Revisitando Goethe e a Weltliteratur – Observações Breves

Se atentarmos na sua enunciação-chave de 1827, verificamos que o conceito de Weltliteratur – literatura mundial, literatura universal, literatura-mundo, como tem sido vertido – manifesta um (pseudo)cosmopolitismo de marcada ambivalência. Goethe empregou o termo em diversas circunstâncias, sem lhe conferir particular desenvolvimento (cf. Pizer 2012: 3-7). Porém, numa conversa com Johann Peter Eckermann a 31 de Janeiro daquele ano fez assomar o tema com um pouco mais de espaço, e a memória desse diálogo tem inspirado múltiplas discussões. Concentram-se estas geralmente em três ou quatro frases. Contudo, vale a pena recuperar um pouco mais por extenso aquela conversa (cf. Eckermann 1999: 223-225), que se inicia com uma referência à tradução.
Diz Goethe que, desde a última vez que viu o amigo, tem andado a fazer muitas leituras, tendo agora em curso a de um romance chinês que muito lhe está a agradar. (Saliente-se a relevância instrumental do regime de género, subjacente, como argumento oculto, à convicção de que a obra chinesa – traduzida – é reconhecivelmente um romance.) Romance chinês?, surpreende-se o tão certo secretário. Há-de ser coisa bem estranha. Mas não, contrapõe Goethe, pois as pessoas pensam, agem e sentem as coisas mais ou menos da mesma maneira. Só que no romance chinês tudo é mais delicado, mais inocente e mais polido, tudo é depurado de excessos, parecendo-se com o seu Hermann und Dorothea (apropriadamente, uma história que respeita a um enlace com o estrangeiro) e com a novelística de Samuel Richardson. E dá-se o caso de no romance oriental – Goethe aparenta tomar por representativa a obra que tem em mãos – a natureza se apresentar sempre em sintonia harmoniosa com a vivência dos seres humanos; e de estarem sempre prontas a enxertar lendas cheias de encanto, morigeradoras e decorosas, provindas dos milénios da História chinesa.

Seduzidos e sedutores, os comentários de Goethe equivalem a uma lição de humildade, quer no plano pessoal (mau grado a referência a Hermann und Dorothea, que aliás, sendo uma narrativa escrita em verso, instaura dificuldades definitórias no domínio genológico), quer no plano nacional. Os Chineses já compunham obras dessa estirpe quando os “nossos” antepassados ainda habitavam as florestas, e não há motivo para exultar imoderadamente se escrevemos um bom poema quando centenas e centenas de indivíduos têm tido o dom da poesia. A poesia é património comum da Humanidade, sustenta Goethe, e cabe repudiar a presunção pedante dos que escrevem um poema sem se aperceberem de que, fora do círculo estrito da sua nacionalidade, escrever poemas é feito que vai acontecendo com notória abundância. “A literatura nacional significa agora muito pouco, a época da Welt-Literatur está iminente, e todos devemos empenhar-nos em apressar a sua chegada.” (idem: 225; tradução nossa) Mas não se pense que devemos ir buscar modelos aos Chineses, ou aos Sérvios, ou a Calderón, ou aos Nibelungos: devemos antes recuar aos Gregos se queremos a imagem de der schöne Mensch – o Homem belo, o Homem consumado (ibidem).

O raciocínio de Goethe revela a sua antipatia pelos arroubos váticos dos autores do Romantismo (que ele preludiou na sua fase Stürmer) e pelos pronunciamentos nacionalistas que ganhavam vulto à época (décadas antes da formação da entidade política que conhecemos hoje pelo nome de Alemanha). No período weimariano, o Classicismo de Goethe incute-lhe uma perspectiva cosmopolita, que abarca a apetência pelo contacto com diferentes culturas e literaturas, não o inibindo, entretanto, de regressar ao legado de uma Antiguidade em que avista o zénite das realizações éticas e estéticas da Humanidade. A abertura de perspectivas e a curiosidade que preside ao anúncio de uma literatura mundial não relativizam o apego aos Gregos nem derrogam em absoluto um entendimento eurocêntrico do Homem e da cultura. A denegação do nacionalismo corresponde a uma atitude cosmopolita que se detém no limiar de um verdadeiro multiculturalismo.

Sem prejuízo da enfática imposição desse limite, que decerto apareceria a Goethe como procedente do mais elementar bom senso, o argumentário denuncia a existência de sintomáticas linhas de tensão. Desde logo, note-se como o autor de Dichtung und Wahrheit prefere aos entusiasmos eufóricos da mundividência romântica um idealismo plácido e luminoso, que encontra expresso na literatura da China; e como, por outro lado, querendo divisar um denominador comum, acha naquele imaginário oriental uma candura burguesa, sugerida pela aproximação a Richardson, para mais articulável com as ressonâncias helénicas veiculadas pela aposição de Hermann und Dorothea. Importa menos apurar qual o grau de rigor destas asserções do que constatar que, ao entrever o advento da literatura mundial, Goethe empreende um exercício de construção de pontes por meio de um complexo jogo de espelhos deformantes, com a Weltliteratur (que emergirá) e o “Homem belo” (fornecido exemplarmente pelos Gregos) posicionados ao centro, a um tempo fautores e objectos de uma fraternidade de espírito que engrandece.

Acrescendo ao timbre voluntarioso que acabamos de sublinhar, o posicionamento de Goethe comporta um aspecto de apagamento estratégico do carácter de escolha inerente a um conjunto de opções vitais. Colocados em contraponto com os Chineses, os Gregos servem um mecanismo de apropriação camuflado de dispositivo de identidade. Esse seu estatuto ajusta-se ao longo curso da cultura ocidental, em cuja marcha a permanente redescoberta dos Gregos tende a confundir-se com um reengendramento dos mesmos. Ademais, as opiniões de Goethe configuram uma escolha entre dois exóticos, sem genuína antinomia entre “nós” e “os outros” – porque o suposto “nós”, de facto, não somos nós mas aqueloutros. A despeito de se ter naturalizado como arché da identidade ocidental, o referente da velha Hélade constitui um exótico de eleição. No passo de Goethe como noutras assunções de classicismo, reveste-se de um poder retórico – em última instância, do crédito de persuadir dispensando o cuidado da análise. Os Gregos são um exótico dissimulado; e são um passado simbólico no qual se estriba um projecto de futuro. A sua mobilização como pedra angular elide questões importantes, dissolve-as, quase insidiosamente, numa pretensa evidência, dilui-as na energia dos fraseados eloquentes. Um exemplo apenas: o “homem belo” encarnado nas obras dos Gregos é o melhor de nós ou um ser melhor do que nós? Existe uma diferença real, quer ética, quer estética, mas o enunciado goetheano faz submergir essa destrinça, aliás à semelhança dos de numerosos outros autores que se têm reivindicado da herança clássica. Não é preciso suspeitar de ardil ou impostura: é o simples ardor da devoção.

Jorge Bastos da Silva

 

Obras Citadas

Eckermann, Johann Peter (1999), Gespräche mit Goethe in den letzten Jahren seines Lebens, Hrsg. Christoph Michel unter Mitwirkung von Hans Grüters, Frankfurt am Main, Deutscher Klassiker Verlag.
Pizer, John (2012), “Johann Wolfgang von Goethe: Origins and Relevance of Weltliteratur”, in Theo D’haen, David Damrosch and Djelal Kadir (eds.), The Routledge Companion to World Literature, London, Routledge / Taylor and Francis Group: 3-11.