Quando a literatura estimula a reflexão: o terceiro incluído

No dia 14 de março, teve lugar uma jornada de estudos que se propunha desencadear e acolher uma reflexão sobre os contributos, papel e testemunho do escritor de fronteira no que toca à inclusão-exclusão social, cultural e identitária, no contexto mais vasto dos movimentos migratórios e transfronteiriços dentro de um quadro europeu: Le tiers inclus à l’âge des migrations: l’écrivain frontalier

Muito embora pensada em relação a um quadro francófono, a jornada tornou-se ocasião para o levantamento de diferentes questões relativas a contextos pós-coloniais e de migração, permitindo identificar linhas de força a interrogar modos de apreensão do real e instrumentos conceptuais, críticos, de ver e pensar o mundo, face à complexidade de que este se reveste. Com efeito, os testemunhos autorais partilhados (Altay Manço e Fouad Laroui) e os textos em análise (Chahdortt Djavan, Léonora Miano, Linda Lê, Lydie Salvaire, Marjane Satrapi, Marzena Sowa, Nancy Huston ou Silvia Baron-Supervielle), de diversa inscrição genológica (narrativos, dramáticos, ensaísticos), colocam os leitores perante contextos multiculturais, habitados por figuras humanas marcadas pela multipertença e confrontadas com identidades de fronteira, contextos então de complexidade iniludível.

Edgar Morin, num conjunto de intervenções reunidas e publicadas em 1990 sob o título Introduction à la pensée complexe, alertava para a necessidade de mudança de paradigmas e de problematização de formas de ver o mundo, propondo, no lugar – quase exclusivo – do paradigma da simplicidade, um paradigma da complexidade que permitiria ultrapassar uma lógica binária desadequada, apontando para princípios lógicos outros:

Mais l’on peut dire, d’ores et déjà, que si la pensée simplifiante se fonde sur la domination de deux types d’opération logiques : disjonction et réduction, qui sont l’une et l’autre brutalisantes et mutilantes, alors les principes de la pensée complexe seront nécessairement des principes de distinction, de conjonction et d’implication. (Morin 1990:103-104)

Nessa mesma intervenção, Morin observava ainda que “Il ne faut jamais chercher à définir par des frontières les choses importantes. Les frontières sont toujours floues, sont toujours interférentes.” (idem :98) Morin, com as suas propostas, não tem a pretensão de compreender de forma totalizadora o real; aliás ele chama a atenção para a existência “d’une pensée criblée de trous” (idem: 93). Na verdade, o que está em causa passa por atentar no caráter multidimensional do real e no facto de, como ele próprio refere partindo de Pascal, o todo ser superior à simples soma das partes.

Perante uma realidade contemporânea complexa, perante uma comunidade alargada que contem diferentes comunidades, o contributo reflexivo relativo a uma lógica do terceiro incluído, devedora dos desenvolvimentos operados pela física quântica e desenvolvida por Stéphane Lupasco (Le principe d’antagonisme et la logique de l’énergie – Prolégomènes à une science de la contradiction, 1951) será então algo a considerar, ao postular uma abordagem ternária do real que ultrapassa uma visão binária aplicável a situações simples, desadequada quando se trata de pensar uma realidade complexa. Como lembra Basarab Nicolescu:

La logique du tiers inclus n’abolit pas la logique du tiers exclu : elle restreint seulement son domaine de validité. La logique du tiers exclu est certainement validée pour des situations relativement simples, comme par exemple la circulation des voitures sur une autoroute : personne ne songe à introduire, sur une autoroute, un troisième sens par rapport au sens permis et au sens interdit. En revanche, la logique du tiers exclu est nocive, dans les cas complexes, comme par exemple le domaine social ou politique. Elle agit, dans ces cas, comme une véritable logique d’exclusion : le bien ou le mal, la droite ou la gauche, les femmes ou les hommes, les riches ou les pauvres, les blancs ou les noirs.

