Ficção

I – Precedentes

George Orwell, Stanley Kubrick, Aldous Huxley, Isaac Asimov, Júlio Verne. Ao ler estes nomes juntos, qualquer pessoa minimamente informada em literatura ou cinema não terá dificuldade em fazer associações – e estas associações provavelmente irão além do fato de serem todos grandes ficcionistas, e (com a exceção de Verne) todos do século XX. Aprofundando um pouco mais, veremos que estes autores talvez tenham sido apenas os que mais célebres se tornaram dentro de um certo gênero de narrativa que, diga-se de passagem, até hoje é largamente produzida sem perder o vigor: a ficção científica. Não é a minha intenção aqui entrar em pormenores a respeito do surgimento da ficção científica, da sua estreita relação com as irreversíveis transformações (especialmente as sociais e tecnológicas) que ocorreram no mundo ocidental durante o século XX – basta dizer que, a partir de um certo momento, em diferentes lugares, alguns autores passaram a se interessar profundamente pela ciência e, mais do que isso, passaram a incorporá-la dentro das suas obras, seja nas suas linhas de pesquisa, em seus últimos avanços, ou até mesmo em seus conceitos e teorias.

Essa aproximação entre criação artística e pesquisa científica acabou gerando resultados muito interessantes para ambos os lados. Não faltam exemplos: O escritor e editor Hugo Gernsback, um dos grandes entusiastas das experiências em radiodifusão nos Estados Unidos, em sua famosa coletânea de contos Ralph 124C 41+, de 1925 (e certamente lida por um grande número de cientistas da época), nos descreve um aparelho muito parecido com o nosso atual celular. The World Set Free, livro de 1914 do inglês H. G. Wells, talvez tenha tido um papel ainda mais decisivo do que “profetizar” um invento, no caso, a bomba atômica: o físico Leó Szilárd, primeiro cientista a teorizar sobre a possibilidade da fissão nuclear, fundamentais para a fabricação da arma, chegou a admitir que suas pesquisas nessa área eram tributárias das ideias contidas no romance de Wells. O caso de Arthur C. Clarke (ele próprio, além de escritor, também físico e matemático) é ainda mais impressionante. Autor do roteiro de 2001: Uma Odisséia no Espaço, Clarke era tido por muitos como um “guru” da ficção científica, pois em seus livros antecipou muitas descobertas e avanços tecnológicos com assustadora frequência e precisão. Foi praticamente um pioneiro-idealizador da comunicação via satélite, para citar um exemplo apenas, tanto que a chamada “Órbita Geoestacionária”, muito utilizada neste campo da ciência, foi também batizada por seus primeiros pesquisadores de “Órbita Clarke”.
 

II – Ficção: Conceitos e Metodologia

Apesar do presente trabalho ser um vídeo, principio esta sinopse falando sobre literatura porque é justamente no campo de pesquisa da linguagem que pretendo inserir o trabalho Ficção. Na realidade, mais do que a relação entre a narrativa ficcional e a pesquisa científica, o fio condutor deste trabalho é a busca por uma experiência linguística. O conceito do trabalho é simples, e se aproxima de trabalhos no campo da poesia conceitual (como por exemplo o UNICODE, de Jörg Piringer; o Uni Acronym de Alva Noto; ou o Apostrophe, de Bill Kennedy), especialmente no sentido de que consiste em submeter um texto ou fragmento de texto a um determinado procedimento. A questão da originalidade e da autoria é irrelevante na escolha deste texto, e tampouco a passagem pelo procedimento necessariamente implica na produção de um “novo” texto. O que se evidencia como elemento principal da poesia conceitual é o próprio processo, é a intervenção na linguagem em si, muito mais do que o que dela resulta.

Não raro, esse procedimento é mediado por algum dispositivo tecnológico, seja ele criado pelo próprio artista ou algum outro já existente. Hoje há diversas ferramentas de processamento de texto disponíveis na web, com as mais variadas funcionalidades (desde simples corretores de ortografia até geradores aleatórios de frases). No caso de Ficção, utilizei talvez a mais acessada destas ferramentas atualmente: o Google Tradutor.

