ESC:ALA #10

Já se encontra em linha o décimo número da ESC:ALA, a revista electrónica de estudos e práticas interartes. O novo número inclui um amplo conjunto de autores cujas colaborações vão do vídeo (Filipe Pinto, Mathilde Ferreira Neves e Tânia Moreira David) ao vídeo-ensaio (Adriana Delgado, João Costa, Guilherme Rodríguez, Leonor Areal e Ricardo Pinto Magalhães), passando pela fotografia (Jorge Costa e Menina Limão), a ilustração (Anabela Bravo, Ana Cristina Joaquim, Daniel Ferreira, João Concha e Ricardo Marques), a poesia (Marisa Neves Henriques, Ricardo Tiago Moura, Sandra Costa e Wagner Silva Gomes), um esboço para um atlas visual (Sabrina D. Marques) e ainda exercícios híbridos que se situam algures entre o vídeo, o desenho, o bailado e a música (Isabel Zarazúa), a poesia e a fotografia (João Pedro da Costa & Mathilde Ferreira Neves), a poesia e a pintura (Yvette K. Centeno & Mariana Viana) e, por fim, a fotografia e a música (Nuno Morão).

A ESC:ALA é editada por João Pedro da Costa, Mathilde Ferreira Neves e Rita Novas Miranda, colaboradores do grupo de investigação Intermedialidades do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa.

Formas de ensaio à margem: migrações

 
os mares de Homero deixaram
de trazer, esbeltas, as suas naves

em nome dos sem nome, continua.
por desertos de areia, desertos sem
sentido, continua, por rostos no deserto,
os do sem nome ou rosto, continua.
Ana Luísa Amaral

 

Integrado no seu programa “ Fronteiras XXI”, a Fundação Francisco Manuel dos Santos em colaboração com a RTP3 promoveu,  no passado mês de Maio, um debate subordinado à questão: “Migrações: problemas ou solução?”[1]. Nele participaram uma socióloga, Maria João Valente Rosa, especialista em Demografia, um jurista, Gonçalo Matias e um geógrafo, Jorge Macaísta Malheiros, além de um fotógrafo, Sebastião Salgado, autor entre tantos outros do álbum Êxodos (2000), fruto de vários anos de trabalho fotográfico sobre diferentes movimentos migratórios na viragem do século XX.

Desse programa, onde foram apresentadas estatísticas e linhas de tendência nas migrações e a sua relação com a sustentabilidade demográfica; onde se desmontou a tese de uma invasão de refugiados na Europa e se defendeu a tese de que as migrações representam uma verdadeira bolsa de oxigénio para as sociedades contemporâneas, designadamente para Portugal, gostaria de destacar uma declaração espontânea proferida   quase no final do debate. Perante uma pergunta sobre a vertente humana das migrações e o papel do cidadão comum para a integração destes novos fenómenos demográficos, Jorge Malheiros admitiu que, para tratar desse aspecto, as fotografias de Sebastião Salgado eram melhores que os gráficos e mapas com que trabalha.

Pese embora algum embaraço e a simpatia circunstancial, não deixa de ser curioso que o reconhecido especialista de migrações tenha remetido para um outro tipo de discurso sobre o real, reconhecendo-lhe uma função epistemológica, que não se limita à ilustração subsidiária ou a uma esteticização facilmente digestiva. Por outras palavras, apontou para as imagens da  recomposição global daquilo a que Sebastião Salgado insiste em chamar a “família humana”, e que resultam da construção de um testemunho de instantes  fixados pela câmara fotográfica.

Evidentemente que nenhum fotógrafo, nenhum escritor, nenhum músico nem qualquer outro artista poderão alguma vez apresentar-se, ou ser apresentados, como  especialistas de migrações. Contudo, no âmbito da problemática social em causa, aquilo que o trabalho de cada um deles desenvolve  com os diferentes ou concorrentes  sistemas sígnicos, deve ser encarado como uma forma de conhecimento complementar às ciências sociais e humanas, na medida em que contribui para a reflexão retrospectiva e prospectiva do mundo que nos rodeia.

Perante a inflação de discursos opinativos e abusivamente aglutinadores que se servem das migrações para a batalha ideológica ou para os jogos de poder geopolítico, e diante da parafernália de meios ao serviço da sociedade de espectáculo, torna-se particularmente difícil mas ao mesmo tempo fundamental desenvolver formas de testemunho que sejam sensíveis tanto à dignidade estética como à urgência humanitária que exigem e merecem o migrante, o refugiado ou o exilado. É certo que existem cada vez mais sinais de envolvimento das artes nesta questão, seja através de artistas que são ou foram eles próprios migrantes e exilados, seja mediante a criação colectiva de discursos híbridos que convocam migrantes e não migrantes em ângulos e perspectivas diversos,  por meio  da música, da imagem, da narrativa, da poesia ou do ensaio[2], seja  ainda através do recurso a personagens e a enredos que remetem para o fenómeno migratório.