Face a uma realidade contemporânea complexa ou perante diferentes níveis de realidade, nas palavras de Nicolescu, a lógica do terceiro incluído pode assim sustentar uma abordagem dos fenómenos que acolhe a dimensão de inclusão. Em estudo sobre possibilidades de aplicação da lógica do terceiro incluído, a observação de Liang Shao revela-se pertinente quando afirma:

La complexité des phénomènes non linéaires – naturels ou humains -, nous oblige à reconsidérer notre ontologie basée sur la logique classique du tiers-exclu qui n’admet qu’une seule explication de la réalité d’une entité objet dans une catégorie prédéfinie. (Shao s. d.: 3-4)
(…) la complexité se trouve au cœur du problème : il ne s’agit plus de proposer une vision du monde ou un système philosophique, mais de faire dialoguer et évoluer nos représentations héritées de notre tradition linguistique et culturelle pour appréhender et comprendre les changements contemporains. (idem : 10)

Não por acaso, Edgar Morin, em entrevista a Nelson Vallejo-Gomez, sublinha que « la pensée complexe est un mode de reliance» (Morin 2008 : 249) e que, em sua opinião,

(…) le tiers inclus est une transgression logique nécessaire, inséparable du principe dialogique. Cela veut dire que le même comporte en lui son propre antagonisme, sa propre multiplicité: je suis moi et je ne suis pas moi. Quand je dis, par exemple: « je parle », moi parle, comme sujet conscient. En même temps, il y a toute une machinerie qui fonctionne dans mon cerveau et dans mon corps, et dont je suis inconscient. Il y a aussi à travers moi une culture qui parle, une « machine causante », un nous qui parle à travers cette machine. Il y a de l’anonyme, du ça qui parle. Cela veut donc dire que le principe d’identité est, en fait, complexe. Il comporte de l’hétérogénéité et de la pluralité dans l’unité. En ce sens, le principe du tiers inclus signifie que l’on peut être Même et Autre. On échappe par là à toute alternative disjonctive. Grâce au principe du tiers inclus on peut considérer et relier des thèmes qui devraient apparemment s’exclure ou être antagonistes. (idem: 258)

Este quadro de referências críticas sumariamente apresentadas oferece-nos certamente conceitos operatórios para uma abordagem de realidades pós-coloniais e migratórias, nomeadamente no que respeita a refigurações e questionamentos identitários a que a literatura dá voz:

Le pays dit : Noire ou Française Le pays dit qu’on ne peut être que Noire ou Française La pensée du pays est binaire Polarisante Limitée (…)
La binarité est une fausse proposition
Le mieux c’est la fusion : Française noire Le mieux c’est l’addition : Française et Noire qui ouvre sur le ternaire puisqu’un troisième terme en sortira (Miano 2012 : 73)

Este micro-exemplo, bem revelador porém de uma escrita confrontada com a complexidade de novas realidades sociológicas europeias, da responsabilidade de uma criadora que experimenta uma condição de fronteira, é sintomático da necessidade de encontrar novos instrumentos conceptuais alternativos a uma lógica binária, valorizadora de dicotomias e agora claramente incapaz de ajudar a pensar novas poéticas contemporâneas. Os contributos de Lupasco, Nicolescu e Morin são, assim, bem-vindos.

Referências
Morin, Edgar (2005), Introduction à la pensée complexe, Paris, Seuil.
«La pensée complexe : Antidote pour les pensées uniques», Entretien avec Edgar Morin, in Synérgies Monde, nº 4, 2008, pp. 249-262.
Miano, Léonora (2012), Écrits pour la parole, Paris, L’Arche.
Nicolescu, Basarab, «Le tiers inclus – De la physique quantique à l’ontologie», http://ciret-transdisciplinarity.org/bulletin/b13c11.php (consultado em 2/03/16).
Shao, Liang, « Logiques du tiers-exclu et du tiers-inclus, en science naturelle et dans les langues », http://www.lmfa.ec-lyon.fr/perso/Liang.Shao/diver/ecrit/contradiction.pdf (consultado em 2/03/16).

