Total Training: poesia e arte multimédia na Galiza a partir de Antón Reixa

No próximo dia 31 de março às 17h30, o Prof. Doutor Burghard Baltrusch estará na sala de reuniões 2 da FLUP para o seminário aberto “Total Training: poesia e arte multimédia na Galiza a partir de Antón Reixa”. A entrada é livre.

Desde a sua participação no grupo vanguardista viguês Rompente (1975-1983), Antón Reixa (*1957) tem sido um dos mais versáteis representantes da poesia, vídeo-arte e performance na Galiza. Mas também foi letrista e vocalista do já histórico grupo rock “Os Resentidos“ (1982-94), criador e moderador do mítico programa “Galicia Sitio Distinto“ (TVG, 1990-91), produtor da primeira telenovela galega (“Mareas vivas”, 1998) e, também, realizador da adaptação cinematográfica (1999) do romance O lápis do carpinteiro de Manuel Rivas. Ultimamente, tanto a grande exposição “Leccións de cousas” (2011) no Centro Galego de Arte Contemporânea como o livro de poesia homónimo, culminaram, até agora, uma das obras multimédia mais importantes no panorama cultural da Galiza pós-franquista.

O seminário pretende introduzir a uma série de aspectos paradigmáticos da poesia e da obra multimedial de Reixa. Oferecer-se-á uma breve contextualização em relação à história de uma cultura minorizada, à formação da sua identidade e à literatura do século XX na Galiza. Analisar-se-á uma selecção de textos e vídeos, principalmente do vídeo-livro Ringo Rango (1990), entre outros exemplos.

Nota biobibliográfica:

Burghard Baltrusch é professor de Literatura em Língua Portuguesa e investigador do grupo GAELT e da I Cátedra Internacional José Saramago na Universidade de Vigo. Desenvolve pesquisas sobre as obras de Fernando Pessoa e José Saramago, a poesia galega e portuguesa da actualidade, como também em teoria da tradução. Integrou diferentes projectos de investigação sobre a poesia contemporânea; coordenou programas de doutoramento; foi presidente da Asociación Internacional de Estudos Galegos e organizou vários congressos internacionais. Publicou ou editou, entre outros, os seguintes livros Bewußtsein und Erzählungen der Moderne im Werk Fernando Pessoas (Peter Lang, 1997), Kritisches Lexikon der Romanischen Gegenwartsliteraturen (5 vols., coed. com W.-D. Lange et al., G. Narr-Verlag, 1999), Non-Lyric Discourses in Contemporary Poetry (coed. com I. Lourido, Peter Lang, 2012), Lupe Gómez: libre e estranxeira – Estudos e traducións (Frank & Timme, 2013), “O que transformou o mundo é a necessidade e não a utopia” – Estudos sobre utopia e ficção em José Saramago (Frank & Timme, 2014).
Site: https://uvigo.academia.edu/BurghardBaltrusch.

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A “irmã de Newton” e as mulheres na ciência: contextos e percursos

No dia 6 de Abril às 17h30, a Profª Doutora Maria Conceição Ruivo (U. Coimbra) estará na Sala de Reuniões 2 da FLUP para uma palestra sobre as mulheres e a ciência. A entrada é livre.

Na sua obra A Room of One’s Own, Virgina Woolf desafia-nos a seguir o percurso de Judith Shakespeare, uma imaginária irmã gémea de Shakespeare, tão talentosa como o irmão. Ao contrário de William, Judith nunca viria a escrever obras imortais e cedo sucumbiria na luta para o conseguir. Tal como à irmã de Shakespeare, também a muitas “irmãs de Newton” terão sido negadas três condições fundamentais para ficar na história da ciência: educação, condições para criar conhecimento e reconhecimento dos pares.

O objectivo desta palestra é, através da análise do percurso de algumas mulheres de ciência, reflectir sobre os condicionamentos impostos pelos contextos sociais e culturais no trabalho científico das mulheres. Evitando cair nos extremos de as tratar como vítimas ou heroínas, debruçar-nos-emos sobre a existência (ou ausência) das condições atrás referidas no trajecto destas mulheres.