Todavia, essas formas de inclusão do fenómeno migratório não deixam e ser problemáticas e de exigir uma grande atenção (auto)crítica, no sentido de discussão da sua própria legitimidade, da sua limitação cognitiva, dos seus  limites estéticos e éticos[3]. Na maior parte das vezes, estamos perante uma fala indirecta do migrante, e nessa medida, de um discurso até certo ponto ilegítimo e contraproducente, como diria Gayatri Spivak[4]. Além disso, este enfoque narrativo não é completamente conformável à longa tradição literária e artística de deslocações marcadas pela descoberta e pela conquista.

Ora, num belíssimo texto polifónico a que deu o nome de “Na margem de lá – um lamento”[5], levado recentemente a cena no Teatro D. Maria II, Jorge Silva Melo coloca precisamente essa questão quando, logo na abertura, determina uma inversão fundamental  do canto épico de assinatura virgiliana:

Não, não cantes as armas
Não cantes o homem que venceu
Não cantes aquele que fundou uma cidade
Uma cidade. Roma.
Não cantes mais  Eneias, o vencido em Tróia
O que chegou a Cartago, sem forças, nu
Não cantes  mais  Eneias

 
De seguida, insiste naquele que deveria ser um novo papel do poeta:

Poeta, as tuas palavras deveriam lembrar a agonia dos naufragados,
os gemidos dos que não esperam
A respiração dos afogados
Os últimos suspiros
As tuas palavras poeta
deveriam recolher a minha mão
quando teima em alcançar o barco
E não o atinge
Os meus braços que não aguentam mais a criança que perco
Que a largam, sem força,
Que se vai
Havia de ser em ti, poeta, que a minha dor encontra abrigo
Consolo
A minha dor
Não não cantes aquele que venceu
Não cantes Eneias

 
Fazendo uso de uma grande economia de meios, despojado de quase tudo, excepto de um discreto jogo de luz e sombra sobre um cenário negro composto por cadeiras e por uma mesa longa (que parece evocar, sem a figurar, uma rudimentar embarcação carregando migrantes em travessia do Mediterrâneo), o texto encenado de Jorge de Silva Melo convoca directa ou indirectamente, vários textos que vão da Eneida de Virgílio, à Cantata de Dido de Correia Garção, A Nova Odisseia de Patrick Kingsley, Didone ad Enea de  Ovídio e Dido ou Queen of Carthage de Marlowe. Em vez da  narração em torno de um herói épico,  escutamos uma voz colectiva, de coro trágico, que vinca a repetição “Somos vinte, somos cem todas as noites chegamos e somos cem todas as noites”, e que alternará com outras falas  a dar voz às diferentes perspectivas de uma mesma  tragédia: o migrante que se afoga, aquele que se salva, o passador, o guarda fronteiriço ou polícia marítimo, as mulheres que ficam ou que partem, os que chegaram à “margem de lá”, mas que não são aí desejados nem reconhecidos, todos eles testemunhos verídicos a confundir-se com os destinos encantados de Dido e Eneias, numa travessia temporal do Mediterrâneo:

O mar que foi do amor é o mar da morte
A espada de Dido
Novo muro ergueu
Muro de tantas mortes
Mediterrâneo
É este o mar  da morte
Agora

 
Mais do que os números que, constantes e largos, confirmam o escândalo da impotência, são pronunciados nomes de homens e mulheres, numa litania que de algum modo rasga o esquecimento daquela que muitas vezes não passa de uma condição de exilado: alguém que partiu de um lugar sem lhe ser dado alcançar qualquer outro.

Poderá isto parecer pouco, apenas um lamento – anuncia, com uma angústia contida, o título de Jorge de Silva Melo. Mas a verdade é que existe uma enorme força nestas palavras cortantes de uma «ethopeia», [6]  quando narra aquilo que «as imagens não contam» e que outros discursos ignoram ou dispensam.

Ouvir, ver e atentar nestas vozes ensurdecidas pela espuma dos dias, faz-nos embarcar, também nós, num trajecto sem regresso à inocência do desconhecimento. Por isso mesmo é que encarar as migrações não pode deixar de ter em conta a sua representação estética.

