Uma arca contra o fim do mundo

Uma arca contra o fim do mundo – sete breves notas sobre o filme Dia 32, de André Valentim Almeida, exibido no Seminário do Fim do Mundo V.4

1. Que imagens guardar numa arca, para enfrentar o fim do mundo? Guardar imagens do fim, de fins, do mundo, dos mundos.
O filme sobrevive ao mundo, o mundo existe para culminar num filme.

2. Dia 32, de André Valentim Almeida. Ou uma arca de memórias para uma civilização seguinte, um filme sem espectadores humanos, a ser visto – por quem? quando? Um filme para depois do fim do mundo.
Na verdade, confessa o realizador, é uma espécie de estratégia retórica. Claro que o filme é para a humanidade, esta humanidade, na forma de memória – ou reflexão – ou alerta. Como poderíamos filmar para depois da humanidade, para depois do cinema? O filme implica sempre o nosso tempo: a nossa resistência.

3. Filme-diário: estas imagens, estas cidades, estas paisagens. O autor aparece, vez por outra, em espelhos fugazes. You are here, em trânsito, mas aqui e agora. Homo viator, que é também olhar que fixa e que recorda. Não há senão o acidente dos dias; mas, quando ele se torna em imagem, o acidente converte-se em coisa fundamental, ou seja, a única coisa que se pode salvar.

4. O autor filma a sua própria passagem, e vê. Mas também acolhe filmes de muitos outros autores, e cita.
De quem é um filme citado – de quem o fez, de quem o convoca? E aquele que cita – ainda é ele próprio, ou dispersa-se entre imagens dos outros?

5. Uma mão persegue as imagens. Sobre ecrãs que repetem as imagens filmadas, ou os filmes vistos, a mão tenta tocar. Dir-se-ia que ela vê: a mão segue as formas, as linhas, os movimentos. Mas não toca em nada: apenas num ecrã, que ao mesmo tempo apresenta e difere esse mundo já eternamente perdido.
A mão vidente é também uma mão cega, e quando quer tocar no mundo apenas toca no ecrã que lhe nega o mundo.

6. Excepção: a mão toca numa caveira. A mão sente a caveira que não pode ver, as órbitas esvaziadas, a imagem do despojo que já não acede às imagens, o fim do mundo, de uma vida.
Apenas isto a mão consegue tocar, finalmente: a sua própria morte.

7. Quando vemos a mão a tentar tocar no mundo, mas apenas a tocar num ecrã de imagens, lembramo-nos: também a mão é apenas uma imagem. E nós, o que somos nós?

 

Pedro Eiras

Excerto do Documentário “Dia 32” de André Valentim Almeida