Maria de Fátima Outeirinho
Grupo Inter/Transculturalidades do ILCML

O fim da literatura portuguesa no Brasil?

O artigo que se segue foi publicado no jornal DN no passado dia 11.

No Brasil, tem-se assistido a vivo debate em torno do fim da obrigatoriedade do ensino da literatura portuguesa proposta pelo Ministério da Educação. Este parece ser um processo de apagamento da literatura portuguesa em nome de critérios políticos nacionalistas e de preconceitos pós-coloniais.

Não pretendo discutir a legitimidade desses critérios, apenas procuro tentar perceber enquanto professora de Literatura Portuguesa como as coisas se passam num país cuja literatura se escreve em língua portuguesa e cuja formação está umbilicalmente ligada à nossa literatura. A matriz cultural brasileira, como país que nasceu de um processo de colonização levado a cabo por europeus, é preponderantemente ocidental, como em toda a América, de norte a sul. Essa matriz esmagou, antes e depois da independência, as culturas indígenas e incorporou mais ou menos subterraneamente as culturas africanas que os escravos transportaram. Este facto, agradando ou não aos povos da América, não pode ser modificado, porque pertence a passado histórico encerrado, nem pode ser ignorado sob pena de lhes ser improvável autodefinirem-se do ponto de vista identitário em plena posse de si e das circunstâncias que lhes couberam. O presente não pode ganhar transparência senão em função da compreensão e da não ocultação do passado.

Quero com isto dizer que não entendo como se poderá ignorar a literatura portuguesa quando se quer falar da criação do Brasil, da sua história e da sua literatura. Quero com isto perguntar, que será feito do texto fundador, Carta do Achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha? Quero com isto perguntar, que será feito de Padre António Vieira e dos seus sermões? Quero com isto perguntar, como serão lidas Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, ou Marília de Dirceu, de Tomás António Gonzaga? Quero com isto perguntar, como se lê o romantismo brasileiro sem o diálogo com o romantismo europeu através da intermediação em língua portuguesa do romantismo português? Quero com isto perguntar, como se lê Machado de Assis ignorando o diálogo de surdos entre ele e Eça de Queirós? Enfim, quero com isto perguntar, se uma literatura que se escreve em português pode permitir-se ignorar um dos génios literários da modernidade chamado Fernando Pessoa, na obra do qual cabe o mundo, para além desse mundinho português glorificado em Mensagem?

Não há culturas nem literaturas indígenas e puras. A literatura portuguesa nasceu em galego-português, escreveu-se durante muito tempo em latim e em castelhano, isto já depois de nos termos tornado independentes, no século XII, e depois de termos sido colonizados por romanos, por povos germânicos, por árabes e por fim colonizados, durante um século, por castelhanos. Todas as culturas resultam de miscigenações, fruto de contactos violentos ou cordiais, de invasões, colonizações, ocupações em que os povos de todo o mundo se viram envolvidos. E assim todas as línguas se vão “crioulizando”.

Ao pretender privilegiar, por razões de estratégia político-económica pós-colonial, o diálogo cultural sul-sul, em detrimento e não em convergência com o diálogo norte-sul, o Brasil está a dar uma espécie de grito do Ipiranga fora de tempo face à velha Europa. Prescindir do contacto estreito com uma literatura que só prestigia a língua em que o Brasil fala e com uma cultura europeia e atlântica à qual a identidade brasileira estará para sempre indelevelmente ligada a montante, como a portuguesa estará relativamente à brasileira, a jusante, em nada fortalece o Brasil, a sua identidade e o seu poder de influência.