Ana Paula Coutinho
(6 de Junho de 2017)

 
NOTAS
________________________________________________
[1] Vd. http://www.rtp.pt/play/p3189/e289104/fronteiras-xxi
[2] Vd. por ex. Décamper. De Lampedusa à Calais, un livre de textes et d’images un disque pour parler d’une terre sans accueil, Sous la Direction de Samuel Lequette et Delphine Le Vergos, Paris, La Découverte, 2016.
[3] Questões que Jorge de Silva Melo não deixa também de apontar de forma muito directa na nota de apresentação “E Nós? Vivemos.”
[4] Gayatri Spivak (1988). “Can The Subaltern Speak?” in Cary Nelson and Lawrence Grossberg (eds). Marxism and Interpretation of Culture, London, 1988, pp. 24-28.
[5] Um texto escrito e desenvolvido no âmbito de um seminário realizado pelos Artistas Unidos no TNDMII com a participação de Catarina Severino, Daniel Gamito Marques, Filipe Fictício, Henrique Mota Lourenço, Isabel Teles de Menezes, João Cachola, Leonor Buescu, Ricardo Cabaça, Rodolfo Freitas, Rui Almeida Paiva, Tiago Carvalho e Vanda Rodrigues.
Quero aqui deixar  manifestado  o meu agradecimento pela pronta generosidade com que Jorge de Silva Melo mo disponibilizou.
[6] Recorro aqui a um neologismo particularmente caro ao poeta e ensaísta francês, Jean-Claude Pinson, por coerência pragmática para com a célebre declaração hölderliana sobre a habitação poética do mundo (cf. Jean-Claude Pinson (2013). Poéthique. Une autothéorie, Seyssel, Champ Vallon, p. 9.

 

Seminário Aberto “O Cinema, a cidade e o film noir”

O Prof. Doutor Abílio Hernandez (Univ. Coimbra) irá realizar um Seminário Aberto no dia 6 de junho, às 15h30, na sala 203 (Geral, 2º piso).

Entrada livre.

 

CHAMADA DE ARTIGOS / CALL FOR PAPERS: PRORROGAÇÃO DE PRAZO

Cadernos de Literatura Comparada #37

Tema: Interdisciplinaridade

Orgs: Maria Clara Paulino, Maria Hermínia Laurel, Maria Teresa Oliveira

We are not students of some subject matter, but students of problems. And problems may cut right across the borders of any subject matter or discipline
(Karl Popper, Conjectures and refutations: the growth of scientific knowledge, 1963).

J. T. Klein e W. H. Newell, em 1997, e a Academia Nacional das Ciências dos Estados Unidos, em 2004, definem interdisciplinaridade como um processo integrador no qual informação, dados, técnicas, instrumentos, perspectivas, conceitos e/ou teorias de duas ou mais disciplinas se combinam com o fim de contribuir para um entendimento mais profundo ou para a resolução de problemas cujas soluções ultrapassam o âmbito de uma disciplina isolada. Toda a investigação interdisciplinar resulta, nesta perspetiva, da integração e síntese de ideias e métodos, distinguindo-se assim da multidisciplinaridade. Acrescente-se que a integração, segundo Klein, é sempre negociada, situacional e contingente. A abordagem interdisciplinar maleabiliza fronteiras disciplinares, perturba e rompe os quadros de referência das disciplinas, estimula a troca de ideias entre os diversos domínios científicos e desenvolve comunidades híbridas de conhecimento onde resolução não é sinónimo de falso consenso; pelo contrário, as diferentes “lentes” com que cada disciplina vê o mundo são claramente definidas, possibilitando-se, assim, a negociação de conflitos e a construção de território comum.

O número 37 dos Cadernos de Literatura Comparada, editado por Maria Clara Paulino, Maria Hermínia Laurel e Teresa Oliveira, acolhe artigos que incidam sobre aspetos históricos e/ou teórico-críticos da interdisciplinaridade ou que reflitam sobre vertentes da prática interdisciplinar.

Os textos propostos poderão ser redigidos em língua portuguesa e inglesa, e devem ser acompanhados por um resumo em ambas as línguas. Todos os artigos aceites para publicação estarão sujeitos a um processo de blind peer review.

Prazo: 30 de junho 2017

Submissão: cadernos.peerreview@gmail.com

Mais informações: http://ilc-cadernos.com/index.php/cadernos/about/submissions#authorGuidelines

Seminários do Fim do Mundo | Série V

No dia 22 de junho (um dia depois do solstício de verão), às 18h, na sala de reuniões (piso 2), decorrerá mais um seminário do fim do mundo, com a presença de Ana Luísa Amaral, Diogo Martins e João Pedro Costa. A entrada é livre.