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Em breve: o número 11 da coleção Pulsar

Sai em breve o número 11 da coleção Pulsar. A apresentação e a tradução do livro de Carlo Ginzburg estão a cargo de Maria de Lurdes Sampaio.

“Trazendo à luz do dia as histórias rasuradas pela cultura oficial, a micro-história redefine a relação entre a cultura de elite e a cultura popular, ao valorizar o papel de indivíduos singulares, comuns e/ou anónimos, bem como o contributo de grupos marginais e subalternos na vida das comunidades, apontando-os como agentes da História, tão importantes como as figuras das grandes narrativas seriais produzidas pela historiografia tradicional. A tendência revisionista da micro-história manifesta-se, entre outros aspectos, na “redução da escala de observação”, articulando-a com a prática do zoom sobre micro-contextos, sobre objectos ou casos singulares e irrepetíveis, e sobre assuntos “menores” da vida quotidiana das comunidades. Ou ainda pela exploração de nexos inusitados entre realidades aparentemente díspares, como acontece no ensaio Morelli, Freud and Sherlock Holmes: Clues and Scientific Method, agora traduzido para português.”

Acolhimento de novos projetos

O Instituto de Literatura Comparada desenvolve os seus objetivos estratégicos fundados nos princípios basilares da área científica da Literatura Comparada, alargando-se a perspetivas quer interartísticas, quer oriundas das Ciências Sociais e Humanas e/ou das Ciências Exatas como a Física e Biologia e/ou de Ciências Aplicadas, como a Medicina, de modo a equacionar, com espírito crítico, problematizante, um conjunto de questões que exigem tratamento transdisciplinar e intersemiótico.

Os três grupos de investigação – Inter/Transculturalidades, Intermedialidades e Intersexualidades – que estruturam esta Unidade I&D, procuram desenvolver um trabalho de referência diferenciado mas, igualmente, complementar, tendo presente um modelo de investigação inclusivo e participante.
Neste sentido, o ILC propõe-se como instituição de acolhimento científico a projetos de doutoramento e de pós-doutoramento, que possam ir ao encontro dos princípios e propósitos referidos e desde que cumpram cumulativamente as seguintes condições:

a) os candidatos beneficiem de uma bolsa de doutoramento ou pós-doutoramento (FCT; CAPES, Starting Grants ERC, Acções Marie-Currie…) que permita o reconhecimento formal do ILC enquanto instituição de acolhimento científico;
b) os candidatos devem ter como orientador/a (ou co-orientador/a), do seu projeto, um/a investigador/a do ILC.

Para uma avaliação científica prévia da Direção do ILC, solicita-se aos candidatos que apresentem os seus projetos até 1 mês antes da abertura oficial dos concursos a que se propõem.

Das básicas e humanas situações: uma curta nota de leitura

a sabedoria do opressor
esta é a língua do opressor

e todavia preciso dela para falar contigo
Adrienne Rich (1968)

Carol é o título usado nalgumas edições inglesas e australianas para o romance The Price of Salt1, de Patricia Highsmith, inicialmente publicado nos Estados Unidos, sob o pseudónimo de Claire Morgan. Rejeitado pela Harper & Bros., que havia dado à estampa, em 1950, o primeiro romance de Highsmith, O desconhecido do Norte Expresso, o livro seria aceite por uma outra editora, a Coward-McCann, que o publicaria em 1952.

“Claire Morgan – O Preço do Sal – Um romance moderno sobre duas mulheres”, lia-se na capa dessa primeira edição. No ano seguinte, a Bantam Books reeditaria o romance em formato brochura. A frase “Uma história de amor proibida pela sociedade” e uma citação do New York Times dizendo que o livro “[tratava] material explosivo, com sinceridade e bom gosto” constavam da capa da edição de 1953 da Bantam Books. Trinta anos haveriam de passar até o pseudónimo de Claire Morgan ser substituído pelo nome da autora que o havia criado. E o título do livro oscilaria, consoante as editoras e os países de expressão inglesa onde veria inúmeras reedições, entre The Price of Salt e Carol. Foi o segundo título o que agora se escolheu para a presente tradução.