Um grupo de nações pós-coloniais livremente constituíram uma plataforma linguístico-cultural e geopolítica chamada CPLP, atravessada por um rio de nome língua portuguesa. Ignorar qualquer um dos afluentes de diferentes origens que o engrossam é pactuar no nosso comum e individual autodesconhecimento. Por isso defendo vivamente a obrigatoriedade da integração do estudo de textos literários de todos os países de língua portuguesa nos programas do ensino básico e secundário dos países da CPLP. Tenho até alguma simpatia, apesar das dificuldades e perplexidades que pode suscitar, por uma proposta recentemente defendida por Vítor Aguiar e Silva, da criação de um cânone literário escolar que vise dar a conhecer aos alunos de todo o mundo de língua portuguesa a especificidade das diferentes literaturas nacionais e a diversidade da própria língua.

Uma última pergunta, pois descentrarmo-nos um pouco de nós mesmos constitui bom exercício: que pensaríamos dos EUA se não fizessem os seus estudantes do ensino médio ler Shakespeare? Ou dos países ibero-americanos de língua espanhola se ignorassem a grandeza literária de Cervantes?

Isabel Pires de Lima
Professora Universitária e ex-ministra da Cultura

 

Da integração da investigação na avaliação de estudantes como estratégia inclusiva

Da integração da investigação na avaliação de estudantes como estratégia inclusiva

A dupla condição de docente, na pós-graduação, e investigador que caracteriza vários dos membros intervenientes no projeto Literatura e Fronteiras do Conhecimento: Políticas de Inclusão não pode deixar de ser fator interpelante no que toca a uma reflexão sobre as possibilidades e potencialidades de cruzamento entre uma ação que envolve ensino e aprendizagem, nomeadamente no que se refere a uma dimensão de pesquisa, e uma ação que passa pelo desenvolvimento e consecução de investigação no quadro do projeto em curso no ILCML que, além do mais, assenta em preocupações de inclusão. Na verdade e com vista à implementação da pesquisa, nesse projeto elegem-se, como conceitos-chave os conceitos de fronteira, inclusão ou transdisciplinaridade que a Literatura Comparada, enquanto metadisciplina, permite acolher e promover.

Ora com efeito, diferentes membros integrados do ILCML estão envolvidos não apenas na coordenação científica de cursos ligados, por exemplo, aos estudos de teatro ou aos estudos literários, culturais e interartísticos como na lecionação de múltiplas unidades curriculares. Como trabalhar então em torno destes conceitos e contribuir para o projeto comum, articulando área de docência e pesquisa, e, desde logo, por um envolvimento mais efetivo de estudantes de pós-graduação?

No âmbito da unidade curricular “Literatura de viagens” que integra o curso de Mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes no seu ramo de Estudos comparatistas e Relações Interculturais, a resposta surgiu através da proposta de integração da investigação no processo de avaliação dos estudantes, ao definir-se como componente fundamental de avaliação – após uma primeira etapa de pesquisa – a redação de um verbete, a publicar, mediante prévia aprovação científica, na base de dados Ulyssei@s. Perante uma unidade curricular que trabalha a narrativa de viagem, suporte com frequência de uma problematização das relações entre culturas e a permitir pensar questões de mediação cultural, a proposta passava então por convidar à colaboração no enriquecimento de uma “enciclopédia digital sobre Escritores e outros Criadores em Deslocação, [enciclopédia que] surge na sequência das atividades de um grupo de investigadores do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa.” (http://ilcml.com/ulysseis/)

Tratando-se de uma unidade curricular que acolhe um corpus de análise provindo de diferentes literaturas com inscrições linguístico-culturais diversas, o estudante deveria escolher um autor com obra publicada no campo da literatura de viagens, respeitando as seguintes orientações para as quais o texto de apresentação da base aponta:

  1. “a Ulyssei@s apresenta-se como espaço de divulgação de escritores e outros criadores artísticos dos séculos XX-XXI, cujas obras estiveram ou estão de algum modo ligadas às suas deslocações efetivas, e que desde logo tiveram Portugal como ponto de passagem, de partida e/ou de chegada.”
  2. “pretende-se relevar o seu contributo para a concepção / problematização de uma Europa cultural, dinâmica e inclusiva.”
  3. Trata-se de desenvolver “um trabalho de pesquisa reflexiva que visa superar o simples registo biográfico ou documental, ensaiando uma forma híbrida de discurso crítico pela articulação de informações criteriosamente selecionadas com a análise alicerçada no enfoque temático da base.

