Seminário Aberto: “Um violoncelo todo seu: diálogos interartes em Guilhermina de Mário Cláudio”

guilhermina

No próximo dia 23 de fevereiro, pelas 15h30, na sala do Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos (DEPER) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, terá lugar o seminário aberto subordinado ao título “Um violoncelo todo seu: diálogos interartes em Guilhermina, de Mário Cláudio”, orientado por Jorge Valentim (UFSCar).

Colóquio Internacional Vergílio Ferreira – Escrever e Pensar ou O Apelo Invencível da Arte

Para Vergílio Ferreira, a “alegria breve” da vida, luz intensíssima e frágil face ao tempo cosmológico, é a grande razão do ser e da escrita, conforme explicitou em vários momentos reflexivos da sua obra: “Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo.” Aqui nascem também as grandes raízes conceptuais do seu pensamento, fundado em torno de algumas obsessões permanentes, como a aparição, o equilíbrio interior, a Grande Ordem, ou o sentimento estético.

A obra de Vergílio Ferreira é uma das mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Os inúmeros artigos e estudos que a mesma tem originado comprovam a vitalidade de uma escrita e de um pensamento que continuam, no presente, a suscitar a interrogação sobre a condição e o destino humanos, bem como sobre a literatura e o mistério da Arte.

Foi para festejar a grandeza desta Obra que a Câmara Municipal de Gouveia elaborou um Programa Comemorativo do Centenário do Nascimento de Vergílio Ferreira (1916-2016), que decorrerá ao longo de todo o ano de 2016. Integrado nesse programa, o Município de Gouveia e o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) organizam, no sentido de prolongar aquela indagação, o Colóquio Internacional Vergílio Ferreira – Escrever e Pensar ou O Apelo Invencível da Arte, que se realizará a 18 e 19 de maio de 2016, no Porto, e a 20 e 21 de maio, em Gouveia. A organizaçao conta com a colaboração da Abraplip – Associaçao Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória e do Grupo de Investigação Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal do Instituto de Filosofia, ambos da FLUP.

O Programa do Colóquio privilegia os seguintes eixos temáticos:

  • Da escuta a escrita: correlações intersubjectivas, interartísticas e intertextuais;
  • Fronteiras discursivas e inclusão textual: do romance-problema à conta-corrente dos dias;
  • Modos e modalidades da «arte de pensar»: Vergílio Ferreira, entre o Sagrado e a Filosofia, a Ética e a Estética, a Poesia e a Política;
  • «A alma do meu país teve o tamanho do mundo»: Portugal e a Europa no pensamento vergiliano;
  • O(s) espaço(s) na ficção de Vergílio Ferreira.

Línguas oficiais: Português, Espanhol, Francês e Inglês.

 
Programa atualizado

18 DE MAIO DE 2016
Local | Fundação Eng.º António de Almeida

14h30 >> Sessão Solene de Abertura

Evocação do Colóquio Comemorativo dos 50 Anos da Vida Literária de Vergílio Ferreira (1993)
– excerto do filme (20’)

15h45 >> Conferência de Abertura |Moderadora: Ana Paula Coutinho
Fernanda Irene Fonseca (Univ. Porto) – Até à hora do fim: o “impossível repouso”

16h30 >> Conferência 1| Moderadora: Isabel Pires de Lima
Yana Andreeva (Univ. Sófia) – O diário e o diarista em diários de escritores portugueses

17h00 >> Pausa

17h30 >> Em diálogo com Vergílio Ferreira | Moderador: Gonçalo Vilas-Boas
Agrupamento de Escolas de Vilela (Paredes) – supervisão de Isabel Margarida Duarte e Sónia Rodrigues
Universidade Sénior Rotary da Póvoa de Varzim
Universidade Sénior Douro Cultura da Foz

18h30 >> Dois Testemunhos | Moderadora: Celeste Natário
Participação: Rodrigues Paiva (Univ. de Pernambuco) / Perfecto Cuadrado (Univ. das Ilhas Baleares)

19h00 >> Apontamento musical – Melodiartes

20h30 >> Jantar | Restaurante Casa da Música (sujeito a inscrição)

