N.º 17 da colecção Estudos de Literatura Comparada

Já saiu o nº 17 da Colecção Estudos de Literatura de Comparada, Da MTV para o YouTube: a convergência dos vídeos musicais – da autoria de João Pedro da Costa, colaborador do ILC e membro do grupo Intermedialidades.

    Complemento supérfluo e desnecessário, veículo de promoção ou ferramenta de marketing, triunfo da imagem sobre o som, anúncio publicitário que incita ao consumo massificado, perpetuador de uma forma particularmente cruel de canibalismo cultural, alienação dos mais fracos e oprimidos, detonador de tragédias humanas, invenção da MTV, presumível suspeito do assassínio de uma estrela radiofónica cujo cadáver jamais foi encontrado, propaganda niilista de contornos fascistas, pornografia semiótica, conteúdo “viral” e, mais grave ainda, objecto artístico – de tudo um pouco já foi acusado o género audiovisual com as costas mais largas desde a invenção da televisão, e que parece ter finalmente encontrado nas plataformas digitais o seu habitat natural.

    A obra reúne um conjunto de ensaios onde se procura, a partir de uma abordagem interdisciplinar entre os Estudos Literários e as Ciências de Comunicação, proceder a uma análise textual do processo de convergência do vídeo musical da televisão para a rede.

Consulte o portal de divulgação e apoio à leitura da obra.

eLyra n.º 8: A Écfrase na Poesia Moderna e Contemporânea

Entre os processos de relação da poesia com as outras artes, em particular com as artes visuais, a écfrase detém um lugar de inquestionável prestígio e centralidade. Com origem em práticas de descrição que remontam aos grandes textos clássicos, o próprio conceito de écfrase evoluiu ao longo de séculos, designando estratégias discursivas em permanente renovação. No contexto da poesia moderna e contemporânea, a écfrase tem mantido um vínculo privilegiado com a experiência do museu, evidenciando a dimensão narrativa das obras provenientes do domínio das artes plásticas, das quais acompanha a própria evolução artística.

Ao longo dos séculos XX e XXI, a exploração artística da fotografia, a articulação das artes plásticas com as artes audio-visuais, o recurso aos meios digitais e às produções multimédia ou intermédia têm feito oscilar não apenas as fronteiras das artes, mas também o próprio conceito de écfrase, ao suscitar a renovação das práticas discursivas nas quais esta última se concretiza. Assim, e sem excluir as formas ecfrásticas mais convencionais, o número 8 da Revista Elyra, editado por João Pedro da Costa, Rita Novas Miranda e Rosa Maria Martelo, pretende contemplar acima de tudo as estratégias de adequação ecfrástica às novas linguagens das artes.

Serão privilegiados os estudos que incidam sobre aspectos teórico-críticos relativos ao conceito de écfrase e à sua expansão a novas vertentes das relações interartísticas da poesia com as outras artes, ou das relações entre as artes em geral, bem como os trabalhos dedicados à evolução da poesia ecfrástica nos séculos XX e XXI. Os estudos de obras poéticas específicas são igualmente valorizados.

Os interessados em colaborar poderão enviar artigos (em Português, Francês ou Inglês) até ao dia 31 Outubro de 2016, através do seguinte email: revistaelyra@gmail.com

Mais informações disponíveis aqui.

Colóquio Internacional “Exiliência de mulheres no mundo lusófono (séc. XX-XXI)”

O Colóquio Internacional “Exiliência de mulheres no mundo lusófono (séc. XX-XXI)” realizar-se-á nos dias 7 e 8 de novembro na Université Paris-Sorbonne e dias 10 e 11 na Universidade do Porto (FLUP). Toda a informação pode ser consultada na página do colóquio. Programa disponível em breve.

    As múltiplas convulsões e revoluções geopolíticas que marcaram o último século levaram (e continuam a levar), milhões de indivíduos a abandonar as suas terras ou países de origem, em demanda de paz e/ou de liberdade, em busca de sobrevivência ou de melhores condições de vida. Os territórios e países que têm a língua portuguesa em comum, aqui designados como “mundo lusófono”, estiveram todos diretamente ligados a algumas dessas vagas migratórias e exílicas forçadas por regimes ditatoriais, desencadeadas por guerras de independência e/ou por guerras civis e ainda pelos vários problemas estruturais causados pela pobreza ou pela instabilidade.

    Se bem que, por tradição, também no mundo lusófono tenham sido sempre os homens os primeiros a partir, a emigração e o exílio acabavam por marcar igualmente o universo feminino. Entretanto, ao longo das últimas décadas, tem aumentado não apenas o número de mulheres migrantes, como a sua visibilidade social e cultural enquanto sujeitos de experiência e/ou de representação.