Face a este desafio, foram várias as obras e autores escolhidos de origem brasileira, espanhola, francesa e portuguesa que desencadearam todo um processo que passou por diversas etapas, desde a leitura e análise da obra, pesquisa de textos críticos, recolha, seleção e organização da informação, redação do verbete, até à apresentação oral do trabalho desenvolvido.

Propostas e experiências de integração da investigação durante uma etapa formativa dos estudantes são já múltiplas e lembremos, tão só, a dinamização desenvolvida pela FCT, há já alguns anos atrás, com a criação de Bolsas de Integração na Investigação – e a que o ILCML se associou com sucesso –, neste caso envolvendo estudantes de pré-graduação, e em que o objetivo passava por “criar condições de estímulo ao início da atividade científica e desenvolvimento de sentido crítico, criatividade e autonomia dos estudantes através da sua integração em equipas de projectos I&D.” (https://www.fct.pt/apoios/bolsas/concursos/BII2008.phtml.pt)

No quadro de um 2º ciclo, a incorporação da investigação num quadro avaliativo visa reconhecer a investigação como uma dimensão vital na formação do estudante e já num quadro de especialização em que o mestrado se situa. Deste modo e pensando em termos de benefícios, tal proposta não só valoriza a pesquisa como processo de aprendizagem como ainda permitirá ao estudante ganhar experiência e desenvolver competências de pensamento crítico que lhe serão extremamente úteis na etapa de preparação e posterior redação da dissertação. Numa ligação a uma unidade de investigação, outros benefícios não podem deixar de ser destacados: a tomada de consciência da importância do escrutínio e avaliação por terceiros da produção científica que se apresenta; a tomada de consciência da importância do contributo e participação individuais num projeto comum; a tomada de consciência da importância da partilha e disseminação dos resultados da investigação feita.

Do exposto, é para nós muito claro a pertinência de promover micro-projetos de investigação ainda durante a etapa letiva de formação no ensino pós-graduado, com esta vertente de divulgação pública do trabalho realizado. Desta forma, a integração da investigação na avaliação de estudantes revela-se não apenas como estratégia formativa adequada, mas ainda como estratégia inclusiva não negligenciável, a potenciar a emergência de uma massa crítica mais alargada e participativa.

Maria de Fátima Outeirinho

Membro do Grupo Inter/Transculturalidades do ILCML

MEC do Brasil propõe-se retirar a Literatura Portuguesa da Base Nacional Comum Curricular

O Instituto de Literatura Comparada, ao longo dos seus vários programas científicos, e da investigação daí resultante, sempre teve a preocupação de reforçar a importância das relações linguísticas, literárias e culturais, tendo sempre presente a memória cultural e os cruzamentos que, em palimpsesto, estabelecem as diferentes línguas, literaturas e culturas e originam novas formas de comunicação e de saber.

Com os princípios basilares no campo científico da Literatura Comparada, o trabalho desenvolvido na Unidade I&D, e em particular pelo grupo Inter/Transculturalidades, visou sempre a interdisciplinaridade e o estudo das diferentes Literaturas, onde se procura refletir as noções de Identidade, Memória, Comunidade, Fronteira e Inclusão, nas relações interartisticas e interdiscursivas.

Tendo em conta estes campos de reflexão e de atuação, o ILC associa-se às críticas que tem suscitado a intenção de retirar, no Brasil,a Literatura Portuguesa da Base Nacional Comum Curricular, ou seja, dos programas curriculares no ensino médio, e divulga aqui, a propósito, o texto do Prof. Doutor Jorge Valentim, Vice-Presidente da ABRAPLIP e Membro-Colaborador do ILC, recentemente publicado em “Livre Opinião“.

