Conferência “O destino da personagem: vida e sobrevida em contexto narrativo”

No dia 2 de Junho pelas 17h30, na sala DEPER, irá realizar-se a conferência O destino da personagem: vida e sobrevida em contexto narrativo com o Prof. Doutor Carlos Reis (Univ. Coimbra).

Cartaz_Carls Reis

Pré-publicação: Sobre poesia: outras vozes

A proposta inicial desta coletânea é a de reunir jovens escritores dedicados ao exercício simultâneo da reflexão crítica e da criação poética. Por essa via, acaba por solicitar a noção de poeta-crítico, fundamental às poéticas modernas, para repensá-la em nossa contemporaneidade.

Os textos aqui reunidos convidam, portanto, a avaliar como uma das mais fortes marcas dessa atualização a radicalização do hibridismo que afeta tanto a relação entre o poético e o ensaístico quanto a singularidade de produção de cada um desses discursos. Essa radicalização, que provoca o retorno na diferença de ainda outras importantes noções modernas – a de poema em prosa e a de prosa poética – implica não só uma expansão de limites, mas também uma crise que faz com que tanto poesia quanto crítica funcionem justamente pela hesitação quanto a sua forma e lugar.

Esse duplo e contraditório movimento pode ser identificado aqui também no modo como a simultaneidade se desdobra na relação das escrituras poética e ensaística com outras atividades como as de tradução e produção editorial e multimidiática. Ao mesmo tempo estimuladas e desestabilizadas por procedimentos decorrentes da globalização da economia, da cultura e da tecnologia contemporâneas, elas vão, por sua vez, afetar em diferentes níveis a produção e a circulação da palavra escrita. O trabalho tradutório com a materialidade da língua serve agora para redimensionar a tradicional distinção hierárquica entre o literário e o usual. O trabalho de produção gráfica e editorial, por seu turno, dá mais lastro material à relação entre o verbal, o vocal e o visual, além de aproximar a escrita literária – convencionalmente solitária, individualizante – de procedimentos e questões pertinentes a uma prática coletiva há tempos mais desenvolvida em outros domínios como na música, no teatro e no cinema.

Daí decorre a maior abertura à diversidade de discursos e de lugares de legitimação do literário – em livros, em blogs, revistas, oficinas, saraus, eventos performáticos – e a aceleração da problematização de fronteiras que já se pôde acreditar muito nítidas entre o erudito e o popular, o local e o universal, o artístico e o midiático. Esse conjunto de fatores, se não pode ser associado de forma automática a um aumento quantitativo do já emblemático reduzido público de leitores de poesia (um poeta português contemporâneo, Rui Pires Cabral, referencia ironicamente em seus livros e entrevistas seus 300 leitores…) instiga a repensar essa avaliação, e aponta para a possibilidade e o interesse da desconstrução de uma possível uniformidade qualitativa desse público.

Essa desconstrução se manifesta na própria experiência dos escritores aqui reunidos, que em seus poemas e ensaios, poemas-ensaios e ensaios-poemas, põem em movimento um exercício de leitura cheio de imprevistos, menos preocupado em definir identidades que em aguçar interesses heterogêneos. Nele o conhecimento da tradição literária erudita se alia à close reading de procedimentos estilísticos e à referência a discursos e práticas outros tão diversos como o da filosofia, do cinema, da publicidade, e da educação infantil, assim como da própria vivência cotidiana imediata. Assim, esse exercício se pauta pela produção de ressonâncias desterritorializantes que, no ensaio de Ricardo Domeneck sobre a poeta Juliana Krapp, se efetivam a partir de uma cuidadosa leitura que se aloja no interior mesmo do poema para nele encontrar, a partir da imagem da sebe, o poético como tensão entre interior e exterior, entre lirismo e análise, entre evidência e dificuldade, cujo alcance remete tanto à poeta da canadense Anne Carson quanto à linhagem feminina brasileira e excêntrica de Orides Fontella e Henriqueta Lisboa, mas provocando também fronteiras rígidas de gender na medida em que é aproximada da de Marcos Siscar .