(…)

Embora Patricia Highsmith tematize a viagem2 e recorra a alguns elementos do romance policial, presentes já em O desconhecido do Norte Expresso e depois recorrentes nos seus livros posteriores, de Highsmith, aquilo que tornaria este romance um êxito junto do grande público dos anos 1950 seria o tratamento da relação amorosa homossexual e o desfecho “feliz” da narrativa – algo único na vasta obra de Patricia Highsmith e completamente inédito até então nos textos ficcionais de temática semelhante.

(…)

Os anos 1950, com a expressão irracional do macarthismo, testemunham uma série de acontecimentos intimamente ligados às memórias da Grande Depressão, à Segunda Grande Guerra e ao começo da Guerra Fria (a vitória de Mao Tsé-Tung, na China, a hegemonia da União soviética na Europa de Leste, a economia arruinada da Europa ocidental) que encorajam a exploração de medos sobre a segurança nacional. “Era um Verão estranho e opressivo, o Verão em que electrocutaram os Rosenbergs e eu não sei o que fazia em Nova Iorque” – a frase com que abre The Bell Jar, de Sylvia Plath, escrito no início dos anos 1960, denuncia, na referência ao Verão de 1953, esse ambiente de paranóia vivido na América da década de 1950, onde a ameaça do comunismo está não surpreendentemente ligada à “ameaça homossexual”.

Era o período em que o Senado norte-americano autorizava a abertura de investigações relativamente a funcionários de Estado “homossexuais ou outros pervertidos morais”. A lógica bizarra por detrás deste tipo de medidas (que incluíam, por exemplo, a possibilidade de os Correios violarem a correspondência de indivíduos suspeitos de homossexualidade) prendia-se com a própria noção de “degenerado” ou “pervertido sexual”: alguém capaz de “exercer uma influência corrosiva nos colegas de trabalho”, “tentando frequentemente seduzir indivíduos normais”, o que se afiguraria mais grave no caso de “pessoas jovens e impressionáveis”; sobretudo (daí o perigo para a segurança do país), alguém “mais sensível à chantagem”; como se podia ler num relatório do Senado: “já enfraquecidos pela indulgência sexual, os homossexuais podem sucumbir à chantagem dos espiões”.3

Nunca a repressão às relações homoeróticas terá sido tão intensamente concentrada como nessa década. Mas as formas de penalização dirigidas contra as pessoas homossexuais tornaram-se tão violentas e humilhantes que alimentaram uma consciência colectiva da opressão, acabando por preparar o terreno para os movimentos cívicos dos anos 1960.4 Carol espelha essas duas realidades: a consciência da injustiça e da repressão e os efeitos de um pensamento social profundamente homofóbico que, necessariamente, implica também os próprios sujeitos que discrimina. Há, no romance, um ponto paradigmático deste duplo padrão: o momento em que Carol narra a Therese uma relação lésbica anterior (com Abby, uma amiga), dizendo-lhe que contara o caso ao marido. Therese pergunta-lhe: “Ele ainda fala consigo sobre isso?” (p. 188) O diálogo que se segue é eloquente:

    “Não. E há algo para falar? Isto é motivo de orgulho?”
    “É algo de que as pessoas se devam envergonhar?”
    “É. Sabe disso, não sabe?”, perguntou Carol, em tom neutro e claro. “Aos olhos do mundo, é uma abominação”.
    Therese não conseguiu sorrir da forma como Carol proferiu as palavras. “A Carol não acredita nisso!”
    “Mas gente como a família do Harge acredita”.
    “Eles não são o mundo inteiro”.
    “Mas são suficientes. E é no mundo que temos de viver.” (p. 189)

