Pré-publicação: Alumiação – Ensaio sobre poesia, visão e cegueira

pré-publicação: excerto de
ALUMIAÇÃO – ENSAIO SOBRE POESIA, VISÃO E CEGUEIRA
Pedro Eiras | Susana Paiva
Huggly Books, 2016

As coisas vistas, diz Caeiro, são as coisas verdadeiras. A verdade não depende do pensamento, mas de sentidos como a visão. E claro que isso exige uma aprendizagem, que é em primeiro lugar desaprendizagem de um olhar maculado pelo pensamento. Uma estória zen diz: o monge pensava que os rios eram rios e as montanhas eram montanhas; depois estudou o zen sete anos e percebeu que afinal os rios não eram rios e as montanhas não era montanhas; por fim estudou o zen mais sete anos e compreendeu que afinal os rios eram mesmo rios e as montanhas eram mesmo montanhas. Aprendizagem e desaprendizagem conduzem ao mesmo ponto de que se partiu: no fim reaprende-se a simples visão das coisas.

A “aprendizagem de desaprender” diz que “as estrelas não são senão estrelas” e que “as flores [não são] senão flores”. Acede-se assim à verdade: o sistema heteronímico de Pessoa depende inteiramente de uma identificação entre a existência de Caeiro, os olhos com que vê, a linguagem com que escreve O Guardador de Rebanhos, a imagem das coisas vistas, e a existência das próprias coisas como coisas verdadeiras. Não pode haver qualquer divergência entre sujeito e objecto, nem entre sensação e linguagem. Como escreve José Gil sobre Caeiro, “Ao estender-se ao comprido na relva, o seu corpo estabelece uma via de comunicação directa entre os sentidos e as coisas. Mas não só: entre as sensações e as ideias, entre as ideias e as palavras […] o estado final do processo de devir que conduziu Caeiro a ser o que é não apagou o pensamento, a linguagem, as ideias, mas transformou-os, tornou-os imanentes uns aos outros, sendo todos imanentes à Natureza”.

Este é o projecto de Caeiro, a doutrina, a solução que fascina todos os discípulos, cegos e depois curados da cegueira, dizem eles próprios (mas como sabem? Estavam cegos e afinal não o sabiam; como podem ter a certeza, agora, de que são capazes de ver?).

Mas esta identidade entre sujeito e objecto, sensação e linguagem, não será apenas um projecto impossível, a suprema ilusão? Quando Caeiro diz um verso tão límpido quanto “O que nós vemos das cousas são as cousas”, ignora que o que vemos das coisas é apenas a nossa visão das coisas – uma lição que Pessoa ortónimo bem conhece, atento à ilusão do mundo, ao diferimento da verdade, ao engano de todo o conhecimento. Ao considerar que está em relação com a verdade das coisas, Caeiro ignora Kant (a diferença entre númeno e fenómeno), Nietzsche (o conflito entre factos e interpretações), Husserl (a epoché transcendental), a física quântica, os jogos de linguagem segundo Wittgenstein, o relativismo de Richard Rorty – para acreditar cegamente no poder heurístico da visão. Nenhum discípulo, nem o solipsista Pessoa, nem o céptico Álvaro de Campos, cairia numa forma de fé tão frágil.
“O que nós vemos das cousas são as cousas”, diz Caeiro, e dá o exemplo das estrelas. Na verdade, muitas das estrelas que vemos no céu já deixaram de existir há muitos milhares de anos.