Do mesmo modo, tais ressonâncias fazem Camões remeter a Ruy Belo mas também a César Aira, como propõe Leonardo Gandolfi, usando a crítica deleuziana para interpretar a imagem a dobra do cabo das Tormentas; ou Montaigne a Charles Bernstein e a uma poética da passagem em Emmanuel Hocquard e aos percalços existenciais e burocráticos da migração, tal como vividos e refigurados por Marília Garcia; assim como a tradição da relação peripatética entre andar e caminhar é relembrada por Golgona Anghel para pensar os tropeços e sobressaltos de uma escrita portuguesa contemporânea que torna sem sentido a associação entre escrever e estar sentado. Igualmente, a música eletrônica inglesa leva à inflexão jocosséria da comédia grega para orientar a avaliação feita por Adriano Scandolara sobre a dicção humorística da poesia brasileira deste século, assim como o contexto sonoro da filosofia pré-socrática ajuda a pensar a importância da performance oral da poesia, segundo Lucas Matos. O hibridismo de citação grega erudita e anedota banal também vai orientar a leitura que Nurit Kasztelan faz da nomeação do livro de poemas de Mario Ortiz como caderno, cujo caráter de inacabamento e rascunho coloca sua escrita num lugar de borda, na iminência de uma queda, nunca definitiva, da história, da economia, da poesia mesma. Maricela Guerrero propõe uma avaliação da singularidade do poético por meio de sua comparação com textos de caráter jurídico e jornalístico, fazendo uso de bases digitais de dados sobre uso da língua. Já o também híbrido e impuro contexto da vida literária em suas práticas concretas – como no funcionamento de livrarias, premiações, experiências didáticas – é o ponto de partida para Reuben da Rocha pensar a relação entre qualidade estética e materialidade gráfica e econômica da produção editorial remetendo tanto a Blake quanto à estética de seleção e montagem de que os DJs seriam o emblema.

Assim, esses híbridos escritos oferecem a seus leitores uma constelação de gestos críticos e poéticos, através dos quais juventude, singularidade e contemporaneidade se mesclam numa forma de experimentação que, se tem como pressuposto a inevitabilidade tanto da herança quanto da inquietação, consegue evitar tanto o epigonismo da tradição quanto a ilusão vanguardista do novo. Nessa experimentação, acompanhamos uma tensa e intensa tessitura que nos convida a apostar num modo de sobrevivência e importância da poesia e do pensamento, mas a contrapelo das utopias de autonomia, resistência e fundação originária, uma vez que se produz na confrontação de suas próprias fragilidade, incerteza e impureza.

Celia Pedrosa & Ida Alves
Colaboradoras do Grupo Intermedialidades do ILCML
Membros da LyraCompoetics

Seminário Aberto The Frontiers of Knowledge: Shouldn’t the Other Speak her Own Language?

Dia 24 de Maio pelas 17h30, a Prof. Doutora Dorothy Figueira (Univ. Georgia) estará na sala 109 para o seminário aberto The Frontiers of Knowledge: Shouldn’t the Other Speak her Own Language? . Entrada livre.

    Using the structuring metaphor of an imaginary meeting between Walt Whitman and Jose Marti, I examine the relationship between American formulations of World Literature and Comparative Literature and investigate how each discipline ‘welcomes’ the Other. I distinguish between what a European comparatist might envision about the relationship between the two disciplines, as working together in a symbiotic relationship to engage in passive and active canon reform. The European comparatist might take a neutral attitude to the recent American marketing of World Literature. I do not see this phenomenon in neutral terms and examine the American configuration of World Literature as a political program, discussing its origins in Area Studies, its relationship to the American academic model of multiculturalism and ultimately viewing it as a institutional strategy aiding in the management of diversity on US campuses.

cartaz Dorothy Figueira

Seminários do Fim do Mundo | Série IV

No dia 23 de Junho (três dias depois do solstício de verão), às 18h na sala DEG (Torre A, piso 1), decorrerá mais um seminário do fim do mundo, desta feita com João Teixeira Lopes, Rui Torres e Isabel Aguiar. A entrada é livre.

