Luz Acesa nos Bastidores de Luis Manuel Gaspar

 

Ele próprio autor de uma obra poética breve mas altamente singular, Luis Manuel Gaspar é provavelmente o mais fascinante ilustrador e capista da poesia portuguesa de hoje. A exposição Luz Acesa nos Bastidores, no Palacete dos Viscondes de Balsemão, organizada no âmbito do colóquio internacional Ofício Múltiplo – Poetas em Outras Artes, promovido pelo grupo Intermedialidades do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, é uma rara oportunidade para se lançar um olhar de conjunto a uma obra dispersa por livros de poetas de várias gerações, de António Barahona, António Osório, Manuel António Pina ou Al Berto, a portas mais novos, como José Miguel Silva, Manuel de Freitas, Raquel Nobre Guerra ou Rui Pires Cabral.
Público, 3/11/2015, p. 35

 

“Compreender é associar, para a inteligência não há melhor exercício do que a imagem”, escreveu Jean Epstein. E os trabalhos de Luis Manuel Gaspar dão-lhe certamente razão. Entre a natureza e a máquina, entre o humano e o não humano, certas imagens desta exposição descobrem nexos que se fortalecem do prévio afastamento que vêm desfazer. Encontramos o planisfério terrestre nas manchas da quitina de um artrópode, flores que se humanizam num sexo, seres humanos que adquirem traços de um insecto ou de um crustáceo, uma cabeça que também é uma lâmpada e um olho, tecidos cujas dobras se desfazem em folhagem, rostos que admitem uma visão subcutânea, madeixas de cabelo a lembrarem patas de aranha… Tudo desenhado com o máximo rigor, mas entre uma figuração realista e a transfiguração anti-realista resultante das conexões improváveis que nos são reveladas. Se estas imagens nos parecem “muito lentas”, como disse António Barahona, é porque precisamos de as decompor, de analisá-las a partir das sensações contraditórias que produzem em nós. E nesse exercício revelam-se as palavras que as habitam. Muitos dos desenhos de Luis Manuel Gaspar subentendem as palavras da poesia. Não apenas porque a surpresa que provocam pode resultar de articulações metafóricas, de um tropo que liga dois reinos para produzir um terceiro, mas também porque, em muitos casos, os desenhos se destinaram a acompanhar poemas, ou partiram de textos; e ainda porque, nas pranchas dedicadas a vários poetas, encontramos as imagens que Luis Manuel Gaspar quis que víssemos nos versos reproduzidos, ou a par deles. É um mundo onde as imagens da poesia e as imagens visuais se interpelam mutuamente. Livremente. Um mundo para ver, ler e imaginar. Fluido, delicado, irónico e inquieto. E cheio de gravidade.

ROSA MARIA MARTELO