19 DE MAIO de 2016

9h30 >> Conferência 2| Moderadora: Joana Matos Frias
Rosa Maria Goulart (Univ. Açores) – Uma vida a pensar e a escrever – até ao fim

10h00 >> MESA A | Moderadora: Maria de Fátima Outeirinho
Ana Paula Coutinho (ILC – Univ. Porto) – Vergílio e a Europa: um escritor a pensar em cont(r)a- corrente
Bruno Béu de Carvalho (CEC – Univ. Lisboa) – Vergílio Ferreira: a possibilidade poética do ‘eu’ e o negativo interrogativo da narração/identidade
Tânia Moreira (CITCEM) – Notas vergilianas sobre a Arte e o Mal

10h00 >> MESA A1| Moderadora: Maria João Reynaud
Arnaldo Saraiva (CITCEM – Univ. Porto) – Vergílio Ferreira e Marmelo e Silva
Manuel Cândido Pimentel (UCP) – Da decifração do tempo em Vergílio Ferreira
José da Costa Macedo (Univ. Porto) – A dimensão estética e a centralidade antropológica da inquietação metafísica de Vergílio Ferreira

11h15 >> Pausa

11h30 >> MESA B | Moderadora: Maria Luísa Malato
Celeste Natário (IF – Univ. Porto) – Vergílio Ferreira e o que está antes da escrita
Magdalena Doktorska (Univ. Varsóvia) – “Estrela binária” de Vergílio Ferreira – os percursos do Saber e Ser-se-aí em busca da epísteme do Homem
Hugo Monteiro (GFMC-IF/INED) – Faces da tua face. Uma escrita da interpelação em Vergílio Ferreira

11h30 >> MESA B1 | Moderadora: Šárka Grauová
Cândido Oliveira Martins (UCP) – Vergílio Ferreira, crítico literário entre a estética e a ética
Célia M. C. Pinto (IELT/FCSH-UNL) – Espelhos da escrita na revelação e na questionação da consciência autobiográfica vergiliana
Renato Epifânio (IF – Univ. Porto) – Em diálogo com Vergílio Ferreira: por um neo-humanismo

13h00 >> Almoço

15h00 >> Conferência 3| Moderadora: Zulmira Santos
Perfecto Cuadrado (Univ. das Ilhas Baleares) – Vergílio Ferreira em España: fulguração intermitente

15h30 >> MESA C | Moderadora: Isabel Morujão
Maria João Reynaud (CITCEM – Univ. Porto) – Raul Brandão lido por Vergílio Ferreira
Pedro Meneses (CEHUM – IPVCastelo) – O peso de estar vivo segundo Vergílio Ferreira e Gonçalo M. Tavares
Leonor Castro (Esc. Sec. de Fafe) – Figurações da velhice nos romances Em Nome da Terra e a máquina de fazer espanhóis

15h30 >> MESA C1 | Moderadora: Isabel Cristina Rodrigues
Joana Matos Frias (ILC – Univ. Porto) – «Medir um abismo»: A Poesia segundo V.F.
Ana Maria Seiça de Carvalho (CECHUC) – ‘Bailado Final’: o corpo que dança na pintura literária de Vergílio Ferreira
Nelson Miguel Bandeira – Vergílio Ferreira e Carlos Castán, dois escritores-leitores em busca do sentido da palavra dos livros

16h45 >> Pausa

17h00 >> MESA D | Moderadora: Luci Ruas
Celina Silva (Univ. Porto) – Vestígios, reflexos, imagens
Leonor Figueiredo (Univ. Porto) – Carta registada com aviso de recepção – arte, memória e construção
Nuno dos Santos Sousa (FCSH-UNL) – Na tua Face: o Rosto, o Obsceno e os Mitos

17h00 >> MESA D1 | Moderadora: Ana Turíbio
António Braz Teixeira (Instituto Filosofia Luso-Brasileira) – A reflexão estética de Vergílio Ferreira
Maria José Dias (ILC – Univ. Porto) – O corpo e o Homem – entre a pergunta e a interrogação
Rui Miguel Mesquita (Univ. Porto) – Uma brusca frialdade: desconexão e descontinuidade do espaço em Manhã Submersa