 

“Por que é que não temos mais investigação interdisciplinar?”

“Por que é que não temos mais investigação interdisciplinar?” – é a questão a que Henrique Madeira1, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra, procura responder num ensaio dedicado à interdisciplinaridade e à investigação científica em Portugal. O texto em questão corresponde a um dos capítulos do livro, em vias de publicação (Imprensa da Universidade de Coimbra, em 2016), organizado por Carmen Soares, António Rafael Amaro, Álvaro Garrido e João Paulo Avelãs Nunes, na sequência do II Ciclo de Conferências e Debates Interdisciplinares, organizado pelo CEIS20 (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX) e III-UC (Instituto de Investigação Interdisciplinar – Universidade de Coimbra), 2014.

Destacamos aqui alguns excertos dessa reflexão:

Por que é que não temos mais investigação interdisciplinar?

Não havendo uma resposta única à questão de saber por que não temos mais investigação interdisciplinar, são [aqui] discutidos diversos fatores que nos parecem incontornáveis: alcançar entendimento e respeito mútuo na colaboração e articulação entre disciplinas, dotar as unidades com vocação interdisciplinar de recursos humanos próprios, designadamente de elementos com formação transdisciplinar em núcleos de disciplinas bem definidos, que possam ter um papel catalisador de projetos interdisciplinares, e abrir novas frentes de interdisciplinaridade, através da exploração de oportunidades de inovação no cruzamento de áreas tecnológicas e de engenharias com outras disciplinas. [p. 1]

Investigação interdisciplinar: retórica e realidade

A definição mais consensual de interdisciplinaridade evoca diversas palavras, convocando cada uma delas estádios diferentes de interligação, interpenetração ou mesmo integração de disciplinas. Tomemos o relatório sobre interdisciplinaridade do Conselho Consultivo da União Europeia para a Investigação como exemplo dos muitos textos que definem os termos consensualmente mais aceites na literatura [EURAB 2004]:
 
Multidisciplinaridade – diferentes disciplinas trabalham em conjunto, de forma articulada, sem que haja síntese cognitiva dessa interligação.
 
Interdisciplinaridade – diferentes disciplinas trabalham em conjunto, de forma articulada, procurando novas abordagens que constituam a síntese cognitiva da interligação entre essas disciplinas.
 
Ou seja, como referem Bernard Choi e Anita Pak [Choi e Pak 2006], na multidisciplinaridade cada disciplina permanece dentro das suas fronteiras, enquanto que na interdisciplinaridade se procura a análise, síntese e harmonização das ligações entre disciplinas num todo articulado e coerente. É comum encontrar-se um terceiro termo, transdisciplinaridade, que traduz a procura de uma visão integrada do conhecimento, transcendendo as fronteiras das disciplinas (e.g., [Choi e Pak 2006]).

Numa perspectiva operacional e eminentemente prática, Alan Porter e Ismael Rafols [Porter e Rafols 2009] definem investigação interdisciplinar de uma forma algo crua, como “um modo de investigação científica levada a cabo por equipas ou indivíduos, que integram perspectivas/conceitos/teorias, e/ou ferramentas/técnicas, e/ou informação/dados de dois ou mais corpos do saber ou de abordagens de investigação”. No extremo oposto, temos autores que, perante a abundância de termos e as inevitáveis variantes na sua interpretação, se recusam a definir explicitamente interdisciplinaridade, assumindo que, inevitavelmente, a noção emerge clara e límpida da discussão (e.g., [Blackwell et al. 2009]). [p. 5]

(…)