    Neste encontro alargado de investigadores e criadores propomo-nos exatamente desenvolver /aprofundar a função e a perspetiva das mulheres tanto nos diferentes processos migratórios como na sua subjetivação no domínio das Letras e das Artes. No entanto, ao invés de nos concentrarmos apenas num estudo de base nacional e de separarmos, como muitas vezes aconteceu, e/imigração de exílio, optamos por abrir esta problemática a uma análise de diferentes contextos do mundo lusófono, assim como por utilizar o termo exiliência, numa tradução do neologismo proposto por Alexis Nouss (2015) para designar “o núcleo existencial comum a todas as experiências de sujeitos migrantes” e que, como expõe o autor de La condition de l’exilé, é passível de se declinar em condição e consciência, podendo estas coincidir ou não e em graus distintos. Sem querer anular as diferenças de experiências ou destinos individuais que, justamente, as representações literárias ou artísticas tendem a explorar, a noção de exiliência pretende antes de mais contemplar questões que extravasam das grelhas de análise socio-económica normalmente utilizadas para falar de migrações, designadamente tudo aquilo que tem a ver com os processos de subjetividade e do trabalho da memória que, além de interferirem nas construções identitárias, atravessam também as diferentes gerações.

Revisitando Goethe e a Weltliteratur – Observações Breves

Se atentarmos na sua enunciação-chave de 1827, verificamos que o conceito de Weltliteratur – literatura mundial, literatura universal, literatura-mundo, como tem sido vertido – manifesta um (pseudo)cosmopolitismo de marcada ambivalência. Goethe empregou o termo em diversas circunstâncias, sem lhe conferir particular desenvolvimento (cf. Pizer 2012: 3-7). Porém, numa conversa com Johann Peter Eckermann a 31 de Janeiro daquele ano fez assomar o tema com um pouco mais de espaço, e a memória desse diálogo tem inspirado múltiplas discussões. Concentram-se estas geralmente em três ou quatro frases. Contudo, vale a pena recuperar um pouco mais por extenso aquela conversa (cf. Eckermann 1999: 223-225), que se inicia com uma referência à tradução.
Diz Goethe que, desde a última vez que viu o amigo, tem andado a fazer muitas leituras, tendo agora em curso a de um romance chinês que muito lhe está a agradar. (Saliente-se a relevância instrumental do regime de género, subjacente, como argumento oculto, à convicção de que a obra chinesa – traduzida – é reconhecivelmente um romance.) Romance chinês?, surpreende-se o tão certo secretário. Há-de ser coisa bem estranha. Mas não, contrapõe Goethe, pois as pessoas pensam, agem e sentem as coisas mais ou menos da mesma maneira. Só que no romance chinês tudo é mais delicado, mais inocente e mais polido, tudo é depurado de excessos, parecendo-se com o seu Hermann und Dorothea (apropriadamente, uma história que respeita a um enlace com o estrangeiro) e com a novelística de Samuel Richardson. E dá-se o caso de no romance oriental – Goethe aparenta tomar por representativa a obra que tem em mãos – a natureza se apresentar sempre em sintonia harmoniosa com a vivência dos seres humanos; e de estarem sempre prontas a enxertar lendas cheias de encanto, morigeradoras e decorosas, provindas dos milénios da História chinesa.

Seduzidos e sedutores, os comentários de Goethe equivalem a uma lição de humildade, quer no plano pessoal (mau grado a referência a Hermann und Dorothea, que aliás, sendo uma narrativa escrita em verso, instaura dificuldades definitórias no domínio genológico), quer no plano nacional. Os Chineses já compunham obras dessa estirpe quando os “nossos” antepassados ainda habitavam as florestas, e não há motivo para exultar imoderadamente se escrevemos um bom poema quando centenas e centenas de indivíduos têm tido o dom da poesia. A poesia é património comum da Humanidade, sustenta Goethe, e cabe repudiar a presunção pedante dos que escrevem um poema sem se aperceberem de que, fora do círculo estrito da sua nacionalidade, escrever poemas é feito que vai acontecendo com notória abundância. “A literatura nacional significa agora muito pouco, a época da Welt-Literatur está iminente, e todos devemos empenhar-nos em apressar a sua chegada.” (idem: 225; tradução nossa) Mas não se pense que devemos ir buscar modelos aos Chineses, ou aos Sérvios, ou a Calderón, ou aos Nibelungos: devemos antes recuar aos Gregos se queremos a imagem de der schöne Mensch – o Homem belo, o Homem consumado (ibidem).

O raciocínio de Goethe revela a sua antipatia pelos arroubos váticos dos autores do Romantismo (que ele preludiou na sua fase Stürmer) e pelos pronunciamentos nacionalistas que ganhavam vulto à época (décadas antes da formação da entidade política que conhecemos hoje pelo nome de Alemanha). No período weimariano, o Classicismo de Goethe incute-lhe uma perspectiva cosmopolita, que abarca a apetência pelo contacto com diferentes culturas e literaturas, não o inibindo, entretanto, de regressar ao legado de uma Antiguidade em que avista o zénite das realizações éticas e estéticas da Humanidade. A abertura de perspectivas e a curiosidade que preside ao anúncio de uma literatura mundial não relativizam o apego aos Gregos nem derrogam em absoluto um entendimento eurocêntrico do Homem e da cultura. A denegação do nacionalismo corresponde a uma atitude cosmopolita que se detém no limiar de um verdadeiro multiculturalismo.

