Inquérito Poesia e Resistência (Espanha)

inqesp
A poesia é uma forma de resistência? Sempre, por definição? Ou apenas em determinados contextos – sociais, políticos, culturais? Como pode resistir a poesia e a quê?

Respondem os poetas (de Espanha).

Inquérito realizado por Pedro Serra.

Alberto Santamaría (Torrelavega, 1976)

Estas preguntas apuntan, creo, a lugares diferentes. ¿Resistencia? ¿Resistencia frente a qué? Puede ser sin duda una resistencia frente al mercado, pero no lo es por sí misma. O no sólo la escritura poética. Parto del hecho de que no existe lo poético en sí, sino formas de ordenar la realidad. En este sentido, resistir para mí no implica tics de denuncia automática, ni, en el otro extremo, fórmulas de pureza excluyentes. La poesía, desde mi punto de vista, juega en dos niveles, en el lingüístico y en el social. Todo fenómeno puede caer en el poema. El poeta es un tipo que maneja signos, pero que no da la espalda a la realidad. Por otra parte, no caeré en la fórmula manida de decir que todo acto es político porque no es cierto. Si todo es político nada es político y en ese contexto de retirada de lo político la derecha se maneja perfectamente. Es decir, que la poesía por sí misma es una forma de resistencia, pero una forma pasiva, cuya capacidad de intervención es mínima. Y lo mínimo se alía con la vergüenza ajena cuando se intentan llevar a cabo espectáculos de pasacalles poéticos tratando de hacer de ellos muestra de transgresión.

Antonio Gamoneda (Oviedo, 1931)

Sí, la poesía puede ser una forma de resistencia, pero limitada a la subjetividad, a la intensificación de la conciencia. Una resistencia, pues, que podríamos entender moral. De hecho, sea cual sea la subyacencia ideológica, el lenguaje poético, por su ‘naturaleza insurgente’, se opone al lenguaje convencionalizado por el poder. Por todos los poderes. Pero en el espacio objetivo (Sartre dixit), en el de las estructuras sociales, por ejemplo, o puede hacer nada. Esto es comprobable en cualquier sencilla circunstancia histórica.

Ben Clark (Ibiza, 1984)

Yo creo que la poesía, más que una forma de resistencia, es una forma de desgaste. La erosión es inevitable y la naturaleza tiende a favorecer la llanura, a buscar el equilibrio con el mar. La poesía consiste, a mi modo de ver, en controlar este desgaste, esta erosión, de forma que uno pueda crear paisajes interesantes y hermosos durante el proceso. El fin de las montañas es inevitable, la poesía consiste en hacer de la montaña lo que tú quieres que sea o lo que habrías querido que fuera.

En cuanto a la poesía como forma de resistencia a la opresión, a los regímenes totalitarios y a la intolerancia, debo decir que no creo, por desgracia, que pueda jugar un papel muy destacado en la pérfida coyuntura Capital-Industria Militar-Consumo que nos subyuga. La poesía puede ser, en este contexto, más que resistencia punto de fuga de un cuadro feo que es la sociedad. La poesía ofrece perspectiva y permite creer en la posibilidad de una resistencia –lo cual ya es mucho–, pero no puede detener la descabezada máquina capitalista ni le quita el sueño a los codiciosos.

Carlos Quiroga (Escairón, 1961)

Acredito em que Poesia possa ser, naturalmente, uma forma de resistência explícita, mas também em que possa naturalmente não ser. E acredito ao mesmo tempo que ela seja sempre, e por definição, uma forma de resistência, e subsistência, implícita.

No plano explícito e superficial, à tona do visível, pode ser usada como modo de reacção declarada, sim, às vezes, quando se levanta com vontade ou mesmo sem querer, pequena, rouca ou grave, contra o esmagamento das tantas caras dos poderes, abusos ou mesmo perplexidades, e pode ser nesse caso boa ou pode ser ruim, e pode ser sozinha ou pode haver outras muitas formas de como por ela resistir, de certeza hoje mais contundentes e apreciadas. Pode ser portanto forma de resistência expressa, talvez marginal, mas também pode não ser, pode ser até de desistência explícita, sem abandonar nunca a sua certa marginalidade ou resguardo, sem deixar de se filtrar hoje mais do que nunca noutras formas de Arte, Meio, Suporte. Pode até à tona desistir daquilo que empurra a materialidade da existência humana, como o seu teimar em arvorar-se em algo diferencial ainda prova, e assim também ser uma forma de resistência evidente. Pode por certo sê-lo até pelo puro invólucro visível de língua –como eu estou provando nestas linhas, pois apesar de convocado à trincheira que me marca o meu bilhete de identidade me resisto pacificamente por ela a vestir determinado uniforme. E pode não ser…

Mas o que não deixa nunca de ser a Poesia, noutro plano mais profundo, entranhado, metafísico, é implicitamente resistente, creio, pois nela, como na esgrima, seja no ziguezague do verso ou na filtração para outras formas de Arte, Meio, Suporte, também há uma capacidade de acender luzes no coração das pessoas –ou no que se convencione em chamar centro neurálgico dos sentidos, estritamente no cérebro. Uma capacidade terrível e também olímpica como esse estranho desporto. Tamanha, que pode levar o nome dos deuses mesmo que eles não existam.

E tomo proposta e frases de uma formulação mais ampla que escrevi e li uma vez ao público do Correntes d’Escritas de 2007. Como é costume, à mesa de convidados tinha sido lançado um lema mais ou menos enigmático que devia provocar as falas: o nosso era “A Poesia é um segredo dos deuses”. O que escrevi e li só naquela e para aquela ocasião guardei até hoje. Creio que partilhá-lo agora responde (demoradamente) melhor este inquérito quanto a modos de resistência e àquilo a que a Poesia resiste.

essa sorte de esgrima

Correram rios de saliva e tinta, durante séculos, tentando explicar o que Poesia é, e essa frase, “A Poesia é um segredo dos deuses”, é só uma linda-linda frase no meio da corrente, hoje Correntes. Frase positiva. Cheia de possibilidades de glosa, especialmente glosável pelo lado dos seus partidários, se os houver. Aqueles que, de princípio, forem adeptos, como talvez todas as pessoas que vieram tão cedo aqui nos ouvir, podem concordar com a frase, mas também haverá quem abrigue a secreta constestação e venha aqui reunir argumentos científicos ou de experiência –contra, é claro. E também queremos dar. Portanto, branco, preto, gama intermédia. Vamos percorrer os matizes e não contentar ninguém.

Correram rios de saliva e tinta acerca do que Poesia é, e não se pode negar que existam conflitos, sérios, entre aquilo que pode ser bebido neles, entre aquilo que pode ser dito ou aprendido numa sala de aulas, e aquilo que se aplica no fazer poemático. Coloquemo-nos no ponto de partida óbvio, didáctico, para atingir o outro, dilemático, partamos daquilo que na universidade, ou mesmo antes, se aprende sobre a poese, para lançar o debate. Aprende-se naqueles rios da tradição que na raiz da poese já anda no grego um sentido de criação, mas não só; que Poesia é essa coisa nos livros que não chega bem às margens, mas não só; que Poesia pode ser um palavreado efeminado que rima, mas não só; que os grandes poetas sempre atravessam os fluxos de escrita posteriores, mas não só; que, especialmente, verso é uma coisa e Poesia é outra. Mas não só, e paremos por aí.

Talvez a distinção destes dois últimos conceitos seja o ponto de partida necessário, e sem conflitos entre teoria e prática, para colocarmo-nos no plano onde se move a propositiva frase. Verso é uma coisa e Poesia é outra coisa. Pode haver poesia sem verso e pode haver verso sem poesia. A poesia aparece quando se entra nos sentimentos, na transmissão de pensamento, na idealidade transfiguradora das coisas, no sobrenatural. Eis o território dos deuses. Da frase.

Portanto “A Poesia é um segredo dos deuses”…? Ainda não –continuamos no preto mas já vamos, de qualquer modo, com a frase. Entramos no território branco, muito bem, retirado o verso à sua condição em que a explosão da linguagem de Rimbaud o confinou, e ascendendo no ar em que cabe a expectativa de deuses. Mas, para além do “ser segredo dos deuses” ter algo de tautológico, tanto como dizer “o sal é salgado” (o segredo, o escondido, o que não deve ser revelado, o mistério, o enigma, o que já é próprio só de deuses), falta esclarecer quem são esses deuses, esses seres supremos, entes superiores, sobrenaturais, eternos, infinitos. De que lado da transmissão é suposto colocar.

Vejamos: a frase é um desafio para propor a divindade a quem consiga penetrar o sentido poético de uma linguagem artística, musical, especialmente verbal…? São deuses os que conseguem penetrar os arcanos e receber a transmissão do pensamento poético, entrar no enigma poético…? Então, senhores leitores, leitoras, deviam aproveitar e sair já procurar o silêncio das salas de leitura, procurar os seus livros onde se encerra o segredo transfigurante, aquele que só os deuses conseguem sentir. Corram experimentar! Eis, a divindade ao seu alcance, comprem na feira do livro passagens para o céu olímpico…!

Mas, não se atropelem ainda, porque cabe a outra possibilidade, a mais abusada, a de que o Olimpo já é dos poetas: será por acaso a eles que se refere realmente a frase…? São os poetas os detentores do segredo…? Certo que há indivíduos superiores aos demais em saber, poder, beleza, mas –desenganem-se as pessoas que madrugaram tanto– nem todos são poetas. Mais bem existe uma triste opinião contrária, e não só a nível popular: Agustina Bessa-Luís, que já passou por esta mesa, escreveu que o poeta é um homem que se queixa, ou que se um homem de trinta anos chora é imbecil ou poeta. A equivalência não deixa lugar a dúvidas, imbecil ou poeta. E mesmo um dos pais simbólicos deste encontro, o poveiro Eça de Queirós, escreveu o conto “Um poeta lírico” em que nos dá o típico exemplar com corpo de tísico triste, grego, Korriscosso, prendido a um trabalho humilhante num restaurante por amor de uma criada, Fanny, que não o compreende, porque ele “é só um grande homem –em grego”, porque ele só pode escrever as suas elegias na língua materna.