Temos, então, um paradoxo. A apologia da interdisciplinaridade, patente na retórica das entidades que financiam a investigação científica, a crença de que os grandes avanços no conhecimento e na inovação residem na interdisciplinaridade, os mecanismos pensados para favorecer a investigação interdisciplinar, os Institutos de Investigação  Interdisciplinar que têm surgido um pouco por toda a parte, as novas “disciplinas” e cursos marcadamente interdisciplinares, tudo isto poderia fazer crer que a investigação interdisciplinar deveria ser hoje preponderante. Mas, paradoxalmente, tal não acontece. Pelo menos no que toca à investigação no seio das universidades e centros de investigação a estas associados, a investigação tradicional, disciplinar, continua a dominar de forma esmagadora. O já referido estudo publicado por Alan Porter e Ismael Rafols em 2009 [Porter e Rafols 2009], estuda a evolução da interdisciplinaridade num período de 30 anos, de 1975 a 2005. O estudo partiu de um total de 30261 artigos do Web of Science (WoS), cobrindo 244 categorias de assuntos, identificadas pelos tópicos indicados nos próprios artigos e considerados como as disciplinas de granularidade mais fina. Estes assuntos foram agregados em 21 macro-disciplinas, que são usadas no estudo essencialmente parta facilitar a visualização dos resultados. [pp. 9-10]

(…)
 
Várias causas podem ser apontadas para esta situação. Em particular, a hipótese de o sistema de avaliação da qualidade da investigação tender a discriminar negativamente a investigação interdisciplinar [Nightingale e Scott 2007], especialmente porque o processo de avaliação por pares parece desfavorecer a interdisciplinaridade [Langfeldt 2006], e o processo de rankings das revistas, fortemente baseado em impacto e número de citações, acabar por relegar a avaliação dos trabalhos interdisciplinares para um plano de qualidade inferior [Rafols 2015]. Em sentido contrário, mas não suficiente para alterar a perceção geral, um estudo recente mostra que a investigação interdisciplinar compreendendo disciplinas muito afastadas entre si tem originado alguns trabalhos de grande impacto [Larivière 2015]. [p. 12]

(…)


A avaliação da qualidade dos resultados da investigação científica através de indicadores coexiste com a tradicional avaliação por pares usada na ciência, em que o valor de um trabalho (e a consequente recomendação para publicação) é determinado por um pequeno grupo de especialistas com conhecimentos e competências semelhantes ao autor do trabalho em avaliação. Apesar das limitações e falhas da avaliação por pares, geralmente relacionadas com as fraquezas humanas inerentes ao processo, este método está há muito estabelecido como um dos pilares da credibilidade da ciência. Não deixa de ser estranho que a avaliação direta do valor dos resultados da investigação através dos pares coexista com métodos de avaliação indireta através de indicadores. Mas a realidade é que não apenas coexistem como se influenciam e articulam mutuamente.
[p. 31]

(…)

O caráter indireto da avaliação da investigação científica por indicadores, já atrás referido, não é, porventura, o maior problema. O que aconteceu foi que, nos últimos anos, se assistiu à uniformização dos indicadores e dos critérios usados, impondo a algumas áreas disciplinares o quadro de avaliação de outras. Na prática, a qualidade da investigação na generalidade das áreas é aferida pelos critérios estabelecidos nas ciências básicas e nas áreas da saúde e da vida. [p. 32]

(…)

Uma dificuldade essencial que importa resolver está na identificação dos problemas de investigação. Se se espera que os grandes avanços ocorram na fronteira ou interseção entre disciplinas é preciso identificar os problemas que residem justamente nessa interseção. Isto requer uma visão transdisciplinar que só surge se houver nas universidades uma estratégia e os meios para criar equipas em que haja alguns elementos (não necessariamente todos) com uma visão integrada do conhecimento, transcendendo as fronteiras de várias disciplinas. Significa também que unidades orgânicas focadas em investigação interdisciplinar, como é o caso do Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, necessitam de recursos humanos próprios, o que significa ter professores/investigadores com formação transdisciplinar, cobrindo núcleos de disciplinas, para as quais funcionem como agentes catalisadores da investigação interdisciplinar, contribuindo em particular para a identificação de oportunidades de investigação nas fronteiras das disciplinas.
 