(…)

A voz do social e do institucional, com a patologização da homossexualidade, está magnificamente representada na personagem de Richard, através de uma carta de despedida que escreve a Therese:

    (…) agora a emoção mais forte que sinto em relação a ti é a que esteve presente desde o início: repugnância. O que me enoja é o tu te teres ligado a essa mulher como te ligaste, a ponto de excluíres todas as outras pessoas, é essa relação que, tenho a certeza, se tornou sórdida e patológica – é tudo isso que me enoja. Sei que não durará, como te disse desde o início. Só é lamentável que isto te vá repugnar mais tarde, na proporção do desperdício em que transformaste agora a tua vida. É sem raízes, é infantil, é como viver de flores de lótus, ou de algum doce enjoativo, em vez de viver do pão e da carne que fazem a verdadeira vida. (p. 234-5).

Em termos narratológicos e do ponto de vista sociológico, esta carta é fundamental na reprodução das leituras psicanalíticas da homossexualidade feminina, sendo ainda essencial pelo seu valor antecipatório (e premonitório). É que ela surge quase no final do romance, um dia antes de Therese receber uma outra carta, essa de Carol. A carta de Carol antecipa o ponto de viragem no processo de crescimento de Therese e reafirma a força do discurso social hegemónico, vindo de uma das mais importantes instâncias reguladoras do poder: o aparelho jurídico. Nessa carta, o leitor é informado das provas irrefutáveis reunidas pelo detective e usadas pelos advogados do marido de Carol no processo de custódia da filha de ambos. Uma desolada, mas tocante, declaração de amor, a carta afirma ainda da indignidade imposta à demanda pela dignidade e pelo direito a ter direitos:

    Nem sequer vou a tribunal (…) não faria sentido enfrentar um júri, perante estes factos. Eu teria vergonha, não por mim, estranhamente, mas pela minha filha, já para não dizer que não quero que a Therese tenha de comparecer. Tudo foi muito simples esta manhã. Eu rendi-me, pura e simplesmente rendi-me. O que agora parece importar é o que tenciono eu fazer no futuro, disseram os advogados. Da minha decisão depende tornar a ver a minha filha (…). O que me perguntaram foi se eu deixava de a ver (e a outras como a Therese, acrescentaram eles!). A Therese diz que me ama seja eu como for, mesmo quando praguejo. Eu digo que a amarei sempre, a pessoa que é e a pessoa em que se tornará. Di-lo-ia em tribunal, se fizesse algum sentido para aquela gente, ou se pudesse mudar algo, porque não são dessas palavras que tenho medo, minha querida. (p 239-41).

Mais adiante, na mesma carta, pode ler-se:

    (…) a atitude deles era a de quem pensava que eu devia ser demente, ou pelo menos cega. Mostravam até uma espécie de pena por uma mulher relativamente atraente parecer estar indisponível para os homens. Houve alguém que trouxe a “estética” para a discussão. Contra mim, claro. Eu perguntei que se eles queriam de facto discutir isso, o que provocou a única gargalhada de toda a sessão. (…) Foi dito ontem, ou ficou pelo menos implícito, que o meu rumo presente me conduziria às profundezas do vício e da degenerescência humana. É verdade, eu afundei-me muito desde que eles a arrancaram de mim. E é também verdade que se eu continuar assim, e for continuamente espiada, atacada, nunca possuindo uma pessoa o tempo suficiente, conhecendo-a só de forma superficial – isso é degenerescência. Viver ao arrepio do que somos – isso é, por definição, degenerescência. (p. 241-2).