A nível popular, no mesmo registo em que no ano passado falava de druidas no lupanar, referindo-me aos críticos literários hoje, teria que deixar ficar os poetas à porta dos prostíbulos, hoje, prendidos de amores por alguma bela prostituta, sempre, mais ou menos da mesma maneira que o Korriscosso de Eça de Queirós pela sua Fanny, em todo o caso sem dinheiro (já sabem que Poesia e dinheiro são inconciliáveis) para entrar no bordel.

Isso no nível popular e de modo geral, é claro, pois casos haverá em que o poeta tenha como pagar, seja convidado de borla, ou até chegue a montar o seu próprio bordel. De qualquer modo, comportamentos nada favoráveis a alimentar um politeismo como o sugerido na frase a favor do poeta, pois ele ainda é visto em geral como um ser estranho, à margem, sonhador, boémio, aquela imagem do romantismo europeu do século 19. Mais do que um deus, visto como um indivíduo que vive ao deus-dará. Um tipo que reunido com outros da mesma condição só provoca um deus-nos-acuda. Eis todo o deus que em geral lhe é concedido… Mas do preto, e pela gama intermédia, vamos agora abrir passagem ao branco.

Já teriam comprovado, à vista desta mesa, como tudo isso está errado, em especial a imagem dos poetas. Há mais imagens ainda, nas que até parte da mesa sem dúvida se assumiria, mas todas distorcendo a realidade de estar seres humanos por trás, e escondendo que pode haver um trabalho poético racional, lúdico e no entanto sério, com as palavras, que pode questionar o estabelecido e propor ou interpretar outras formas de viver, sentir, escrever e pensar. Que um ser humano pode ser capaz de realizar uma transmissão numa linguagem rítmica ou musical, tanto melhor se assim acontece, e até pode ser capaz de o fazer mesmo sem usar o verso, com talento mas trabalho. E isso até com linguagens não verbais. O verso é poetizante por comportar um ritmo, mas só com o ritmo não se faz Poesia. Nem sequer se faz música, ainda que é um princípio, ainda que a linguagem musical se emparente com a verbal empregada na Poesia… E é neste momento, quando mais parece que nos afastamos da frase proposta, que mais nos aproximamos dela e do branco, empíreo, por outras palavras: aproximamo-nos, ao invocar vocábulos como mistério, a vocábulos como mística.

O conceito de deus, o próprio vocábulo, é apenas um símbolo para envolver o desconhecido do ser. E todos os seres cá de baixo, poetas e leitores de poesia, estamos carregados de enigma, não somos nós próprios mais do que enigmas, pois ignoramos um dos termos da relação que nos faz existir. Nos esforços para decifrar o enigma de nós próprios e da nossa relação com o mundo intervém o mistério da Poesia. Do mesmo modo que, impressionadas por um sentimento de dependência impotente, as pessoas projectam os seus desejos e os seus medos num ser superior que foi capaz de satisfazê-las e defendê-las, e dá o nome de deus absoluto a isso, é aceitável que desde um politeísmo poético hipostasiemos cada uma das múltiplas manifestações desse absoluto que percebemos por meio das linguagens artísticas, musical, verbal.

Mesmo para o inventor da filosofia do século XX, que nos persuadiu da morte de deus, mesmo para Friedrich Nietzsche, “Os Poetas Tornam a Vida mais Leve”, mesmo que seja provisoriamente. E “os poetas e os romancistas são os mestres do conhecimento da Alma”, escreve Sigmund Freud, “eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda”. No entanto, “o Poeta não é um pequeno deus”, afirmou Pablo Neruda na entrega do Prémio Nobel, “o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeiro mais próximo, que não se julga deus”… Atingimos o branco empíreo conscientes de a frase ser uma soberba licença poética na que podemos acreditar porque nos Torna a Vida Mais Leve.

Na verdade, a Poesia hoje é “considerada um objecto de luxo ou actividade ociosa e anacrónica, assim como criar falcões, estudar heráldica, praticar esgrima ou qualquer outra actividade considerada distante da realidade” (Cláudio Daniel, em entrevista à Et Cetera, 7, 91). E, com efeito, adestrar aves de presa, estudar a arte de descrever brasões de armas, ou praticar um desporto a que a invenção da pólvora retirou possibilidades, por muito que os esgrimistas digam dele que é um estilo de vida, parecem actividades algo anacrónicas. Sem embargo, até do anacrónico se aprende, especialmente se tiver condição olímpica, como a esgrima.

A espada e o florete vêm equipados com um sensor na ponta da arma (no caso do sabre fica dentro do corpo), e quando um esgrimista toca o outro, o sensor faz acender uma luz. Como na esgrima, creio que na Poesia também há uma capacidade de acender luzes mas no coração das pessoas (ou no que se convencione em chamar centro neurálgico dos sentidos, estritamente no cérebro). Uma capacidade terrível, também olímpica. Tamanha, que pode levar o nome dos desuses, mesmo que eles não existam.

Actividade distante da realidade? Actividade inútil…? Certamente. Cavar um buraco para fazer dele uma fotografia não parece com efeito útil. Cavar um buraco para fazer um poço e ter água parece muito útil. E, contudo, quem nos garante que não existam mais pessoas a acalmar melhor a sua sede na fotografia do que na água do poço? Quem nos garante que certas boas fotografias não tenham mais utilidade para o que se convenciona em chamar alma do que certos poços? Inclusive no terceiro mundo, onde comida e bebida são mais urgentes que os desejos da alma, acaso aí não se precisa o sonho do poço, a necessidade da ideia para quando a fome, a sede efectiva, cheguem…? Dizem que se o ser humano deixa de sonhar morre, que, se o acordas insistentemente quando vai sonhar, morre. As fotografias, a literatura, a arte da escrita e as outras artes, a Poesia, são tão imprescindíveis para a vida e sobretudo para a felicidade dessa vida como a comida e a bebida, porque achar-lhe o sentido é imprescindível.

Vestir roupa é imprescindível quando abrigar-se é imprescindível, e basta um saco quando há frio, e serve a cortina se estiveres desesperado; mas vestir roupa que o seja, vestir roupa até que agrade, é imprescindível quando já conseguiste abrigar-te, quando, abrigado, consegues poder seguir sonhando como seguir a abrigar-te. E lavar o corpo é igual de imprescindível se queremos suportar-nos pelo sentido olfactivo, mas quando este sonha aparece o perfume…

A escrita, a Poesia, é um dos perfumes da vida, é essa sorte de esgrima que toca nos sensores da alma, que acende constelações de luzes de modo pouco explicável, enigmático, e que por isso merece o nome dos deuses. Mesmo que eles não existam.

[Eis o sentido implícito da perenidade da sua resistência, e o modo e a quê, a meu ver]

Chus Pato (Orense, 1955)

Resiste o poema como resiste unha punta de sílex, unha machada bifacial ou as taboiñas de escritura caldea. Resiste porque os/as poetas traballan con material máis resistente do idioma. Resiste porque un poema é o resto dunha destrución. Porque é un fragmento de idioma que se sitúa no lugar do que foi destruído ou do que nunca aconteceu (pode posicionarse na pel dunha fraga, dos defuntos, dos espectros que roldan a escritura, da verdade, do amor, da xustiza, das utopías), é trae iso que non está de novo onde cara un. Resiste como resisten os restos, as ruínas. Resiste porque é testemuña e un implante de futuro.

Un poema resiste e resiste por definición. Resiste contra a lingua de consenso, contra a palabra mito, contra a palabra que é mímese, representación do que está fóra da palabra e é sempre lingua de poder. Resiste contra a teoloxía política, contra o trono e o altar e é sen soberano, sen banda que a suxeite, fóra de banda, fóra de estado, fóra de bandeira.

Resiste porque amosa a imposible harmonía entre a serie sónica (canto) e o sentido (concepto). Resiste porque amosa a imposible harmonía entre o tropo e o significado. Resiste porque non é significado.

Resiste porque o poema é un fóra de arquivo. Porque no poema sucede o que nunca sucedeu o que nunca vai suceder e sucede sempre no poema. Resiste porque no poema sucede o imposible.

Eduard Escoffet (Barcelona, 1979)

No creo que la poesía sea resistencia ni que tenga que serlo. ¿Resistencia a qué? A lo sumo, una realidad autosuficiente. Comúnmente, un dardo, un acento o una grieta. Pero no creo que sea resistencia, no creo que reconozca un poder superior, algo que lo oprima. Eso sí, puede redoblar un esfuerzo, ser el ariete de un grito colectivo o colchón para el sosiego. Su concentrada energía puede servir para muchas cosas. Abre latas, también, y se escribe a sí misma. Su forma es presente y su sangre, de antes del pasado: se reinventa a cada instante y no caduca nunca; por ello crean acaso algunos que sea resistencia –al pasado, al paso de las modas–, que sea esclava de un solo momento.

Eugenio Tisselli (Ciudad de México, 1972)

La filosofía no tiene que ver con el sentido común. No se trata de una afirmación que implica una superioridad de la filosofía sobre el pensamiento cotidiano, sino que más bien constata una diferencia: el pensamiento filosófico es diferente a la forma que nuestra mente construye el día a día. Ahora bien, asumo tres cosas: que el pensamiento cotidiano se encuentra bajo el embate de poderes espectaculares, que estos poderes lo han desgastado hasta un punto en el cual la autonomía y la libertad son ya impracticables, y que la poesía es una continuación de la filosofía por otros medios. Así, me atrevo a decir que la poesía es una forma que resiste al pensamiento dado, al modo maquinal en el que pensamos “aquello que existe”. Que resiste precisamente por su condición de diferencia. Y que, en esa resistencia, tiene el potencial para reinventar. Me permito señalar aquí el “Manifiesto de la poesía maquinal“, que escribí en 2006, y que pretende instigar una poesía hecha por máquinas, es decir, una poesía algorítmica que, sin voluntad ni visión del mundo, devuelva a las palabras una materialidad pura. Un trabajo de limpieza, de recuperación, de ocupación. Es, en esencia, un llamado a la poesía como resistencia ante la devastación lingüística que han dejado los poderes económicos, políticos y científicos. El manifiesto es solamente un ejemplo de cómo la poesía puede resistir.