O procedimento é simples: em dois minutos passa-se a palavra “ficção” por todos os idiomas disponíveis no tradutor, a partir do português, na ordem em que estão dispostas no menu (ordem alfabética). Por exemplo: começa-se traduzindo do português para o romeno, em seguida a tradução para o romeno é passada para russo, e do russo para o sérvio e assim por diante. Ao final, quando retornamos ao português, vemos que o processo de sucessivas traduções transformou a palavra “ficção” na palavra “ciência”, como num jogo de “telefone estragado”. O acontecimento principal da obra é a falha, o ruído de comunicação, o elo fraco na cadeia que provoca o deslizamento semântico da palavra original. O “erro” ocorreu de verdade, e pode ser reproduzido novamente por qualquer um (as imagens do vídeo foram não foram editadas, apenas aceleradas). Entendida como objeto artístico, a não-correspondência exata dessa palavra original com a palavra gerada no final do processo transforma, se quisermos, um simples mal-funcionamento do sistema em algo semelhante ao que Duchamp chamou de “coeficiente artístico”, só que aplicado ao trabalho de uma máquina, e não de um artista.

A respeito da sonorização do vídeo, trata-se de uma pequena composição “para Google Tradutor”, que consiste na acumulação progressiva de sons de fonemas emitidos pelo próprio tradutor, e funciona mais como um elemento de unidade formal do que qualquer outra coisa. Compreendo o trabalho como um todo, para além dos conceitos artísticos que dele se podem depreender, como uma experimentação de maneiras criativas de se explorar as funcionalidades de uma nova ferramenta tecnológica. Não é meu interesse, entretanto, defender uma leitura específica da obra. Penso apenas que ela pode ser vista, por exemplo, como uma metáfora em forma de poesia conceitual, com várias interpretações possíveis: uma demonstração metalinguística de que a ficção pode se tornar real através da ciência; ou que as diferenças estruturais entre os idiomas podem por vezes impossibilitar uma tradução satisfatória (proposta que se aprofunda se pensarmos que as diferenças idiomáticas podem corresponder a diferenças socioculturais impossíveis de se reduzir a um denominador comum linguístico); ou que simplesmente não se pode confiar em tradutores de internet; ou que a tecnologia nos permite fazer pequenas viagens através do mundo (e ao contrário do que imaginou Júlio Verne, em muito menos do que 80 dias); e muitas outras, dependendo da disposição do espectador para refletir sobre as implicações do trabalho.
 

III – Arte & Ciência

No texto introdutório do seu projeto The Xenotext Experiment, o poeta canadense Christian Bök diz:

      I foresee that, as poetry adapts to the millenial condition of such innovative technology, a poem might soon resemble a weird genre of science-fiction, and a poet might become a breed of technician working in a linguistic laboratory.

Não me arrisco a fazer esse tipo de previsão, porém concordo que a crescente aproximação com a ciência já é, há algum tempo, um fator incontornável para se compreender a produção artística contemporânea. Acredito ainda, e acho que isto constitui mais uma possibilidade de leitura do trabalho, que o registro em que atua a poesia e o registro em que atua a ciência, apesar de serem normalmente considerados extremos opostos dentro do espectro linguístico, talvez não estejam assim tão longe, e que a diminuição dessa distância talvez seja proporcional à velocidade com que o desenvolvimento tecnológico vai tomando conta da nossa vida.
 

IV – Bibliografia e obras de referência

Albergaria, D. “Quando a Ficção Inspira a Ciência”. Ciência e Cultura 62, no. 2 (2010): 38-44.
Bök, C. “The Xenotext Experiment”. SCRIPTed 5 (2008): 228-31.
Duchamp, M. “O Ato Criador”. A nova arte. São Paulo: Perspectiva 1, no. 5 (1975).
Goldsmith, Kenneth. “Journal“. Poetry Foundation .
Hugo Gernsback“. InfoEscola. 2008.
Kennedy, Bill. “Apostrophe“. 1994.
Noto, Alva. “Uni Acronym“. 2011.
Piringer, Jörg. “Unicode“. 2011.
“Sir Arthur C Clarke.” Obituaries. The Telegraph, 9 de Março de 2008.
 


 

Luca Argel
Investigador do Grupo Intermedialidades do ILCML