As palavras de Carol ilustram, de forma comovedora, a perseguição às relações homoeróticas em nome de um discurso fundado na manutenção de um pensamento e de uma organização social heteronormativa. Os segmentos mais importantes desse discurso discriminatório e cruel estão presentes nestes excertos, onde a homossexualidade é apresentada como “vício” e como “degenerescência”, com ela se relacionando a questão da “estética”, abordando uma ideia ainda existente na altura, de que à deformação moral do homossexual corresponderia a deformação física. Mas, se as palavras de Carol ilustram essa agressão, elas representam também a resistência a uma cultura de secretismo, não obstante as penalizações legais, sociais e pessoais, optando pela perspectiva da visibilidade, assim como denunciam o custo verdadeiro do que é “viver ao arrepio do que somos” (p. 242).

(…)

Não deixa de ser irónico que Patricia Highsmith tenha escolhido O Preço do Sal como primeiro título de um livro centrado nas diferenças e na fuga à normatividade, assim se servindo do que de mais canónico existe na cultura ocidental: a Bíblia. “O sal da terra”, do Sermão da Montanha, funciona como metáfora para a restituição da dignidade e da justiça. Aí, pode ler-se: “Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal perde o sabor, como restaurar-lhe o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.” É em nome de tudo o que o sal, na sua simplicidade complexa, simboliza (o equilíbrio, o sabor, o sentido da vida) que as duas protagonistas lutam. E é sobretudo na consciência de que é alto o preço que se tem de pagar para o adquirir. O preço do sal funciona, pois, como metáfora para aquilo que a obra resiste a ser, embora sendo-o: uma situação humana básica sobre o amor. Ou seja, um clássico, como é sugerido no romance.5

“Que amor é tudo o que há / É tudo o que sabemos do amor”, escrevia Emily Dickinson, cerca de 1863. Pouco mais de cem anos depois, em 1968, a poeta e ensaísta norte-americana Adrienne Rich compunha um poema intitulado “Queimar papéis em vez de crianças”.6 É igualmente da convivência do incerto e do paradoxal com o que de mais basicamente humano nos constitui enquanto seres humanos que falam dois passos desse poema de Adrienne Rich, com que ilustro e concluo esta pequena nota de leitura. No primeiro desses momentos, o final do poema, lê-se:

    Junto palavras na máquina de escrever, pela noite dentro, pensando no dia de hoje. Que bem que todos falávamos. Uma língua é um mapa dos nossos erros. Frederick Douglass escrevia num inglês mais puro que o de Milton. As pessoas sofrem desesperadamente na pobreza. Há métodos, mas não os usamos. Joana, que não sabia ler, falava uma forma camponesa de francês. Algum do sofrimento é: é duro dizer a verdade; isto é a América; não posso tocar-te agora. Na América temos só o tempo presente. Estou em perigo. Estás em perigo. O queimar de um livro não desperta em mim qualquer sensação. Sei que queimar dói. (…) A máquina de escrever está sobreaquecida, a minha boca queima, não te posso tocar agora, e esta é a língua do opressor.

No outro momento, a voz do poema diz, inconclusiva:

    E todavia preciso dela para falar contigo

O poema de Adrienne Rich é um poema em que sabiamente se entrecruzam o lírico e o político. O mesmo acontece neste romance. Porque é tão simplesmente da necessidade de falar e de amar numa língua nova, mesmo sabendo-se que esse movimento terá de surgir de dentro da língua já existente, fazendo-a explodir, se necessário for, que trata, afinal, Carol. Nessa tentativa, que é gesto de resistência, de ordenação de um mundo marcado por iniquidades, desmandos e violências reside a sua inscrição nos nossos tempos.

Ana Luísa Amaral
Coordenadora Científica do Grupo Intersexualidades do ILCML

 


1 Traduzido pela primeira vez em Portugal com o título O Preço do Sal, por Fernanda Pinto Rodrigues (Mem Martins: Europa-América, 1993).