Evidentemente, no toda la poesía asume estas posiciones. Y hay poesía que, más que resistir, convalida la destrucción cotidiana del mundo. Muchas veces sin darse cuenta. Es el caso de los poemas “moralizantes”, o los que de alguna forma representan el mundo, reproduciéndolo. Desde mi punto de vista, la poesía solo es resistente cuando destruye el mundo, cuando asume que el fenómeno poético ocurre exclusivamente dentro del lenguaje, y que si hay algo que la poesía puede renovar, aunque sea con rupturas muy humildes, es su propio dominio.

La poesía resistente puede darse en cualquier contexto, no veo por qué tenga que haber una limitación. Cada sociedad destruirá el mundo a su manera, cada comunidad asumirá sus propias políticas de limpieza y recuperación del lenguaje. Y entre estas diferentes formas, puede que haya pocas similitudes. En suma, creo que lo resistente de la poesía no solamente está en la forma, sino en la intención de destruir para renovar.

La poesía se resiste a todo, es decir, a todo lo que forma parte de la esfera lingüística de lo cotidiano. Pero insisto: destruyéndolo. No puede haber una resistencia positiva.

Jorge Riechmann (Madrid, 1962)

Si uno piensa que la poesía no tiene una función, sino muchas –aceptemos provisionalmente que esta perspectiva más o menos instrumental resulta adecuada para la poesía, lo cual podría cuestionarse a su vez–, resultaría extraño que la poesía supusiese siempre y en todo contexto una forma de resistencia. No hay más que pensar en la distancia que media entre el “yo celebro” de Rilke –donde el poeta pronuncia algo así como un sí extático frente a la existencia y el mundo, a pesar de los aspectos tenebrosos, crueles y abismales que no se desconocen— y la sobrecarga significante de los poemas bajo condiciones de dictadura política –cuando vehiculan, por ejemplo, informaciones, opiniones, reflexiones y esperanzas que en una sociedad más abierta aparecerían en la prensa–. Sin duda, en diversos contextos la poesía sí que puede ser una forma de resistencia. Resistencia, por ejemplo, frente a la clausura de horizontes de sentido; frente a la tendencia a dejarnos caer a lo más bajo de nosotros mismos; frente a la identificación de lo dado con lo posible que propone el pensamiento único (there is no alternative); frente al nihilismo y la apología de la dominación que segrega, a modo de exudado cultural, el sistema socioeconómico dominante (el capitalismo neoliberal, fosilista, financiarizado y globalizado); frente a las tentaciones de la servidumbre voluntaria, el cinismo y la desesperanza.

Hacer arte y artesanía con el lenguaje nos enseña –debería enseñarnos— a hacer arte y artesanía con la vida, puesto que somos seres medularmente lingüísticos. Y ésta última es una tarea inesquivable… Nuestra vida, señala Zygmunt Barman, “tanto si lo sabemos como si no, y tanto si nos gusta esta noticia como si la lamentamos, es una obra de arte. Para vivir nuestra vida como lo requiere el arte de vivir, como los artistas de cualquier arte, debemos plantearnos retos que sean (al menos en el momento de establecerlos) difíciles de conseguir de entrada (…). Tenemos que intentar lo imposible.”

María Ángeles Pérez López (Valladolid, 1967)

Para responder en términos concluyentes a la pregunta, si eso me fuera posible, diría que sí, que la poesía es una forma de resistencia, porque cuando busco verbos que definan lo poético, resistir aparece como el único lugar en el que puedo quedarme. Es, también, el lugar al que llegan algunos de los poetas y críticos a los que más admiro. Recientemente le preguntaban a Juan Carlos Mestre si con todas las noticias económicas que nos invaden y atenazan, había lugar para la poesía, y su respuesta era tan concluyente como quiero serlo yo: “Si hay lugar para la resistencia entonces existe un lugar para la poesía. La poesía es un acto de legítima defensa contra la soberbia obstinación del poder para mentir. […] La poesía recuerda qué ha de significar en épocas de penuria la palabra justicia, la palabra piedad, la palabra misericordia. Testigo incómodo, voz sin boca de la dignidad humana”.

Antes, había afirmado René Char: “Parece que la poesía, por los caminos que ella ha seguido, por las pruebas que ha resistido para merecer su nombre de poesía, constituye la posta que permite al ser exhausto y desmoralizado volver a encontrar fuerzas nuevas y razones frescas para perseguir la presa o la sombra una vez más”.

Y Deleuze, en una conferencia que tituló “Qu’est-ce que l’acte de création?”, proponía justamente que la creación artística (en todas sus formas) radicaba en su resistencia. Con sus propias palabras: “los libros de filosofía y las obras de arte tienen en común la resistencia, la resistencia a la muerte, a la servidumbre, a lo intolerable, a la vergüenza, al presente”.

Muchos más nombres ampararían esta visión desamparada: Eduardo Milán, Claudio Rodríguez (“estamos en derrota, nunca en doma”), Antonio Machado (o Juan de Mairena, para quien de nada sirve “la libre emisión de un pensamiento esclavo”), Blanca Varela, Wisława Szymborska (“Nada en las paredes/ y solo la humedad que va cayendo./ Aquí hace frío y está oscuro.// Pero un frío y una oscuridad/ de fuego apagado./ Nada, pero después del bisonte/ pintado con ocre.// Nada, pero una nada pendiente/ después de una larga resistencia/ de cabeza agachada./ Así pues, una Nada Bella./ Merecedora de letras mayúsculas./ Una herejía ante la vulgar nada,/ no convertida y orgullosa de la diferencia.// Nada, pero después de nosotros/ que estuvimos aquí,/ y nos comimos nuestros corazones/ y nos bebimos nuestra sangre”). Quien persigue presa o sombra en el corazón mismo de un lenguaje inasible y refractario, poesía que evita repetir los lenguajes devaluados (del poder, del discurso, de la propia poesía). Que se resiste a sí misma, desde luego, y se resiste al poeta, al mismo tiempo que resiste cualquier intento de mediación o depauperación pues aloja el disenso y la individualidad, evita la visión gregaria y uniforme de gran parte de los lenguajes que nos rodean (y a la vez conforman), se escabulle y no se deja someter a los principios de deshumanización, legalidad, legitimidad o publicidad que intentan constreñir la experiencia de lo humano en términos de lógica postindustrial.

Resistiéndose a ser una mercancía cultural específica cuyo valor es simbólico y funciona también como valor de cambio, la poesía, consciente de sus límites y sus fronteras, genera fricciones en el mismo sistema poético que la alberga, encarna la turbulenta imposibilidad de decir lo idéntico en términos idénticos y tiende a expulsar tanto lo banal como lo instrumental, trazando un arco amplísimo en el que entran lo sublime, lo irónico o lo absurdo, lo alto y lo bajo, lo lírico y lo antilírico, lo repulsivo y lo bello, moneda y cisne, Eros y Tánatos, lo queer y la primera pared de la primera cueva –aquella en la que escribe Szymborska–, y desde luego, el cuestionamiento mismo de la lógica binaria en la que se enredó esta respuesta, pero que es un arco que se tensa y da siempre en el blanco; que alcanza el vuelo del pájaro en tanto vuelo, en tanto trayectoria despojada de su propio deseo de la forma. Y también forma.

Incluso aunque no resista siempre, sino solo en ciertos contextos (ciertos autores, ciertos textos, ciertos fragmentos del lenguaje que quedan como astillas horadando la tradición misma del lenguaje y su astilla), y en realidad responda a nuestra propia necesidad (vuelta deseo) de situar lo poético en el territorio de lo refractario, seguiría diciendo –en voz baja, claro, pero continuaría–, que frente a la deshumanización en todos sus rostros, la poesía nombra aquello que se resiste a las convenciones, a lo aceptado sin cuestionamiento, a lo inhumano, al olvido y a la muerte. Y que cuando de veras merece la pena, se resiste a sí misma. Como se me resiste a mí para traerla hasta este lugar.

María Lado (Brens, Cee, 1979)

En mi opinión, la poesía es la más resistente de las expresiones literarias. Históricamente, el auge progresivo de otros géneros, (como la novela, el relato e incluso el teatro), ha ido arrinconando a la poesía a una parcela reducida desde la que ofreció a lectores y escritores una imagen de género elevado, excesivamente culto, y en general distante del lector y minoritario, apta solo para lectores “iniciados”. Es una imagen demasiado simplista, que no define la realidad poética ni de este siglo ni de parte del anterior, pero que aún así sobrevive en gran medida en la mente de gran parte de los lectores actuales, actuando como un pesado prejuicio que obliga a la poesía a vivir como un género minoritario.

Solo por eso, la poesía es resistencia en si misma: resiste a ser “moderna” o “comercial”, resiste el abandono de los editores mayoritarios y el público general, resiste, y aún así avanza silenciosa, creándose y renovándose desde ese margen del sistema literario ( y otros sistemas) en el que habita.

Esa existencia “marginal” acerca la poesía a otras marginalidades que encuentran en el lenguaje poético un medio de expresión ideal. Por eso la poesía, en contextos sociales, políticos y culturales determinados, es el cauce más habitual y, en ocasiones efectivo, para expresar la resistencia, las reivindicaciones, la lucha, la denuncia… Otras características que suelen adjudicarse al género lírico (como su proximidad con la música, el ritmo, la excepcional relación del yo lírico con el lector, etc.) son la excusa perfecta para convertirse en la expresión base de la resistencia.

Miguel Casado (Valladolid, 1954)

Sí, la poesía es una forma de resistencia. Lo es siempre, por definición.

Pero habría que situarse un poco para desarrollar esta idea. Cuando vinculamos poesía y resistencia, generalmente estamos pensando en la poesía de intención política; sin embargo, yo preferiría, por un lado, una mirada más general, más abarcadora; por otro, me parece necesaria una pregunta previa acerca de ese carácter político.

Cuando pienso la vinculación poesía-resistencia, pienso primero en una resistencia existencial. Es decir, en cómo la poesía busca, construye lugares en los que sería posible sentir el pulso de la existencia; donde se podría acoger un sentido, más allá de la falta de sentido; donde sepodría vivir. El poema como lugar habitable.