18h20 >> Encerramento dos trabalhos no Porto

20 DE MAIO de 2016
Local | Teatro Cine de Gouveia

9h15 >> Mensagem de Boas-vindas do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Gouveia

9h30 >> Conferência 4| Moderadora: Isabel Pires de Lima
Luci Ruas (UFRJ) – Vergílio Ferreira, leitor crítico de Raul Brandão

10h00 >> MESA E | Moderadora: Ana Paula Coutinho
Gavilanes Laso (Univ. Salamanca) – A morte em Vergílio Ferreira
Ana Margarida Fonseca /Isa Vitória Severino (IPGuarda) – Em nome da Terra – entre a falência do corpo e a persistência da memória.
Amadeu Lopes Sabino – O Alentejo de Vergílio Ferreira

11h30 >> Pausa

11h45 >> MESA F | Moderadora: Rosa Maria Goulart
Jorge Costa Lopes (ILC – Univ. Porto) – Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço: fragmentos de um diálogo
Jorge Valentim (UFSCar – FAPESP) – Mozart e Dürer: Diálogos interartes
João Tiago Lima (Univ. Évora) – Sangue em pensamento – sobre dois ensaios de Vergílio Ferreira
Vitor Ló (CEF-UCP) – Vergílio Ferreira e o desporto

13h20 >> Almoço

14h30 >> Conferência 5| Moderadora: Yana Andreeva
Šárka Grauová (Univ. Praga) – Cifras de transcendência: Vergílio Ferreira e Maurice Merleau Ponty

15h00 >> MESA G | Moderador: Jorge Valentim
Isabel Cristina Rodrigues (Univ. Aveiro) – Heteropsicografia: Pessoa, Vergílio e o lugar da dor
António Gordo – Pensar, em romance
João Moita – No final era o Verbo e não havia Deus: a palavra absoluta de Vergílio Ferreira e Herberto Helder

16h30 >> Pausa

16h50 >> MESA H | Moderadora: Luci Ruas
Isabel Pires de Lima (ILC – Univ. Porto) – Pintura e pinturas em Vergílio Ferreira
Ana Turíbio (UNL) – Contributo para o estudo da génese do espaço em O Caminho fica longe de Vergílio Ferreira
Gabriel Magalhães (UBI) – O que foi feito, afinal, do cântico vergiliano?

21h30 >> Momento musical | Grupo de Fados de Coimbra – In Illo Tempore

21 DE MAIO de 2016

9h30 >> MESA TESTEMUNHOS | Moderador: Jorge Costa Lopes
Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Liberto Cruz, Alípio de Melo, Ángel Marcos de Dios

10h30 >> Conferência de Encerramento | Moderadora: Fernanda Irene Fonseca
Helder Godinho (UNL) – Vergílio Ferreira, a palavra e a ausência

11h15 >> Apresentação do documentário: Aldeia Eterna, produzido pela GMT, Produções.

12h30 >> Almoço

14h30 >> Visita à Aldeia Eterna – Melo

20h00 >> Jantar

21h30 >> Concerto “Por entre os sons da Música”, com a Orquestra Ligeira de Gouveia

Comissão Científica:
Alípio de Melo
António Saez Delgado
Carlos Reis
Fernanda Irene Fonseca
Gabriel Magalhães
Helder Godinho
Joana Matos Frias
Jorge Costa Lopes
Maria Celeste Natário
Maria João Reynaud
Otávio Rios

Identidades, determinismo e susceptibilidade: nas fronteiras da nova genética

No próximo dia 24 de Fevereiro de 2016, terá lugar, pelas 17h30, no Departamento de Estudos Germânicos da FLUP, o seminário aberto de Claudio E. Sunkel (i3s, IBMC, ICBAS) subordinado ao título “Identidades: determinismo e susceptibilidade nas fronteiras da nova genética”.