2 Pense-se no sem número de obras que recorrem ao tema da viagem, usando a estrada, ou a demanda, traços firmemente estabelecidos na cultura norte-americana, desde “The Song of the Open Road” (1855), de Walt Whitman, passando por David Thoreau, Emily Dickinson, Mark Twain, John Steinbeck (ou, mais recentemente, Cormac McCarthy, ou Jane Smiley). É nessa linhagem que Carol parcialmente se inscreve, nesse rumo sem rumo, mas em direcção ao Oeste americano, a uma espécie de lugar de inocência, tão fundamental em romances como The Great Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald. Isto torna-se explícito num passo como este:

    Continuaram em direcção a Oeste, passando por Sleepy Eye, por Tracy e por Pipestone, fazendo desvios sempre que lhes apetecia. O Oeste era um tapete mágico desdobrando-se, salpicado por unidades arrumadas e limpas, formadas por quinta, celeiro e silos, perfeitamente delineadas na paisagem, visíveis à distância, mais de meia hora antes de as alcançarem. Pararam uma vez, numa quinta, para perguntar se podiam comprar gasolina que lhes chegasse até à estação de serviço seguinte. A casa era fresca, cheirava a queijo acabado de fazer. O som dos passos delas nas traves castanhas do soalho era cavo e solitário e Therese pensou, num súbito fervor patriótico – América (p. 280)

O tópico da estrada, ou da demanda, surge, assim, como elemento real e metafórico: é também uma viagem de auto-conhecimento que Carol e Therese encetam, culminando numa redescoberta de espaços e de mundos interiores, que se cruzam com a descoberta de uma sexualidade não normativa e com a reivindicação de um espaço de liberdade para a sua expansão.

3 Para mais informações sobre esta questão, ver John D’Emilio, Making Trouble: Essays on Gay History, Politics, and the University (New York: Routledge, 1992).

4 Refiro-me ao aparecimento (transnacional) dos movimentos sociais de contestação: as lutas pelos direitos cívicos – pelo fim da segregação racial, no caso norte-americano, ou pelo acelerar dos processos de descolonização, no caso europeu –, os movimentos estudantis, as preocupações ecossistémicas, a luta pela emancipação das mulheres (também chamada Segunda Vaga), a reivindicação, por parte das minorias, da expressão de uma voz e de um lugar próprios, muitas vezes oriundas do próprio seio institucional e estendendo-se depois ao domínio mais lato do social. E se os anos do pós-guerra representaram um libelo contra as relações homoeróticas, é importante relembrar, tanto mais que é de uma relação entre mulheres que trata Carol, que esses anos representaram igualmente um duro retrocesso para as mulheres: enviadas de novo para a esfera privada, depois de terem participado no esforço de guerra, de novo reduzidas à função de esposas e mães, agora aprisionadas num sem fim de sedutores “auxiliares domésticos”, como máquinas de lavar, aspiradores, frigoríficos ou enceradoras. Pense-se, de resto, que nunca se publicaram tantos livros sobre jardinagem e culinária (dirigidos a um público feminino) como nos anos 1950.

5 Veja-se o passo em que Therese diz a Carol que Richard se queixara de que “não podia competir”. (p. 153):

    “Falas, como nas peças!”, disse Carol. “Não posso competir. E falam as pessoas dos clássicos…! Essas falas é que são clássicas! Milhares de pessoas diferentes hão-de dizer as mesmas palavras. Há falas para a mãe, falas para a filha, falas para o marido, falas para o amante. Antes ver-te morta aos meus pés. É a mesma peça repetida com actores diferentes. O que se diz tornar uma peça um clássico, Therese?”
    “Um clássico…”, a voz de Therese soava tensa e abafada, “um clássico é algo com uma situação humana básica” (p. 154).

6 Sirvo-me aqui da minha própria tradução do poema de Adrienne Rich “The Burning of Papers Instead of Children” (1968), in “Afinidades electivas: 5 poemas”, Margarida Losa, In Memoriam (org. Ana Luísa Amaral e Gualter Cunha), Porto, FLUP, 2006, pp. 231-4.

in Carol, de Patricia Highsmith, trad. e nota de leitura de Ana Luísa Amaral, Lisboa, Relógio D’Água, 2015, pp. 277-291.