Quizá solo en el artificio de la argumentación sea posible separar ese espacio solitario, en que cada uno ventila las cuentas con su propio existir, de un latido político, colectivo. Pero me parece importante poner la resistencia en primer lugar ahí, donde la identidad se juega, se construye o se disuelve, donde cada uno debate consigo mismo si le es posible –o en qué condiciones, o con qué movimientos y cambios– decir yo.

Si luego paso a preguntarme por la poesía de intención política, me asalta la convicción de que la poesía no es cosa de temas. Creo que el valor político que tiene, sin duda, la poesía no aparece más incisivamente cuando habla de política, cuando analiza problemas políticos o sociales, que cuando habla de otro asunto cualquiera. Que la potencia política de la poesía es igual a su potencia poética, hable de lo que hable.

No es fácil explicar esto en el marco que ofrece un cuestionario; prefiero siempre ir a los textos, en vez de hablar en términos generales, y eso no es posible aquí. Partiría, en todo caso, de la experiencia de que el poder, el sistema, la dominación de clase –llamémoslo de cualquier modo en que podamos entendernos– trabaja de manera preferente en el campo del lenguaje: moldea la lengua para dar sentido a sus lógicas, para hacer impensables otras lógicas que se le opusieran, esconde y falsifica la realidad, termina determinándola a través de las palabras. Y que este trabajo permanente de control y modelado de la lengua es el principal de sus mecanismos de control social y político, por encima de los económicos o los policiales. Aquí sería muy útil poder analizar con calma cómo ha evolucionado el viejo concepto de “sentido común” hasta nuestros días, o detenernos en cómo usaba Breton la metáfora de la jaula en el Primer manifiesto; me conformo con mencionarlo.

Para mí, el valor que tiene la poesía como espacio de resistencia política arraiga ahí. Dicho muy rápidamente: entiendo la escritura como la búsqueda de un lugar de lengua-mundo personal que, según lo anterior, solo podría darse como crítica de la establecida. En la medida en que el control del lenguaje es político, el poema siempre es también político, incluso si la conciencia del poeta, su ideología, no lo reconocen. Toda verdadera poesía es un atentado contra la dominación, un gesto de resistencia.

Si pienso en la escritura concreta, solo me interesan aquellos poemas en que la reflexión política se integra en un flujo existencial, indistinta de la intimidad o el paisaje, de las lecturas o los sueños, los trabajos o los días.

Por ejemplo, un poema reciente: la secuencia VI de Le jardin d’encre [El jardín de tinta], obra todavía en curso, de Bernard Noël.

Tomás Sánchez Santiago (Zamora, 1957)

1. ¿Es la poesía una forma de resistencia?

Entre otras cosas. Pero el concepto de ‘resistencia’ se ha de alargar también, y sobre todo, al lenguaje utilizado en el poema. Y al resto de ingredientes que lo configuran. Todo ello emplazado fuera de los límites de lo acomodado, de lo previsto. Ahí hay que ir a buscar siempre al poema, en un lugar donde oro y harapos se confunden. Ahí hay que resistir, más allá de eso otro que llamamos ‘literatura’.

2. ¿Lo es siempre, por definición?

En última instancia, sí. Pero, claro, la acepción del verbo resistir es elástica. No debería identificarse con una acción de efectos inmediatos ni con una poesía de combate ni con la agresividad verbal o temática que puede constituir el poema. Hay otras maneras más eficaces de resistir. En la inadvertencia, por ejemplo. Yo creo en eso.

3. ¿O tan sólo en determinados contextos – sociales, políticos, culturales?

La poesía no es cosa de contexto. Precisamente la que se brinda a su coyuntura es la que antes desaparece, la que antes deja quincalla y ruido bruto en los oídos. Y nada más.

4. ¿Cómo puede resistir la poesía, y a qué resiste?

Tal vez estas dos cuestiones enlazadas se han contestado más arriba, implícita o explícitamente. La poesía, pues, resiste en esa voluntad de no ceder ante los lenguajes usurpadores, que lo empañan todo para devorarlo así, en una especie de ósmosis mortal. Resiste, pues, en su posibilidad de constituirse en intemporal aun tomando apariencias locales muchas veces. Virgilio, Rimbaud, Pessoa, Lorca, Eugénio de Andrade… se me ocurren de pronto esos nombres propios que exceden sin querer las costuras de los mundos que ofrecen en su poesía. Y es que la capacidad de resistencia del poema no está a menudo en la voluntad del autor; más bien en una autonomía y un alcance que nada tienen que ver con las expectativas de quien lo escribe; y esa es su verdad última.

Novos verbetes Ulyssei@s

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Três novos verbetes foram acrescentados à Ulyssei@s, a enciclopédia digital sobre Escritores e outros Criadores em Deslocação relativos a J. Rentes de Carvalho (da autoria de Ana Paula Coutinho), Amin Maalouf e Maria Velho da Costa (ambos assinados por Maria José Carneiro Dias).

Com esta nova adição, a Ulyssei@s passa a contar com 61 verbetes.

eLyra n.º 5: Poesia e Fim do Mundo

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elyra5Já se encontra em linha o novo número da eLyra, a revista electrónica da rede de pesquisa internacional LyraCompoetics, subordinado ao tema Poesia e Fim do Mundo.

O volume, organizado por Pedro Eiras e Paulo de Medeiros, conta com artigos de Rosa Maria Martelo, Francisco Saraiva Fino, Lígia Bernardino, Luca Argel e Paulo Jorge Augusto Matos; poemas de Alberto Santamaría, Chus Pato, Golgona Anghel e Manuel Gusmão; e ainda uma série fotográfica de Susana Paiva.

Cinefilia e Cinefobia no Modernismo Português (vias e desvios)

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Já se encontra disponível no ILC o volume 13 da colecção Estudos de Literatura Comparada: Cinefilia e Cinefobia no Modernismo Português (vias e desvios) de Joana Matos Frias.

O volume reúne um conjunto de ensaios onde se procura problematizar criticamente a complexidade das relações que alguns dos mais importantes autores do Modernismo português estabeleceram com o universo cinematográfico da época, com especial destaque para as consequências estruturantes que essa relação provocou no campo literário, em particular no poético. De Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, passando por Almada Negreiros, José Gomes Ferreira e José Régio (vias), procura-se fundamentar um equacionamento do Modernismo de alcance interartístico e internacional, com ramificações que se estendem ainda aos Modernismos brasileiro e espanhol (desvios).

Inquérito Poesia e Resistência (Brasil)

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A poesia é uma forma de resistência? Sempre, por definição? Ou apenas em determinados contextos – sociais, políticos, culturais? Como pode resistir a poesia e a quê?

Respondem os poetas (do Brasil).

Inquérito realizado por Célia Pedrosa e Ida Alves. Os depoimentos de António Cícero e Salgado Maranhão foram recolhidos por Luiz Fernando Valente.

Angela Melim (RS-Brasil, 1952)

Acho que pode haver poesia explicitamente política e de resistência, no sentido de afirmar ou defender um ideal libertário e humanista e essa poesia ser boa. E penso que pode haver resistência num sentido mais amplo, mas ainda político, na poesia, pelo fato de não se poder conformá-la à moldura do valor monetário, do prestígio, do poder, por mais que se tente.

Annita Malufe (RS-Brasil, 1975)

Gosto de pensar na poesia como um modo de resistência à morte. Não necessariamente à morte física/orgânica/biológica (embora o limite seja de fato ela), mas a todas as formas de morte que encontramos aqui mesmo, na nossa vida cotidiana, a todo momento. Não sei se são todas as poéticas que podem ser definidas assim, mas me interessa um tipo de poética que se define por isto, por este ato de resistir a tudo o que impeça o movimento das coisas, as mudanças, a passagem da vida, seu processo inesgotável, sem freio, sem regras. Penso em algo simples, às vezes um detalhe muito sutil. Pequenas coisas que, no dia-a-dia, nos desencorajam a mudar, a nos mexer, a criar, variar, desencaixar, destoar. Muitas vezes estamos tomados por um hábito, por um vício qualquer, ou por uma sensação de tédio, impotência, ou ainda por modelos que em qualquer instante se impõem como corretos e ideais. São pequenas mortes que nos acompanham. Penso nos poderes (mais ou menos instituídos), nas morais que daí decorrem, nas imposições de uns homens sobre outros, na ditadura da comunicação, do mercado… ou na simples presença obrigatória dos clichês, dos lugares comuns, em que vivemos imersos. São formas de paralisar, mortificar, fixar, instituir. E que não são exteriores apenas, mas que estão gravadas intimamente nos nossos corpos. E me parece que o “poético” é algo que se esquiva a isto tudo, que tenta criar saídas, novas vias, modos imprevistos, sensações inusitadas, resistindo à morte, à paralisia, à acomodação, à depressão. Uma espécie de olhar que não se acostuma, ou corpo que não se habitua com a vida, que está sempre meio desacomodado, surpreso, em estado de nascimento, como nos versos de Murilo Mendes: “Ainda não estamos habituados com o mundo./ Nascer é muito comprido.”.

António Cícero (RJ-Brasil, 1945)

Sim. A poesia pode ser considerada como uma forma de resistência à redução da apreensão humana do ser à dimensão puramente utilitária e instrumental.

Na vida utilitária, usamos nossa razão e, em particular, a razão crítica, para lidar, para conhecer e para controlar o mundo que nos cerca, de modo a fazê-lo satisfazer nossas necessidades ou caprichos. A palavra “crítica”, não nos esqueçamos, vem do grego kritikh/, que vem do verbo kri/nein, isto é, “separar”, “distinguir”, “decidir” etc. Criticar é separar ou distinguir.

Já que dar nomes às coisas, defini-las, classificá-las etc são modos de distingui-las umas das outras, essas atividades são manifestações da crítica. Assim, a razão crítica constitui uma condição da própria linguagem que, por sua vez, a potencializa. O pensamento teórico, por exemplo, distingue os conceitos de meio e fim, sujeito e objeto, substância e propriedades, matéria e forma, significado e significante, corpo e espírito etc.