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Conceitos nómadas e interdisciplinaridade

Pormenor de Map of Total Art (2012) de Qiu Zhijie (fotografia de Ed Jansen)

 

A noção de interdisciplinaridade envolve uma certa fluidez conceptual, podendo contemplar a complexidade ou hibridez do objecto, a complexidade do objectivo a atingir, ou ainda a complexidade dos métodos de trabalho delineados. Igualmente variável é o modo como a noção de interdisciplinaridade pode ser articulada com a de transdisciplinaridade. Veja-se o facto de a Network for Transdisciplinary Research (td-net), sediada nas Academias Suíças da Ciência, optar por fazer uma abordagem conjunta dos dois conceitos, remetendo para a Academia das Ciências estadunidense, que entende a interdisciplinaridade como um termo abrangente (umbrella term) do qual a transdisciplinaridade seria uma subcategoria. A definição da investigação interdisciplinar proposta pela US National Academy é então esta:

    Interdisciplinary research is a mode of research by teams or individuals that integrates information, data, techniques, tools, perspectives, concepts, and/or theories from two or more disciplines or bodies of specialized knowledge to advance fundamental understanding or to solve problems whose solutions are beyond the scope of a single discipline or area of research practice.

Especialmente na vertente transdisciplinar, a interdisciplinaridade desenvolve um processo integrativo de várias disciplinas ou campos de conhecimento de competências reconhecidas, reunidos com um propósito de resolução de questões específicas. É a pertinência deste propósito que justifica a opção interdisciplinar. Os critérios que a determinam e avaliam podem ser diversificados, e embora sejam maioritariamente científicos também contemplam parâmetros sociais, económicos, culturais, artísticos… Seja como for, todos esses critérios reivindicam uma maior adequação a um objecto ou a um objectivo, tidos como mais complexos do que as áreas disciplinares autónomas poderiam prever ou abranger.

Este tipo de definição da interdisciplinaridade assenta no reconhecimento de que a complexidade crescente do mundo em que vivemos desestabiliza as fronteiras do conhecimento e implica a sua travessia, ou mesmo o seu questionamento e/ou transbordamento. Haveria, pois, uma relação entre a complexidade crescente dos mundos cobertos pelas áreas de conhecimento em que trabalhamos e o recurso à interdisciplinaridade e à transdisciplinaridade. Desde 1972, ano em que a OCDE publicou uma primeira taxonomia da Interdisciplinaridade (Klein 2010: 1), a velocidade de divulgação e troca de conhecimento tem sofrido reconhecidamente um processo de aceleração com consequências no modo como entendemos e articulamos as áreas científicas entre si. Assinale-se ainda que, na prática, a interdisciplinaridade também tem constituído uma estratégia de reconversão académica, disciplinar e curricular importante. O melhor exemplo disso talvez seja o surgimento da Interdisciplinaridade como área disciplinar em si mesma. Outra área que poderia servir de exemplo a esta renovação é a da Complexidade.

Julie Thompson Klein, cujo trabalho constitui uma referência incontornável para a conceptualização dos estudos interdisciplinares, estabelece um nexo entre a interdisciplinaridade e a renovação das áreas de estudo, bem como dos seus recortes e autonomia. Em “A Taxonomy of Interdisciplinarity”, Klein distingue entre uma interdisciplinaridade restrita (caso dos trânsitos entre disciplinas afins, como a História Literária e a História das Mentalidades) e uma interdisciplinaridade ampla (por exemplo, entre Humanidades e Ciências) (cf. Klein 2010: 5-6). Por outro lado, refere ainda as diferenças entre uma interdisciplinaridade metodológica (é o caso da partilha da inferência estatística por parte de diferentes disciplinas, ou o da importação de determinados conceitos das Humanidades por outras áreas, como acontece, por exemplo, com as noções de texto ou drama) e uma interdisciplinaridade teorética, que corresponde à interdisciplinaridade como área disciplinar em si mesma (idem: 9). Esta ideia de interdisciplinaridade encontraria a sua mais funda realização numa interdisciplinaridade integrada, capaz de alterar o perfil das áreas de conhecimento das quais partira (Klein exemplifica-a com o campo das neurociências computacionais). É este o objectivo da transdisciplinaridade.