Sem recursos humanos próprios, as intenções de fomentar a investigação interdisciplinar dificilmente irão além de poucas áreas, tais como, a título de exemplo, as ciências sociais ou, em parte, as ciências da vida, onde já prevalece uma certa tradição de trabalho de investigação interdisciplinar, impulsionada essencialmente pela natureza das disciplinas envolvidas e a facilidade em identificar problemas de investigação no cruzamento de várias disciplinas. O confinamento de casos de sucesso de investigação interdisciplinar a um pequeno número de áreas como as atrás referidas comporta o risco de cristalizar uma visão redutora da interdisciplinaridade, resultando em tentativas vãs de replicar os modelos que tiveram sucesso, por exemplo em projetos interdisciplinares que emanaram das ciências sociais, a novas frentes interdisciplinares, onde esses modelos não fazem qualquer sentido. Importa, por isso, incentivar a investigação interdisciplinar em novas frentes, mas procurando as abordagens mais adequadas.
[pp. 35-36]

(…)

Persiste, no entanto, a forte expectativa de que “os grandes avanços em ciência ocorrem na fronteira ou interseção entre disciplinas”. O aproveitamento deste potencial implica a criação de condições para que investigadores de diferentes áreas vençam, em primeiro lugar, a barreira da comunicação e que, apesar das naturais diferenças nas linguagens e nos enquadramentos da investigação, atinjam um patamar de entendimento e de respeito mútuo.
 
A identificação dos problemas de investigação na interseção das diferentes disciplinas, essencial para a criação de verdadeiros desafios de investigação interdisciplinar (e não simples colaborações em que, inevitavelmente, as disciplinas veem as outras como meramente instrumentais), carece de uma visão transdisciplinar que só surge se houver nas universidades a estratégia e os meios para criar equipas em que haja elementos com formação transdisciplinar em núcleos de disciplinas bem definidos. A constituição de um pequeno número de elementos com formação transdisciplinar parece ser um recurso necessário, sem a qual a investigação interdisciplinar dificilmente descola dos relativamente raros exemplos bem-sucedidos em áreas onde há de facto alguma tradição de interdisciplinaridade.
[p. 38]

O texto pode ser lido na íntegra aqui.
 

1Henrique Madeira é Professor Catedrático no Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCTUC), membro do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra (CISUC) e do Laboratório de Informática e Sistemas do Instituto Pedro Nunes. A sua actividade científica centra-se nas áreas de computadores tolerantes a falhas, segurança em sistemas informáticos e bases de dados, tendo coordenado dezenas de projectos europeus e nacionais e tem tido actividade intensa em comités científicos de conferências internacionais e em comités editoriais de revistas da sua área de especialidade. Os seus trabalhos científicos são citados regularmente, sendo conhecidas mais de 3500 citações em publicações internacionais. Recebeu vários prémios científicos tendo dois dos seus artigos recebido o prémio William Carter, promovido conjuntamente pelo IEEE e pela IFIP. Tem tido também intensa actividade na coordenação de projectos de interligação entre a Universidade, empresas e outras instituições. É co-autor de duas ferramentas de injecção de falhas, respectivamente RIFLE e Xception, que têm sido usadas em diversas Universidades e em agências espaciais, com destaque para a NASA (EUA) e INPE (Brasil). Foi presidente do Conselho do Departamento de Engenharia Informática e presidente da Comissão Executiva do Departamento (2003-2004), presidente do Comissão Científica do DEI (2004-2006) da FCTUC e presidente da Comissão Directiva do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra (2006-2008). Coordenou o processo de adaptação ao modelo de Bolonha dos cursos do Departamento de Engenharia Informática da FCTUC. Foi Vice-Reitor da Universidade de Coimbra entre 2009 e 2013 com responsabilidade nas áreas de inovação, transferência de saber, novos públicos, avaliação e recursos humanos. Henrique Madeira é também um contista, tendo publicado Uma Montra em África (prémio Joaquim Namorado) e Contos Infalíveis, 2015 (X Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca 2014).