A razão crítica efetua na prática semelhantes distinções, antes mesmo de tematizá-las ou de nomeá-las teoricamente. Elas são condições para que possamos conhecer e utilizar as coisas que há: para que possamos conhecê-las de modo a utilizá-las, e utilizá-las de modo a conhecê-las. Os próprios conceitos de conhecimento objetivo ou de objetividade do conhecimento, por exemplo, não seriam possíveis, caso a unidade do ser não houvesse sido cindida pela razão crítica em sujeito, por um lado, e objeto, por outro.

Mas a apreensão utilitária e instrumental do ser, embora absolutamente necessária, não é a única possível. É também possível uma apreensão estética do ser: uma disponibilidade tal às suas manifestações que as distinções utilitárias, instrumentais, estabelecidas pela razão crítica deixam, momentaneamente, de ter a última palavra. Evidentemente, porém, não seria possível alcançar tal apreensão através da simples renúncia à linguagem. Isso, caso fosse possível, não passaria de uma regressão ao inarticulado. A poesia não pode nem simplesmente recusar a linguagem nem simplesmente submeter-se à linguagem prática ou cognitiva. Não lhe seria possível nem desejável apagar a luz da razão crítica.

O que a poesia pode fazer e efetivamente faz é usar a linguagem de um modo que, do ponto de vista da linguagem prática ou cognitiva aparece como perverso, pois se recusa, por exemplo, a aceitar a discernibilidade entre significante e significado, que constitui uma condição necessária para usar as palavras como signos, e as toma como coisas concretas.

De maneira geral, a fruição da poesia exige mais tempo livre do que a fruição de outros gêneros artísticos. Não precisamos nos concentrar numa canção ou numa pintura ou numa escultura ou na arquitetura de um prédio para que elas nos deleitem. Podemos apreciá-las en passant. Não é assim com um poema escrito. Quem lê um poema como se fosse um artigo de jornal, por exemplo, não é capaz de fruí-lo. Para apreciar um poema é necessário dedicar-lhe tempo. Numa época em que todos se queixam de falta de tempo, é evidente que sobram argumentos para aqueles que pretendem não haver mais, nos tempos modernos, lugar para a poesia: para aqueles que afirmam que a poesia ficou para trás; que foi superada pelos joguinhos eletrônicos, por exemplo.

Pois bem, penso o contrário. É exatamente nesta época de aceleração desembestada que a poesia mais se faz desejável. Com efeito, se praticamente não temos mais tempo livre, é porque praticamente todo o nosso tempo – mesmo aquele que se pretende livre – está preso. Preso a quê? À apreensão utilitária e instrumental do ser. Não estamos livres quase nunca porque nos encontramos numa cadeia utilitária em que o sentido de todas as coisas e pessoas que se encontram no mundo, o sentido inclusive de nós mesmos, é sermos instrumentais para outras coisas e pessoas.

Nada e ninguém jamais valem por si, mas apenas como um meio para outra coisa ou pessoa que, por sua vez, também funciona como meio para ainda outra coisa ou pessoa, e assim ad infinitum. Pode-se dizer que participamos de uma espécie de linha de montagem em moto contínuo e vicioso, na qual se enquadram as próprias “diversões” que se nos apresentam imediatamente.

Ora, precisamente a concentração que a poesia exige de nós representa o acesso a outra dimensão, a outro espaço-tempo, não só desvinculado dessa linha de montagem utilitária, mas incompatível com ela. A rigor, o poema não serve para nada. Por isso, ele esbanja o tempo do leitor ideal, que se deleita a flanar pelas linhas dos poemas que mereçam uma leitura ao mesmo tempo vagarosa e ligeira, reflexiva e intuitiva, auscultativa e conotativa, prospectiva e retrospectiva, linear e não linear, imanente e transcendente, imaginativa e precisa, intelectual e sensual, ingênua e informada. É nesse sentido que a poesia é uma forma de resistência.

Armando Freitas Filho (RJ-Brasil, 1940)

Entendo que a poesia é escrita, principalmente, nas entrelinhas do discurso geral. A boa poesia, então, vem sempre cifrada exigindo releituras. Por que cifrada, eu mesmo me pergunto? A resposta que tenho à mão, mais especulativa do que afirmativa, é que o poema moderno, objeto complexo, é fruto de vários cruzamentos, e, constitutivamente, por isso mesmo, é mais “biológico”, transgênico, do que lógico; não é, enfim, um gênero puro e simples. O verso branco sujou o papel para sempre. Ela só resiste, mesmo que para poucos, por causa dessa sua natureza intrínseca, adaptada ao ar rarefeito da recepção, que tem sensibilidade parecida, por ser um instrumento de ponta da linguagem, como um Fórmula 1 que abre o caminho para veículos, viagens, velocidades e ruas mais rotineiras.

Chacal (RJ-Brasil, 1951)

Sou de uma geração utópica. Nasci em 1951. Vivi o movimento estudantil e o movimento hippie de 17 a 21 anos. Nunca consegui me desvencilhar dessa mania de mudar o mundo. Talvez por me sentir desconfortável na camisa de força da gramática e querer reinventar o jeito de se expressar e se comunicar com as pessoas, talvez por querer tomar pra si a luta contra as injustiças do mundo. Sei que minha vida toda se pautou por essa tentativa de fazer as coisas do jeito que acho melhor. Isso começou com a utilização de meios artesanais – mimiógrafo – para publicar meus poemas, depois distribuídos de mão em mão. O que era um projeto para ter autonomia na realização e distribuição de um trabalho, acabou por virar exemplo de independência do processo tradicional do livro. O mundo institucional nunca me atraiu. Creio que ele é o responsável por esse mundo que vivemos. Mesmo as que mais me encantam, como as universidades, mantenho um pé atrás. Mas respondendo mais objetivamente se a poesia é uma forma de resistência, acredito que sim. O fato do poeta recriar a linguagem, torna-o um exiled on main street, uma pessoa para quem as regras e os cânones devem estar sempre sendo questionados e ultrapassados. E isso, é claro, contamina a forma de ver, pensar e agir no mundo. Em contextos muito conservadores e repressivos, essa característica básica do poeta se exacerba, tornando o poeta um combatente na linha de frente contra ditaduras e tiranias diversas. No mundo mercantilizado que vivemos, o poeta deve estar focado na luta desesperada em busca do humano em todas as relações. E talvez a melhor arma seja justamente a poesia, a música, a dança, as artes em geral, que transtornam, subvertem a lógica do capital e do consumo desenfreado e recola o ser humano diante das suas emoções profundas e seu básico instinto.

Claudio Daniel (SP-Brasil, 1962)

Vivemos, sem dúvida, num tempo cruel, tempo de venenos e serpentes. O que pode fazer o poeta nesse trágico labirinto de esfinges e sibilas que recitam falsos enigmas e premonições do apocalipse? O poeta, para mim, é um criador de realidades; pelas relações inusitadas entre as palavras, ele articula novas formas de pensamento e, logo, novos modelos de mundo. Esse é o potencial subversivo da linguagem, é a sua ação política, digamos assim. O artista questiona as formas viciadas de viver, sentir e pensar, reflete criticamente sobre a lógica do poder estabelecido, e não se pode cumprir esta missão através de formas estéticas convencionais. É preciso criar sempre novos instrumentos de guerrilha cultural, pois não é possível questionar estruturas sociais sem colocar em xeque também o mecanismo do pensamento e a linguagem que são produzidos por essas estruturas. Quando você utiliza formas de escritura tradicionais, ainda que abordando temas “sociais”, não estará fazendo nada além de reproduzir os modelos de idéias vigentes na sociedade. Ao romper com esses padrões e propor outros modos de comunicar idéias e sensações, o poeta não está conduzindo uma insubordinação aparente, mas uma transformação profunda, que produz novos conteúdos, numa rebelião contra o banal imediato e o lugar-comum. Este é o papel da renovação estética: ser também uma ruptura com padrões rotineiros de consciência. Claro, a poesia, por si só, não irá transformar o mundo. Isto cabe à esfera da ação política, e portanto à sociedade organizada em partidos políticos, sindicatos, ONGs e outros agentes sociais.

Donizete Galvão (MG-Brasil, 1955)

ESCUTAR O MUNDO

Para os poetas que, como eu, não são críticos, falar de sua poesia pode parecer um exercício de narcisismo e pretensão. Parece-me que tudo o que tenho a dizer está mais bem dito no corpo dos próprios poemas. Claro que existe uma intensa reflexão anterior, mas que não ganha a clareza que exige o texto escrito. Ate hoje acho que o autor que melhor expôs sua poética de forma breve, objetiva e despretensiosa foi Francis Ponge, em Métodos. Recorro a ele sempre que me assaltam as dúvidas sobre porque escrevo. Há um ditado que diz que água benta e pretensão cada um usa o quanto quer. Temo que explicações de poemas e de suas chaves resultem em banalização e vaidade. Por isso, vou ficar nas linhas gerais de como entendo a poesia e peço que me perdoem por algumas citações, mas é que me valho do pensamento alheio quando o meu está capenga.

Para começar, sempre persegui o real na poesia. “Um poema foi sempre um círculo traçado à roda de uma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso”, diz Sophia de Mello Breyner Andresen em um dos seus depoimentos. Minha poesia está fincada no chão de Minas, fala da terra, da pedra, dos bichos, das ferramentas, dos restolhos, daquilo que não é poético. Falar das coisas é também buscar para o homem um lugar de justiça. Penso na poesia como uma maneira de desalienar o homem e colocá-lo em outra relação com o mundo que o cerca e religá-lo com seu sentimento interior. Nesse sentido, a poesia ganha sim um significado de resistência.

Estar sempre com os olhos muito atentos ao mundo real, às coisas do quotidiano, tem também suas desvantagens. Reconheço que minha poesia é de voz baixa, grave, pouco afeita aos altos vôos de imaginação, às metáforas em brasa e ao tom elevado. Trata-se de uma poesia em tom menor, que para muitos pode parecer, com razão, realista e pouco imaginativa.