No que diz respeito às Humanidades, são de sublinhar duas metáforas que, na esteira da Nuffield Foundation de Londres, Julie Thompson Klein considera centrais para falar de interdisciplinaridade: “fazer pontes” (entre disciplinas bem delimitadas) e “reestruturar” (reordenar partes de outras disciplinas num conjunto novo). E Klein refere uma terceira possibilidade que estaria presente quando um novo conceito abrangente ou uma nova teoria subsumem teorias e conceitos de várias disciplinas pré-existentes mas afins do ponto de vista interdisciplinar, unindo-as num recorte sintético (seria o caso da Antropologia). A palavra-chave, lembra Klein, é “transcender” (idem: 16).

A interdisciplinaridade envolve, pois, a hibridização, a meu ver de duas formas: quer porque pode responder a uma necessidade de apreender um objecto de estudo novo que convoca instrumentos até então a funcionar isoladamente; quer porque o cruzamento experimental de diferentes instrumentos téoricos e críticos também pode tornar possível a construção de um novo objecto de conhecimento, ou de uma área de conhecimento que se afigura necessária. No domínio das Humanidades, e no campo dos estudos interartísticos, a interdisciplinaridade encontra uma grande produtividade ao nível do que tem sido designado por conceitos nómadas, ou travelling concepts se usarmos a formulação de Mieke Bal, presente logo no título da obra de referência que é Travelling Concepts in Humanities – A Rough Guide (2002). Na introdução, Bal defende que a interdisciplinaridade a valorizar nas Humanidades, aquela que se torna necessária, desafiante e feita com seriedade, é a que procura as suas bases heurísticas e metodológicas em conceitos, mais do que em métodos (2002: 5); e fundamenta-se na sua então já longa experiência de ensino e investigação, citando mesmo o papel fulcral do conceito de “Narrativa” para a elaboração de um dos seus trabalhos mais marcantes. Vinda do campo dos estudos literários, Mieke Bal designa como “análise cultural” a transversalidade que defende e sublinha a condição dinâmica, partilhada, não unívoca dos conceitos que visita no seu livro, entre os quais é central o de imagem.

Na mesma linha, também Frédéric Darbellay acentua a importância dos conceitos nómadas enquanto instrumentos heurísticos permitindo estabelecer pontes entre diferentes áreas científicas:

    Specialists in different disciplines use nomadic concepts to study a whole range of key subjects (concepts like correlation, laws and causality, calculation, problem, selection, competition, organism, complexity, norms, transfer) that circulate among genetics, economics, logic, biology, anthropology, philosophy, history and psychoanalysis. (Darbellay 2012: 10-11)

Para o Grupo Intermedialidades, e genericamente para o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, o recurso a conceitos nómadas estruturantes tem sido um instrumento fundamental. Desde sempre o nosso Centro reuniu investigadores de diferentes áreas das Humanidades, no plano de uma interdisciplinaridade restrita, e tem vindo a transcender progressivamente as fronteiras disciplinares das Humanidades e a aprofundar uma intermedialidade ampla e metodológica. No projecto em curso, Literatura e Fronteiras do Conhecimento – Políticas de Inclusão, ordenamos a nossa pesquisa em função de conceitos que partilhamos com os outros dois Grupos de Investigação, entre os quais se destacam os de Fronteira, Inclusão, Exclusão, Hibridismo. Esses conceitos permitem-nos articular questões muito diversificadas do ponto de vista científico e também desenvolver uma estratégia de relação com a comunidade.

Para o Grupo Intermedialidades, estes conceitos são articulados em função da especificidade do nosso objecto de estudo (que pode ser descrito como um objecto textual e artístico, em processo de intensa transformação). Com efeito, ao estudarmos a poesia moderna e contemporânea, trabalhamos noções de imagem quer de proveniência retórica quer em associação com a visualidade, a imaginação e o imaginário, aspectos pelos quais o texto trabalha a imagem; mas, por outro lado, a poesia moderna e contemporânea desenvolveu-se em estreita interacção com as artes plásticas e com a emergência da imagem em movimento do cinema, e depois com o vídeo e os média digitais. Actualmente, as artes da escrita evidenciam uma hibridez substancial relativamente a outras artes, partilhando uma tendência generalizada para a partilha dos suportes e das linguagens na produção artística. E reagem aos efeitos do “pictorial turn” cunhado por W. J. T. Mitchell, e ao “digital turn” (cf. Darbellay 2012: 5). Por esse motivo, a complexidade e hibridez do objecto de estudo é determinante no modo como equacionamos as nossas questões de investigação, fazendo pontes entre a escrita literária e o cinema, o vídeo, a pintura, a fotografia e a performance.

