwin, e da própria psicanálise, como feridas narcísicas colectivas: de cada vez, a Terra, a humanidade e a consciência sofrem uma redescrição que as coloca numa posição marginal, secundária, dentro de um sistema que em tempos as enaltecera como o centro, o omphalos de tudo. Salvaguardadas as devidas diferenças, entendo que a suspeita de Steiner introduz a mesma ferida narcísica no seio de uma cultura humanista, intelectual, ética. Impossível, doravante, pensar a cultura como centro e a barbárie como margem acidental.

A barbárie, sugere Steiner, reflecte a cultura. Mais adiante, equaciona: por que razão o humanismo não defende da barbárie? Mais adiante ainda, reformula: na verdade, talvez o humanismo tenha exigido, vez após vez, a barbárie. Interessa-me o percurso deste pensamento, a modulação das teses, a experimentação. Steiner está consciente da força dos factos, mas também do tabu que protege o conceito de cultura de uma acusação de crime; em suma, está consciente da ferida narcísica que abre e, ao mesmo tempo, do imperativo ético que o obriga a abri-la. Eis um lugar insuportável do pensamento, entre injunções contrárias. O pensador da cultura encontra-se em luta contra o próprio pensamento.

Interessa-me a modulação, interessam-me as suas várias formas: a pergunta, a dúvida, a colocação das hipóteses, a afirmação corajosa da ignorância. Leio outro livro de Steiner, A Ideia de Europa: «Como poderemos dissociar uma riqueza salvífica de diferenças da longa crónica de ódios mútuos? Não sei a resposta. Só sei que aqueles mais sábios do que eu têm de a encontrar, e que a hora é tardia» (2004: 50). Nada é mais incerto do que a existência e a unidade de uma «riqueza salvífica» da cultura, ou a possibilidade de a dissociar da barbárie; mas essa é precisamente a dúvida de Steiner, numa ignorância – «Não sei a resposta» – que leio à letra. A hora é tardia, sim, sempre foi demasiado tardia; porém, na hora que nos cabe, entenderei que a hesitação e a vigilância são a única resposta ética possível.

O livro A Ideia de Europa abre com um breve prefácio de José Manuel Durão Barroso, então Presidente da Comissão Europeia. Ora, esse texto parece-me inquietante no sentido em que contradiz, a partir de diversas certezas, o percurso da dúvida de George Steiner. Assim, segundo Durão Barroso, «este grande intelectual – e esta palavra aqui tem todo o seu sentido positivo – abre-nos os olhos para novas formas de encarar o velho Continente» (2005: 5); a explicitação de um suposto «sentido positivo» da expressão «grande intelectual» é estranha (sugerindo-se que também há um sentido negativo?), mas fica por explicar. Seguidamente, Durão Barroso considera que Steiner apresenta uma visão positiva da Europa: «Fiel à sua natureza de pensador itinerante, Steiner “explica” a ideia de Europa a partir da escala humana, da sua geografia, de filósofos, artistas e professores, sempre em movimento, construindo passo a passo a nossa cultura comum» (5); «para [Steiner], a Europa tem-se distinguido [nos domínios da matemática, do pensamento e da música], criando um precioso depósito de conhecimento e beleza para toda a humanidade» (6).

É certo que Durão Barroso também introduz a questão da barbárie: «Pode a ideia de Europa sobreviver às atrocidades e ao barbarismo, em que o continente mergulhou na primeira metade do século XX? Talvez seja ainda cedo para o descobrir. Mas George Steiner pensa que pelo menos vale a pena tentar salvá-la e este curto mas intenso livro representa um pequeno passo nessa jornada de reabilitação» (6). É fundamental enfatizar este ponto: Durão Barroso escreve como se a Europa e o «barbarismo» fossem opostos, quando Steiner experimenta corajosamente a amarga tese de uma identidade, segundo a qual o barbarismo não foi um acidente mas uma forma da cultura. Assim, não se trata de salvar a Europa de um acidente que lhe fosse exterior, mas de saber interrogar a barbárie na própria cultura europeia.

Contra a dúvida de Steiner, Durão Barroso avança diversas afirmações num optimismo crescente:

    é precisamente a cultura e a sua expressão em termos de unidade na diversidade que nos candidata à esperança quando pensamos no futuro da Europa. […] E até o pessimismo melancólico – tão típico de tantos intelectuais europeus – revela um espírito crítico e auto-crítico que a Europa deveria provavelmente exportar em maior quantidade para sua vantagem e seguramente de outros.

    Quem diz cultura diz liberdade e diz diferença. (2005: 7)

Considero inquietante – e contraditório em relação ao livro que se pretende prefaciar – o tom eufórico destas considerações quase no fim do texto de Durão Barroso. Até mesmo esse enigmático «pessimismo melancólico – tão típico de tantos intelectuais europeus» se converte em bem exportável, numa propaganda paternalista e pro domo. A expressão «que a Europa deveria provavelmente exportar em maior quantidade para sua vantagem e seguramente de outros» não tem em linha de conta se os «outros» carecem de espírito crítico e auto-crítico, nem se desejam aprendê-lo com a Europa. Quanto à frase «Quem diz cultura diz liberdade e diz diferença»: dificilmente uma tal definição exaltada de cultura poderia ser mais oposta à suspeita vigilante de George Steiner. Recordo-me de todas as vezes em que a cultura europeia foi, precisamente, antónimo de liberdade e de diferença. Mas, claro, tudo isto pode ser apenas «pessimismo melancólico» da minha parte…

Pedro Eiras
Do livro Constelações 2. Ensaios comparatistas (no prelo)

Referências

BARROSO, José Manuel Durão (2005), «Prefácio» a George Steiner, A Ideia de Europa; ed. ut.: 4ª ed., Lisboa, Gradiva, 2007: 5-8.
FREUD, Sigmund (1916), Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse; ed. ut.: Introduction à la Psychanalyse, Paris, Payot, 1997.
STEINER, George (1971), In Bluebeard’s Castle. Some notes towards the redefinition of culture; ed. ut.: No Castelo do Barba Azul. Algumas notas para a redefinição da cultura, Lisboa, Relógio d’Água, 1992.
______ (2004), The Idea of Europe; ed. ut.: A Ideia de Europa, 4ª ed., Lisboa, Gradiva, 2007.