Seminário Fim do Mudo_junho 2016

Pré-publicação: Alumiação – Ensaio sobre poesia, visão e cegueira

pré-publicação: excerto de
ALUMIAÇÃO – ENSAIO SOBRE POESIA, VISÃO E CEGUEIRA
Pedro Eiras | Susana Paiva
Huggly Books, 2016

As coisas vistas, diz Caeiro, são as coisas verdadeiras. A verdade não depende do pensamento, mas de sentidos como a visão. E claro que isso exige uma aprendizagem, que é em primeiro lugar desaprendizagem de um olhar maculado pelo pensamento. Uma estória zen diz: o monge pensava que os rios eram rios e as montanhas eram montanhas; depois estudou o zen sete anos e percebeu que afinal os rios não eram rios e as montanhas não era montanhas; por fim estudou o zen mais sete anos e compreendeu que afinal os rios eram mesmo rios e as montanhas eram mesmo montanhas. Aprendizagem e desaprendizagem conduzem ao mesmo ponto de que se partiu: no fim reaprende-se a simples visão das coisas.

A “aprendizagem de desaprender” diz que “as estrelas não são senão estrelas” e que “as flores [não são] senão flores”. Acede-se assim à verdade: o sistema heteronímico de Pessoa depende inteiramente de uma identificação entre a existência de Caeiro, os olhos com que vê, a linguagem com que escreve O Guardador de Rebanhos, a imagem das coisas vistas, e a existência das próprias coisas como coisas verdadeiras. Não pode haver qualquer divergência entre sujeito e objecto, nem entre sensação e linguagem. Como escreve José Gil sobre Caeiro, “Ao estender-se ao comprido na relva, o seu corpo estabelece uma via de comunicação directa entre os sentidos e as coisas. Mas não só: entre as sensações e as ideias, entre as ideias e as palavras […] o estado final do processo de devir que conduziu Caeiro a ser o que é não apagou o pensamento, a linguagem, as ideias, mas transformou-os, tornou-os imanentes uns aos outros, sendo todos imanentes à Natureza”.

Este é o projecto de Caeiro, a doutrina, a solução que fascina todos os discípulos, cegos e depois curados da cegueira, dizem eles próprios (mas como sabem? Estavam cegos e afinal não o sabiam; como podem ter a certeza, agora, de que são capazes de ver?).

Mas esta identidade entre sujeito e objecto, sensação e linguagem, não será apenas um projecto impossível, a suprema ilusão? Quando Caeiro diz um verso tão límpido quanto “O que nós vemos das cousas são as cousas”, ignora que o que vemos das coisas é apenas a nossa visão das coisas – uma lição que Pessoa ortónimo bem conhece, atento à ilusão do mundo, ao diferimento da verdade, ao engano de todo o conhecimento. Ao considerar que está em relação com a verdade das coisas, Caeiro ignora Kant (a diferença entre númeno e fenómeno), Nietzsche (o conflito entre factos e interpretações), Husserl (a epoché transcendental), a física quântica, os jogos de linguagem segundo Wittgenstein, o relativismo de Richard Rorty – para acreditar cegamente no poder heurístico da visão. Nenhum discípulo, nem o solipsista Pessoa, nem o céptico Álvaro de Campos, cairia numa forma de fé tão frágil.
“O que nós vemos das cousas são as cousas”, diz Caeiro, e dá o exemplo das estrelas. Na verdade, muitas das estrelas que vemos no céu já deixaram de existir há muitos milhares de anos.