Pensar o exílio em tempos de cólera: uma questão de princípio

Ao contrário daquilo que parecem sugerir algumas abordagens nos media, nas redes sociais ou em discursos políticos, o fenómeno migratório está longe de ser uma realidade recente e tão-pouco é um problema apenas, ou fundamentalmente, da Europa ou para a Europa.

Sem precisar recuar mais na História, bastará atentar nas numerosas deslocações forçadas pelas mudanças geopolíticas na segunda metade do século XX, pelas guerras em África ou nos Balcãs, por catástrofes naturais, pela fome e, em geral, pelas enormes alterações nas sociedades e economias locais provocadas pelo capitalismo global. Em 2000, o fotógrafo Sebastião Salgado editou um álbum, a que deu o título de Êxodos (Migrations, na tradução inglesa), resultante de um dos seus longos projetos fotográficos, em que tanto a sua câmara, como a sua fragmentária narrativa testemunhal já apontavam para muitas dessas facetas de uma «humanidade em trânsito».

Apesar das notícias cíclicas, há pelo menos uma década, sobre as tentativas (tantas vezes fatais) de entrada de imigrantes clandestinos na Europa pelo Mediterrâneo, a envolver aí, como noutros pontos do globo, toda uma tenebrosa rede de tráfico ou «indústria migratória»; apesar dos impasses que se prolongam durante longos meses, quando não anos, em «campos de refugiados» ou em verdadeiros «no man’s land» como Calais; apesar da Guerra na Síria que tem forçado milhares de civis a abandonarem o país, se arrastar desde 2011, foram os números e as imagens divulgadas em 2015 que – parece – despertaram em definitivo a opinião pública, na Europa como em geral no mundo ocidental, para aquilo que se tem designado à exaustão como «crise migratória», «crise dos refugiados», ou até «êxodo», uma ressonância bíblica que o jornal The Economist chamava para capa em Setembro de 2015.
Os números divulgados pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) além de não de incluírem todos os migrantes que existem hoje no mundo, exigem também ser geograficamente contextualizados para impedir algumas deturpações: dos 65,3 milhões de pessoas «deslocadas à força», registadas pelo ACNUR em 2015, 40,8 milhões são «deslocados internos», ou seja, migram dentro das fronteiras do seu próprio país, e África é o continente que ocupa o primeiro lugar como «terra de asilo», enquanto a Turquia, o Paquistão e o Líbano são os países que mais refugiados recebem. Entretanto, são as situações envolvendo as fronteiras da Europa que mais atenção têm merecido, não só pelo aumento considerável de entradas (ou tentativa de entrada) de migrantes e refugiados no espaço Schengen, mas também pelos sinais de particular desunião e ineficácia que tem demonstrado nesta matéria a União europeia, abrindo-se implicitamente espaço a ações unilaterais, como foi o caso do muro anti-imigrantes que a Hungria ergueu nos últimos meses de 2015. Atitudes e decisões políticas que vão completamente ao arrepio dos valores de tradição humanista na Europa, e, concretamente, do previsto na Convenção das Nações Unidas, de 1951, sobre o Estatuto dos Refugiados.

Neste contexto que não é apenas de ordem demográfica, nem social ou económica, mas também de ordem amplamente política, ética e humanitária, em que todos estamos, como dizia Pascal, embarcados, o que pode a Literatura Comparada?

Como é óbvio, não lhe compete discutir números, redigir legislação ou promover trabalho de campo junto dos migrantes e refugiados. Também não visa substituir-se a outros domínios epistemológicos que se debruçam sobre a problemática migratória, como é o caso da Sociologia, da Antropologia ou da Etnografia, entre outros. Já como disciplina de fronteira ou como uma metadisciplina que é, pode a Literatura Comparada, ou cabe-lhe mesmo, convocar contributos dessas áreas para, através de uma articulação epistemológica refletida, resgatar e aprofundar sentidos tanto dos textos literários como de outras representações artísticas que envolvem experiências de migração e exílio. Não deverá aliás esquecer-se que a própria área da Literatura Comparada sempre manteve uma relação estreita com os percursos de migração e exílio de muitos daqueles que foram os seus maiores expoentes, para além de partilhar com eles de uma condição de instabilidade e hibridez, a que lhe cumpre precisamente conferir uma pertinência e dignidade epistemológicas.