A crescente complexidade do objecto que estudamos tem consequências metodológicas importantes e apela à inter- e à transdisciplinaridade. Como estudar a transmedialidade sem projectar metodologicamente a transdisciplinaridade? Encontramos aqui o efeito de um objecto de conhecimento em reconfiguração que age sobre as correlativas metodologias e as delimitações das áreas científicas e artísticas. Processo que deverá ter tradução na renovação da oferta formativa, necessariamente. A palavra e a imagem estão completamente interligadas na cultura audiovisual que é a nossa, e isso tem consequências para a literatura, para o modo como a literatura e a as outras artes evoluem ou se relacionam entre si. Deste ponto de vista, a abordagem interdisciplinar torna-se simplesmente incontornável.

No entanto, há aqui um pequeno reparo a fazer pois importa lembrar que valorização da interdisciplinaridade não tem que pôr em causa as abordagens monodisciplinares. Hoje, é difícil não ver que qualquer projecto transdisciplinar é tido como potencialmente mais “interessante” do que um projecto monodisciplinar. E isto também é um modismo. Não tem que ser sempre assim, e devemos avaliar esta situação com discernimento crítico. A crescente relevância da interdisciplinaridade está relacionada com o grau de complexidade cada vez maior dos sistemas entre os quais nos movemos. Não é por acaso que a complexidade é, hoje, em si mesma, um campo científico. Como resume John Holland (2014) ao distinguir sistemas complexos físicos e sistemas adaptativos complexos, nestes últimos os elementos são eles mesmos agentes adaptativos, e portanto os agentes mudam à medida que se adaptam, ou seja, competem uns com os outros, alteram o comportamento e geram alterações nos outros agentes. Novidade, adaptação, inovação, e mesmo a antecipação como forma de alteração do curso de um sistema, são algumas das características dos sistemas adaptativos complexos, características e comportamentos que identificamos facilmente em realidades como os mercados financeiros, ou a internet. Estes sistemas têm como propriedade distintiva, a emergência, ou seja, e como é costume dizer-se, neles “a acção do conjunto é superior à soma das acções das partes” (Holland 2014: 1). Em resumo, a interdisciplinaridade é um efeito do que o sabemos dos sistemas adaptativos complexos e simultaneamente a resposta que lhes podemos dar. É nesse contexto que nos interessa unir, cotejar e simultaneanente distinguir diferentes ocorrências disciplinares e artísticas dos conceitos que nos propomos trabalhar e partilhar.

Referências
Bal, Mieke (2002), Travelling Concepts in Humanities – A Rough Guide, Toronto, Buffalo, London, University of Toronto Press.
Darbellay, Frédéric (2012), “The circulation of knowledge as an interdisciplinary process: Travelling Concepts, Analogies and Metaphors”, Issues in Integrative Studies, no. 30, pp. 1-18.
Holland, John (2014), Complexity, A Very Short Introduction. Oxford University Press.
Klein, Julie Thompson (2010), “A Taxonomy of Interdisciplinarity”, The Oxford Handbook of Interdisciplinarity, Oxford, Oxford University Press.
___ (2013), “The State of the Field: Institutionalization of Interdisciplinarity”, Issues in Interdisciplinary Studies, nº 31: 66-74.

Rosa Maria Martelo
Coordenadora Científica do Grupo Intermedialidades do ILCML

Seminários do Fim do Mundo (Série IV)

No próximo dia 17 de Março, terá lugar pelas 18h na sala 203 da FLUP, a primeira sessão da quarta série dos Seminários do Fim do Mundo com a participação de Belmiro Fernandes Pereira, Daniel Floquet e Susana Correia e moderação de Pedro Eiras.

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