Como todo poeta, a atenção é fundamental para que surja o poema. Li certa vez um trecho que citava Walter Benjamim, dizendo que a “atenção é a forma natural de oração”. Depois, soube que, na verdade, trata-se de um verso de Malebranche. Com outras palavras, Simone Weil diz que a atenção absoluta é uma forma de prece. Estar atento às coisas, vê-las com o mesmo olho inaugural da criança, penso ser uma das qualidades do poeta. É dessa atenção absoluta que ele “redescobre” o sentido primordial das coisas. Imagino a poesia como uma educação continuada dos sentimentos. Para isso, é preciso manter a perplexidade, a capacidade de espanto. Tudo se mostra ao poeta com outro relevo de tal forma que ele se emociona por descobrir essa fala vinda do “mundo mudo.”

Para mim, o poeta também trabalha em um mundo de incertezas, num tatear no escuro. Quando a luz de Apolo chega e fulgura, ele deve estar atento para tentar captar isso. Só que essa fulguração, esse alumbramento é brevíssimo. A poesia está sempre escapando desse círculo onde queremos fixá-la. Ficamos com a sensação de que a aragem dela passou por nós, mas que ficamos com uns fiapos e fragmentos. Não há técnica que dê conta desse contínuo tatear. A cada poema se ergue uma técnica que se desfaz com ele. Nada disso será útil em um próximo poema. Sempre houve essa tentação de desvendar o fazer, de produzir a frio aquilo que lhe foi dado ou emergiu no meio à escuridão. Para mim, essa tentativa de dominar racionalmente toda a técnica de construção do poema chega a um impasse. É uma longa discussão que não cabe aqui, mas lembro os dois ensaios de E.M Cioran e María Zambrano sobre a poesia de Paul Valéry.

Portanto, não creio na poesia como um artesanato em que o poeta, a cada poema, aperfeiçoando seu domínio e produzi artefatos cada vez mais perfeitos. Não acredito que, mesmo os poetas mais construtivistas, escrevam um poema a partir de um planejamento rigoroso. Alguma faísca deve surgir, alguma coisa deve deflagrar o poema. Claro que a partir daí começa um longo trabalho de escrever e rescrever, cortar e modificar. Acredito que os poemas devem ficar um bom tempo “chocando” para depois serem relidos e refeitos, se for o caso. Ainda acredito que o poema começa no inconsciente, que germina ali e demora a se externar.

Eu acredito no poder evocatório das palavras. Trabalho dentro de uma mitologia particular, familiar ou da minha região. Ainda estou ligado à memória como o grande poço aonde o poeta vem sempre beber. Vejo que a poesia ainda tem um poder de consagração de pessoas, coisas, paisagens. Eu não gosto que as coisas passem, virem pó, e fiquem sem registo. Eu quero registrar todo esse mundo minúsculo, frágil, em vias de desaparecer e o embate do homem com a metrópole. De certa forma, com todo o pessimismo e melancolia que ponho em meus versos, ainda creio no poder expressivo da palavra. Talvez por ingenuidade, não cheguei ao ponto do negativismo absoluto que vê a inutilidade de todos os esforços. A leitura de Ascese de Netos Kazantzákis, que o querido José Paulo Paes traduziu, me marcou profundamente. Identifiquei-me com aquele niilismo heróico, que mesmo desacreditando, não pode deixar de agir. Reconheço que, como todos os poetas contemporâneos, sou tomado por grandes dúvidas sobre o lugar da poesia. Entretanto, luto contra a minha tendência melancólica de entregar os pontos. A ação continua sendo necessária, embora sabendo que o mundo está desencantado. O poeta deve continuar atento. A poesia é a liberdade. E. portanto, tem seu grau de gratuidade.

Ela chega a um número reduzido de pessoas. Perdeu muito da sua ressonância. Acredito que ela ainda seja necessária para restaurar o vigor da língua, renová-la ou expandi-la. Para aqueles que têm uma vida interior, a poesia ainda existe ou resiste. Mesmo assim corre o risco de se tornar um exercício esotérico, praticado por um grupo reduzido.

Edmilson de Almeida Pereira (MG-Brasil, 1963)

Penso a poesia como um fio, dentre outros, que constituem o tecido social. Por isso, ao mesmo tempo em que ela se exprime de maneira autônoma através dos elementos formais que a diferenciam de outras modalidades de discurso, se entrelaça com a sociedade e revela o quanto há de histórico e concreto em seus próprios elementos formais. Sendo assim, por um lado, a resistência pode ser vista como algo inerente à poesia, pois ela se articula no interior dos sistemas de linguagem, propondo representações que transcendem as funções pragmáticas desses sistemas. Nesse caso, o desejo de desmascarar as armadilhas da linguagem se converte em força vital da experiência poética. Por outro lado, a historicidade da poesia (que nos recorda a inevitável, mas, por vezes esquecida, historicidade do poeta) pode transformá-la em resposta a contextos específicos. A resistência, nessa condição, vem a ser o prolongamento das expectativas compartilhadas entre o poeta e o grupo com o qual se identifica. Em geral, essas expectativas se nutrem de certas tendências ideológicas, cujo rastreamento crítico demonstra, em algumas situações, a frutífera dimensão política da poesia e, lamentavelmente, em outras, a perda de rumos da poesia, quando esta é associada a práticas políticas degradantes. Em face desse jogo, permeado de tensões estéticas e ideológicas, um dos grandes apelos da poesia está nas escolhas a serem feitas pelo poeta. Pessoalmente, aposto no teor utópico da poesia. Vejo-a como resistência quando se faz luta contra o abastardamento e a banalização da linguagem e, por extensão, das formas de pensar e de agir. Pensamento, linguagem e ação são elementos que se entrelaçam mutuamente. Não permitir que essa aliança se esfacele, tendo a poesia como um canal de reflexão e partilha afetiva, acredito, é um modo de reiterarmos nossa densidade de sujeitos históricos que, explicitamente ou não, aspiram a alguma margem de permanência.

Fabio Weintraub (SP-Brasil, 1967)

A primeira ideia que me ocorre diante da pergunta é o célebre ensaio de Alfredo Bosi, “Poesia-resistência”, publicado em O ser e o tempo da poesia, de 1977. Nele, o crítico se debruça sobre a dimensão estética do conceito de resistência (originário do campo ético), examinando, por meio de diferentes exemplos, de que maneira se realiza o potencial contraideológico da poesia naqueles momentos em que a invenção se convencionaliza e a palavra da tribo pede um sentido mais puro, que não sirva à justificação do mal presente, um sentido que abra fendas no pensamento hegemônico, totalitário e pseudototalizante.

Bosi dá destaque às formas estranhas assumidas pela poesia moderna diante da consolidação da ideologia burguesa (o “autismo altivo” dos símbolos fechados, a palavra-esgar, o grito, o silêncio), formas que, segundo ele, se ligariam menos ao “ser” da poesia que à possibilidade de sua existência em uma configuração histórica determinada.

Dessa perspectiva, ele distingue diferentes faces da resistência: a mítica, voltada para a ressacralização da memória coletiva, para o desrecalque da infância; a lírica, em que a interioridade, a melodia dos afetos é mobilizada como defesa contra a reificação; a metalinguística, de cunho satírico ou paródico, antídoto contra os automatismos da língua e do gosto; a profética, em chave utópica ou apocalíptica, que põe em xeque as coordenadas do presente pela imaginação do futuro ou de sua supressão.

O referido ensaio oferece indicações de sobra para reconhecer que a poesia não é, por definição, de modo atemporal, uma forma de resistência à ideologia, ao estilo e à mentalidade dominantes, às rotinas sociais, ao status quo. Mesmo em momentos de crise do gosto e dos padrões de desempenho formal, quando o estilo se divorcia da práxis e se apresenta como resíduo, disfarce, impostura, mesmo quando cresce a distância entre as expectativas do público e as necessidades expressivas do poeta, o dissenso introduzido por sua palavra pode desempenhar papel ambíguo, combinando vetores ideológicos e contraideológicos, contentando-se às vezes com uma crítica acomodatícia ou, no extremo oposto, com uma negatividade aporética.

Tudo isso falando em termos muitíssimo abstratos e genéricos. No entanto, no caso da poesia contemporânea, talvez seja possível especificar um pouco mais o que entendo por resistência. Por exemplo, diante do desafio de figurar as tensões inerentes à experiência urbana nas megalópoles brasileiras, marcadas pela violência, pela desigualdade socioeconômica, pela privatização/militarização dos espaços públicos (como as zonas centrais “decadentes”, ocupadas pela população de baixa renda e cobiçadas por especuladores imobiliários), a poesia que se ocupa desses fenômenos constitui alguma espécie de resistência simbólica? Ao figurar a violência ela propõe algum tipo de mediação subjetiva ou se limita a incluir a violência, a refleti-la sem sobre ela refletir? Há espetacularização da catástrofe e da abjeção, em sintonia com o voyeurismo pornocapitalista dos reality shows? Ou representação indireta de angústias socialmente produzidas? O poeta paira acima do desastre, demiurgo intocado, ou é levado de roldão, ferido no coração da frase?

Penso que tais questões podem ser formuladas até em relação a obras infensas a temas “sociais”, pois a resistência depende menos do realismo temático que da descoberta de soluções formais que não sejam arbitrárias, ditadas de antemão pelo padrão de gosto dominante, decorrendo antes das exigências que a matéria dos versos, seja ela qual for, impõe à sensibilidade do poeta.

Por fim, creio que a resistência depende também de uma relação com o legado da tradição poética que não seja pacificada e consumista, que não “museologize” o passado nem se sirva dele de modo combinatório, como se não fosse necessário distinguir o vivo do obsoleto, como se os tesouros da tradição não decorressem de uma longa conquista e pudessem ser herdados (pilhados?) sem repetidos esforços de atualização. E aqui me sirvo da ideia de retradicionalização frívola proposta por Iumna Simon em artigos como “Considerações sobre a poesia brasileira em fim de século” (Novos Estudos, n˚ 55. São Paulo: CEBRAP, novembro de 1999, p. 27-36) e “Condenados à tradição” (Piauí, n˚ 61. Ano 6, outubro 2011. Rio de Janeiro: Editora Alvinegra, 2011, p. 83).