Sem prejuízo da enfática imposição desse limite, que decerto apareceria a Goethe como procedente do mais elementar bom senso, o argumentário denuncia a existência de sintomáticas linhas de tensão. Desde logo, note-se como o autor de Dichtung und Wahrheit prefere aos entusiasmos eufóricos da mundividência romântica um idealismo plácido e luminoso, que encontra expresso na literatura da China; e como, por outro lado, querendo divisar um denominador comum, acha naquele imaginário oriental uma candura burguesa, sugerida pela aproximação a Richardson, para mais articulável com as ressonâncias helénicas veiculadas pela aposição de Hermann und Dorothea. Importa menos apurar qual o grau de rigor destas asserções do que constatar que, ao entrever o advento da literatura mundial, Goethe empreende um exercício de construção de pontes por meio de um complexo jogo de espelhos deformantes, com a Weltliteratur (que emergirá) e o “Homem belo” (fornecido exemplarmente pelos Gregos) posicionados ao centro, a um tempo fautores e objectos de uma fraternidade de espírito que engrandece.

Acrescendo ao timbre voluntarioso que acabamos de sublinhar, o posicionamento de Goethe comporta um aspecto de apagamento estratégico do carácter de escolha inerente a um conjunto de opções vitais. Colocados em contraponto com os Chineses, os Gregos servem um mecanismo de apropriação camuflado de dispositivo de identidade. Esse seu estatuto ajusta-se ao longo curso da cultura ocidental, em cuja marcha a permanente redescoberta dos Gregos tende a confundir-se com um reengendramento dos mesmos. Ademais, as opiniões de Goethe configuram uma escolha entre dois exóticos, sem genuína antinomia entre “nós” e “os outros” – porque o suposto “nós”, de facto, não somos nós mas aqueloutros. A despeito de se ter naturalizado como arché da identidade ocidental, o referente da velha Hélade constitui um exótico de eleição. No passo de Goethe como noutras assunções de classicismo, reveste-se de um poder retórico – em última instância, do crédito de persuadir dispensando o cuidado da análise. Os Gregos são um exótico dissimulado; e são um passado simbólico no qual se estriba um projecto de futuro. A sua mobilização como pedra angular elide questões importantes, dissolve-as, quase insidiosamente, numa pretensa evidência, dilui-as na energia dos fraseados eloquentes. Um exemplo apenas: o “homem belo” encarnado nas obras dos Gregos é o melhor de nós ou um ser melhor do que nós? Existe uma diferença real, quer ética, quer estética, mas o enunciado goetheano faz submergir essa destrinça, aliás à semelhança dos de numerosos outros autores que se têm reivindicado da herança clássica. Não é preciso suspeitar de ardil ou impostura: é o simples ardor da devoção.

Jorge Bastos da Silva

 

Obras Citadas

Eckermann, Johann Peter (1999), Gespräche mit Goethe in den letzten Jahren seines Lebens, Hrsg. Christoph Michel unter Mitwirkung von Hans Grüters, Frankfurt am Main, Deutscher Klassiker Verlag.
Pizer, John (2012), “Johann Wolfgang von Goethe: Origins and Relevance of Weltliteratur”, in Theo D’haen, David Damrosch and Djelal Kadir (eds.), The Routledge Companion to World Literature, London, Routledge / Taylor and Francis Group: 3-11.

Nº 16 da Coleção Estudos de Literatura Comparada

Já saiu o nº 16 da Coleção Estudos de Literatura de Comparada, A Situação e a Substância – Cinco Ensaios sobre a Ficção de Virginia Woolf e de Maria Velho da Costa – da autoria de Rui Miguel Mesquita.

    O fio condutor que une estes cinco ensaios é a observação de uma ausência fundamental que perpassa os universos narrativos de Virginia Woolf e de Maria Velho da Costa; diríamos por isso que eles são universos narrativos situados. De modo a salientar essa ausência, estudamos o uso das categorias da narrativa (personagem, narrador, acção, espaço, tempo) em alguns dos romances mais importantes das duas autoras. Verificamos assim uma erosão significativa dos modos de representação narrativa que constituíram um legado fundamental do realismo oitocentista; de tal modo que essas categorias da narrativa são postas em causa enquanto suportes estruturadores da experiência humana. O universo sólido do romance realista torna-se instável, mas é nessa fluidez que algumas destas personagens finalmente encontram uma substância para os seus mundos narrativos.

    Há, no entanto, uma diferença importante que separa as duas autoras: enquanto a ficção de Virginia Woolf não deixa de salientar os constrangimentos que essa erosão narrativa revela, na ficção de Maria Velho da Costa esse constrangimento dá lugar a uma abertura lúdica, uma oportunidade para a livre efabulação narrativa a que não escapa uma vincada consciência política.

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