Não é de estranhar, por conseguinte, que no âmbito do Instituto de Literatura Comparada e dos seus projetos de investigação, se venha consagrando atenção, há vários anos, ao fenómeno das migrações e exílio, facto que se tem traduzido quer em estudos sobre deslocações criativas, representações da diáspora portuguesa do século XX, ou ficções em torno de migrações clandestinas, quer na oferta de um programa especialmente dedicado às representações literárias e artísticas do exílio, no Mestrado de Estudos Literários, Culturais e Interartísticos da Faculdade de Letras do Porto. Também neste âmbito, no segundo semestre de 2016, terão lugar dois Colóquios internacionais com a chancela do ILC, a versar a problemática exílica: «A exiliência de mulheres no mundo lusófono (sécs. XX–XXI)» (7–8 e 10–11 de Novembro, em colaboração com a Universidade de Paris IV) e «Artistas de língua alemã no exílio português» (24 e 25 de Novembro). Será também publicada a tradução de um conjunto de ensaios de Alexis Nouss que visam contribuir para um pensamento renovado sobre o exílio, tendo precisamente como pano de fundo de inquietação, as migrações contemporâneas.

A montante e a jusante da problemática migratória, assiste-se a uma autêntica «guerra semântica» em torno das designações a atribuir aos indivíduos que abandonam as suas terras de origem – migrantes, refugiados, exilados… – uma categorização que, por norma, não atende nem às palavras, nem ao sentir dos próprios deslocados e que, pelo contrário, tende a prestar-se á demagogia e às reações epidérmicas. Ora, apesar de hoje, como no passado, estarem em causa circunstâncias diferentes e estatutos legais distintos para uns e para outros, a experiência exílica revela ser, consciente ou inconscientemente, o «núcleo existencial» comum a todas essas realidades migratórias.
Abordar o fenómeno migratório a partir da experiência exílica é, então, ir ao encontro do seu elevado potencial heurístico, pois ao mesmo tempo que ela permite resgatar o «migrante», «exilado» ou «refugiado» de uma categoria homogeneizante, liberta-o também da determinação das causas imediatas da partida ou do seu quadro de pertença territorial, privilegiando pelo contrário o percurso e a subjetividade do indivíduo, como um processo em aberto. Alexis Nouss propôs designar esse núcleo existencial comum com um neologismo – “exiliance” [exiliência] – inspirado tanto em Levinas (essance) como em Derrida (différance), para cujas características concorrem as subtilezas discursivas que o autor de La condition de l’exilé (2015) explora em textos de autores vários como Dante, Shakespeare, Kafka, Celan, Camus, Brodsky Nabokov ou Yanni Ritsos. Estudar a exiliência a partir das suas configurações narrativas, das suas metáforas ou, em geral, das construções simbólicas por ela suscitadas direta ou indiretamente, permite recuperar o lastro de uma “epistemologia vitalista” (Georges Simmel) da condição exílica, que tanto as estatísticas, como as análises económicas ou políticas, ou ainda a rapidez, displicente ou maquiavélica de alguns clichés ignoram ou desprezam quando retratam o fenómeno migratório.

Impõe-se, por conseguinte, e cada vez mais, pensar o exílio (também) com a literatura e com a arte em geral, não para dar, como muitas vezes acontece, um simples lustro cultural à problemática, acabando de certo modo por legitimar uma mera estetização da realidade ou uma fetichização do «exilado»; tão-pouco para cumprir calendário de agendas alheias ou para ir ao encontro de interesses mais ou menos mediáticos, mas para que, também num domínio tão complexo e sensível como este, a Universidade – enquanto espaço de ensino e investigação –, não deixe de cumprir aquela que deverá ser sempre a sua função mais estruturante: a formação do espírito crítico, ou se quisermos, o seu «dever de vigilância» (Ethel Groffier, 2014).

Ana Paula Coutinho
Grupo Inter/Transculturalidades do ILCML