Por fim, no que concerne ao meu trabalho como poeta, penso que, principalmente a partir de Novo endereço (2002) e Baque (2007), o interesse pela “intimidade dos párias” (pela vida dos moradores de rua, doidos, malandros, desempregados…) e a exploração do universo da doença e da desfiguração podem indicar certo “ideal” de resistência aos discursos antiurbanos, higienistas (alimentados pelo pânico da heterogeneidade social), à demonização ou medicalização da tristeza (com a correspondente “despolitização” da felicidade), à eugenia de mercado, à criminalização da miséria etc. No entanto, penso que esse ideal, que nem sempre se realiza a contento na luta vã dos poemas, não se limita à obsessão por determinados temas e motivos, mas implica também a busca de certa instabilidade no processo compositivo. Instabilidade que decorre da mistura entre diferentes registros de linguagem (em que o coloquial se abre às vezes a expressões solenes ou fora de uso e a gírias específicas), baralhando a origem da enunciação; do contraponto entre lirismo e narratividade; da desmontagem de certos elementos proverbiais; do uso rebaixado de imagens de cunho mítico ou religioso, entre outras coisas.

Esse desejo de “instabilizar” a escrita, de engripar o discurso e forçar a percepção para fora do prumo me parece fundamental em face dos amortecedores e lubrificantes de que se serve o discurso ideológico.

Às vezes até, quando dizem que faço mais crônica que poesia, que meus versos não passam de “prosa recortada”, que, ao mimetizar falas alheias com mistura de registros, peco por excesso de artificialidade…, fico a pensar se, na base da crítica, não há padrões de gosto cristalizados ou apriorismos judicativos quanto ao que sejam os limites do verso, as fronteiras de um gênero ou os usos da fala (nesse último caso, sem levar em conta as liberdades linguísticas possíveis em um trabalho de caráter “não documental”). Claro que tal pensamento pode não passar de uma forma de autoengano, um jeito de converter em vantagem certas deficiências ou impasses de formalização.

A saída, sempre provisória, é seguir explorando novas formas de desequilíbrio sem trapacear com a gravidade nem se orgulhar da queda.

Glauco Mattoso (SP-Brasil, 1951)

IRRESISTIVEL RESISTENCIA [soneto #4994]

Parece recorrente esta questão:
Resiste a poesia? Resistente
seria a tudo e todos? Ou somente
alguns poetas podem ser, ou são?

Respondo por um cego que a visão
perdeu e revoltou-se: o bardo sente
a dor mais dolorosa, o sol mais quente,
o amor mais amoroso e o chão mais chão.

Si amar é resistir, resiste a lyra.
Si odeio quem me opprime, ella resiste.
Si anseio ver, resiste quem delira.

Em summa, resistente por ser triste,
ou mesmo quando alegre, o bardo tira
de lettra a dor, da lagryma faz chiste.

[Attenção! Quaesquer textos assignados por Glauco Mattoso estarão em desaccordo com a orthographia official, pois o auctor adoptou o systema etymologico vigente desde a epocha classica até a decada de 1940.]

Guilherme Zarvos (SP-Brasil, 1957)

Por definição poesia é uma forma de Existência
Do estar sendo
A transmissão do saber, posteriormente o
Olhar
Faz da atividade simbólica oral da poesia
Verdade
Dos Gregos
Caminhar para
Poesia
De
Resistência

E, recentemente, Lorca, antes
Edgard
E no Poema Sujo – Gullar
Em Hamlet
Shaks in the pair

Poesia e resistência ou Poesia e oráculo
É um processo de denominação do Ocidente
Dialético e com consciência da
Desigualdade e das injustiças econômicas e
Preconceito SS SS SS SS SS

Há de ter resistência como Homem
Como Poeta Existência
O Clamor do Poeta ou a Fala de sua
Gente fruirá como frui tudo em
Prana e na Epifania. Inclusive a Beleza e o

    H OO R R

Horácio Costa (SP–Brasil, 1954)

A poesia é uma forma de resistência? Sempre, por definição?

A poesia é hoje uma forma de resistência. Nem sempre foi assim. Claro, há a expulsão platônica da república. Mas: Camões dedicou Os Lusíadas a um monarca que sequer leu o poema, mas lhe designou uma tença, e Tasso se apaixonou por uma aristocrata que achava, com razão, que ele era um pazzo – entre gênio e bufão. Sóror Juana compunha para uma corte vicerreinal na qual não entravam os seus conterrâneos, quase; ainda assim, teve que abjurar da escritura profana. Então, nem sempre é um índice de resistência. Entretando, na era de predomínio do mercado, na qual o discurso socialmente produzido de maior influência é o economês, e subsidiariamente o galimatias do direito, que no mais das vezes apenas o reveste de pedigree, pois, a palavra poética ergue-se em bastião. Resta saber se necessariamente em divergência a isso tudo que acabo de nomear, ou se apenas em diversidade. Porque tenho a convicção de que esse ser-bastião não necessita tematizar-se na escritura poética e penso que, para lá do tema, esse teor se afirma pelo falar fora dos limites preconizados pela discursália global da era dos mercados. Estamos tratando de contra-discurso devido a sua divergência expressa ou a sua diversidade constitutiva; portanto, seja como for, estamos falando de resistência.

Ou apenas em determinados contextos – sociais, políticos, culturais? Como pode resistir a poesia e a quê?

A poesia é filha da história, como tudo. O enunciado parece simples, mas não é: não creio em um quid poético fora do tempo histórico porque não creio que a palavra poética tenha nada que ver com revelação nem com religião, isto é, com nada que se reclama para lá da história, no limbo da escatologia. O contra-discurso tem um estatuto interessante: procura perfurar o discurso dominante mas, devido a sua diversidade, não se lhe pode oferecer como modelo de reposição. Aponta sucessivamente para alteridades que desconstroem a centralidade desse logos global. Por isso, me parece que é com base a essa não normativização que tem o seu futuro garantido. Veja, a explosão do cânone literário, entre outras coisas, reforça a situação de desafio tácito a hegemonias discursivas que acompanha o falar poético no limiar da era da grande reprodução de informação, na qual nos encontramos.

Um adendo de professor universitário e de poeta que não cresceu nesse universo: fala-se muito do descenso da qualidade do texto poético em nossos dias, da improvisação, da má utilização da liberdade na rede. Sucede que a maior parte dos jovens que publicam poesia no ciberespeaço são isso mesmo: jovens. Os poetas mais estabelecidos se sentem menos familiarizados com tais esferas. Na medida em que esses jovens envelhecerem, e entre outros tópicos, passarem a aperceber da onipresença da história, seu texto também depurará. Sou otimista e creio que a poesia apenas está começando a dar o seu recado em nosso admerdável mundo nuevo. Sua resiliência também é um fato da história, em todos os quadrantes. A poesia é o trilobita do falar.

Leonardo Fróes (RG-Brasil, 1941)

SENSACIONISTA

Se fosse a sua vocação resistia é inútil lutar contra a natureza mas tinha horas de profundo desânimo a massa falhava às vezes não conseguia dar forma tinha de resistir às marés aos elefantes mesmo cogitações internas sobretudo as escureciam o teto resistir aos chamados à prática verbal dos duelos tinha de alimentar seus dedos de barro como tinha de comer papel resistir sem ofício sem pauta sem vitamina e sem camisa no vento tocando flauta ficar moldando sentimentos sem opinião confirmada sem garantia mutável como as folhas resistir às pirâmides às variações do corpo no tegumento dos cogumelos bebidos fabricar bolsões de ar sem saber viver assim vocação só tem de cumprir sair de manso do ardor das confrarias que torcem armam confabulam planejam tomam decisões importantes resistir à importância à catalogação das espécies à nomenclatura das coisas perdidamente desarticulado e confuso mas feliz perdendo pé perdendo a memória perdendo os primeiros dentes mas persistentemente tocando a mesma flauta invisível galopando entre sons imaginários árvores cabeludas vocação de fazer o nada com sua cara de leoa parda ficar parado batucando onde não existe suporte suportar as mordidas os beliscões na vaidade a cruz dos outros o leque de opções as bobagens continuar moldando o tato tateando tentando resistir ao desânimo ao joelho ardendo à coceira recolher-se cantando dinamitando carregado de alegria tristeza todas as variações impossíveis todos os xodós e quiçás.

(Do livro Argumentos invisíveis. Rio: Rocco, 1995)

Luis Maffei (BSB–Brasil, 1974)

A primeira resistência que a poesia oferece é à própria linguagem, material autoritário, difícil, desafiador. Para existir enquanto tal, a poesia precisa debater-se dentro do composto que a possibilita, e, estando sempre nele, dele tirar a cabeça, o resto do corpo, os membros, e nascer como estranha criança, suja, titubeante.

Se já nasce em estado inflexível, a poesia não é dada a obediências – ao bom gosto, por exemplo, detesta a poesia conceder, assim como ao mau, pois o gosto, se fora do paladar, não lha interessa. A poesia, ao menos o que entendo como tal, é, por si só, uma ética, posto que acusa o homem ao homem, põe diante de nossos olhos a extrema defasagem de nossa humanidade e a radical possibilidade de sentir que reside no estético. A poesia resiste até a quem a ama – enquanto a música, por exemplo, se impõe a nossos ouvidos para deleite ou fúria, a poesia, discreta, espera pelo leitor e resiste a ele, pois a ele só se dá a custa de muito trabalho. Mesmo esse doar-se é pleno apenas em sua precária instabilidade, ou partícipe de um devir a que chegamos com atraso.

Com poesia, aqui, estou pensando em poemas, e posso usar um termo que Jean-Luc Nancy, em Resistência da poesia, usou para o poético em geral: “acesso”. O pensador cogita a pluralidade, o que me leva a suspeitar de que a poesia resiste ao unívoco, não ao singular.

A poesia é resistente até mesmo em sentido pouco inusual: o de quase inquebrantabilidade. Resiste a poesia como resiste um resistente objeto, um copo, por exemplo – “Não toques nos objectos imediatos./ A harmonia queima”, escreveu Herberto Helder, investindo na loucura que há, poeticamente, nas coisas –, ou um piso. Se a poesia é o contrário do copo e do piso, pois não serve a bebericagens ou pisões, é também de beber e de andar; além do mais, as palavras “copo” e “piso” encontram-se à violenta disposição do poético. É a poesia inquebrável? Não, pois nada o é, menos ainda as coisas delicadas. Mas o que pode quebrar um poema antigo que dura muitos séculos a mais que uma peça de mesa duralex?

A poesia resiste, a poesia resiste a. Ruy Belo disse, em texto intitulado “Breve programa para uma iniciação ao canto”, prefácio a Transporte no tempo: “A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis, desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação, até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida.”. Às ditaduras resiste a poesia, também a certas ditaduras brancas. Hoje, a poesia resiste à velocidade feita tolice e irreflexão, a supermercados e a fofuras. Resiste a poesia brasileira a certa poesia brasileira que resiste, com muitos sorrisos e pouco projeto, a ser poesia.

Marcos Siscar (SP-Brasil, 1964)

DO IRRESISTÍVEL

A poesia não é necessariamente uma forma de resistência, sobretudo se a pensamos em termos genéricos: “sociais, políticos, culturais”. Ocorre que ela se apresente, em determinadas circunstâncias, ao contrário, como uma forma de adesão ou, alternativamente, como uma forma de sublimação. Ela pode ser, evidentemente, como foi e tem sido, também uma forma de resistência social, política ou cultural, em diversos casos, muitos dos quais – sobretudo em contextos autoritários – envolveram e continuam envolvendo mortes, desaparecimentos, exílios voluntários ou compulsórios.

Independentemente disso, é interessante lembrar que a resistência, entendida como elemento característico do poético, já foi bastante requisitada por críticos e por poetas, inclusive de modo menos imediatamente pragmático, menos imediatamente instrumental ou “político”. Não nos faltam, por exemplo, propostas para que entendamos a resistência poética pela via da nomeação inaugural, da utopia, ou então pela “ação restrita”, pela ênfase em outras modalidades de uso da linguagem, graças até mesmo a negação do político. Concluo que a própria insistência do tema “poesia e resistência” é relevante para se pensar o assunto. Não tenho dúvidas de que é. Mas, se o empenho crítico em relação ao tema prova que há um interesse em ver a poesia associada ao valor de oposição, nem por isso se pode deixar de constatar que boa parte daquilo que chamamos “modernidade” poética (ou seja, aquilo que somos, que gostaríamos de ser ou deixar de ser), historicamente, se assenta sobre uma postura resistente, retesada, tensa, qualquer que seja seu conteúdo; isto é, a poesia “resiste”, nesse sentido, qualquer que seja a interpretação que ela proponha do jogo de forças do qual participa.

Em outras palavras, se é verdade que a poesia se apresenta frequentemente no contra-fluxo ou na contramão, também é relevante notar que o faz colocando-se em situação instável, incômoda: nostálgica ou combatente, revoltosa; fragmentária ou inconclusiva; irônica mas também desejosa. O que há de incomodamente tenso na ideia de resistência tem a ver, no fundo, menos com a natureza da circunstância do que com o modo pelo qual a poesia se inscreve nessa circunstância, ou seja, em seu tempo e em seu lugar. No fundo, o que há de mais fundamental na ideia de circunstância, para a poesia, não é algo que se apresente como dado estável do ponto de vista histórico, linguístico, etc. Não é um ponto fixo no tabuleiro de forças já dadas. Por isso (complicação necessária para não reduzir muito o que entendemos como poesia), a tensão desconfortável ou atrativa da poesia está relacionada com seu ter lugar, com o modo pelo qual ela tem lugar.

Para responder a um questionamento sobre a relação entre poesia e resistência, eu falaria de tensão e de acontecimento. O tom (tonus, tensão) do poema é o modo ou a atitude pela qual este se coloca em relação (contraída ou elástica) com sua circunstância. O poema não está ancorado ou fincado na circunstância; também não se notabiliza por nadar contra a correnteza, simplesmente: ele paira sobre o naufrágio (retomando uma figura poeticamente bastante explorada) e, ao mesmo tempo, o nomeia, vórtice ao qual ele próprio se destina. Dizer que a poesia é de circunstância, nesse sentido, é dizer também que ela elabora a contração e a elasticidade no modo de uma instauração conflituosa, que é a de seu acontecimento. A datação ou a prática toponímica características da poesia não deixam de ser evidências dessa sedução ou desse desconforto na definição de seu tempo e lugar. O que está em jogo na datação ou na toponimía é o desejo de haver o tempo e de haver o lugar.

Por isso, se há alguma coisa que possamos chamar de resistência poética, essa resistência se manifestaria na relação tensa com a homogeneidade dos fatos e dos lugares, ou seja, com a estabilidade gozosa do mesmo (ou da mesmidade). Antes de ser uma oposição à autoridade histórica empírica – o que não deixa de ser, evidentemente – ela se manifesta no desconforto em relação ao controle do sentido. Ainda que as situações de restrição política sejam infelizmente muito comuns, não se pode deixar de expandir a restrição da liberdade a todos os fenômenos que impõem uma homonegeização (de fala, de expressão, de atitude, de destinação). Não é difícil perceber a maneira como, mesmo em “plena democracia”, muitos dispositivos culturais (publicidade, mercado, prêmios, políticas de educação ou de cultura), sob pretexto, por exemplo, de atenderem aos interesses da “maioria”, acabam servindo justamente a esse controle do acontecimento, a essa imposição de umtempo e de umlugar estáveis e homogêneos à experiência artística.

Reagir à homogeneidade seria uma forma de “resistência” política? Talvez. Mas é provável que a palavra já esteja muito gasta (talvez resista muito pouco, não seja propriamente aderente, escape-lhe a rugosidade necessária ao sentido ou ao efeito); talvez continue trazendo consigo resíduos não necessariamente assimiláveis do ponto de vista da crítica do homogêneo – a estabilidade do sujeito, a ideia de uma força exercida contra outra força determinada; além da própria determinação do poético no âmbito formal de um gênero.

Que palavra nos arriscaríamos a colocar no lugar da palavra “resistência”? Outras já foram aventadas. Por exemplo, resistir é também suportar. Aquilo que suporta, que tolera, que suporta uma carga, que carrega essa carga (a carga do sentido, a carga do dever), é também algo que se comunica com o “suporte” (por exemplo, da linguagem), com a tolerância do suporte, com a capacidade de aceitar ou de receber o acontecimento.

Há várias maneiras de reelaborar a resistência. Entretanto, no contexto da questão que me é endereçada, preferirei explorar outro aspecto – complementar – do mesmo problema. Preferirei dizer que as resistências da poesia e as resistências à poesia são parte necessária de um pensamento sobre a resistência como poesia.

Tenho tentado entender as resistências não simplesmente como função ou como estratégia, mas como ponto de partida da poesia; não apenas o modo como esta reage a coibições, mas também o modo como é capaz de suportar esse jogo de forças da resistência como parte de seu processo (criativo ou histórico). A resistência, nesse sentido, seria algo a ser levado em conta desde os elementos biográficos até os elementos históricos que fazem parte do acontecimento poético. É da resistência ao sentido que nasce o sentido (por exemplo, o sentido da resistência). Assim, a resistência não deixa de dizer respeito diretamente e imediatamente ao poético (como modo do conhecimento) e à poesia (como gênero historicamente situável), mas especificamente como parte daquilo que ela própria suporta e reelabora como verdade da sua situação.

Para encurtar, proponho associar a poesia ao irresistível. É o que me parece estar em jogo, quando se pensa a resistência como ponto de partida: tanto a resistência da poesia quanto a resistência à poesia. Explico.

Em primeiro lugar, a poesia é uma forma de suportar o drama do apagamento do irresistível. Dizendo de outro modo (para torná-lo mais imediata aos nossos ouvidos), poesia é aquilo que explicita o drama da resistência, o drama do descompasso entre o que decidimos e o que queremos, entre o que julgamos e o que podemos ver.

Poesia é o suporte que resiste ao apagamento daquilo que é irresistível. Ela está atenta para as implicações daquilo que é da ordem da “intuição”, da “inspiração”, do impulso, do deslumbre, da surpresa da adesão, da explicitação do pressuposto, das frases vindas de “lugar algum”, da sedução e do terror sublimes, de tudo aquilo que se apresenta como tal, antes mesmo de qualquer decisão consciente ou estratégica. Resistir ao apagamento desses irresistíveis me parece ser uma tarefa da poesia. O irresistível não deve ser denunciado nem louvado. Trata-se apenas de constatar que ele é um elemento necessário para o pensamento da resistência, qualquer que seja sua modalidade. E isso se vê em poesia, como poesia.

Ou seja: explicitar aquilo que não nos permite resistir é um aspecto importante do modo como a poesia trabalha com nosso interesse em resistir. Isso não anula sua força ou seu interesse, digamos, político. Ao contrário, estabelece uma interpretação do político como algo que deve ser entendido na relação com o irresistível, sem prejuízo do voluntarismo militante. O que chamo de discurso da “crise”, em poesia, tem sido, historicamente, um modo de pensar o irresistível, aquilo que emperra o raciocínio do tempo e do lugar homogêneo. A “prosa” não deixa de ser um dos nomes do irresistível para a poesia, hoje, aquilo por meio do qual ela se opõe a si própria.

Em segundo lugar, por uma perspectiva de modo algum dissociada da primeira, a poesia é também, para muitos, o irresistível, no sentido daquilo a que não se pode resistir. A poesia tem sido colocada (desde Platão, mas de modo peculiar nos dois últimos séculos) no lugar daquilo que personifica o destempero ou o despropósito do incontrolável. A poesia é aquilo que deslumbra, sacraliza, que conquista pela ilusão do sublime, que desencaminha a relação com a vida ao nos colocar na perspectiva da adesão ao etéreo, à ideia da distinção artística, de autonomia orgulhosa, de uma espécie de voz alienígena e, eventualmente, “autoritária”.

Ao personificar o irresistível, a poesia é, portanto, “elitista”; ela é o lugar de uma adesão a ser combatida. Não é propriamente resistente: ela é o objeto de uma resistência que se opõe à sedução do seu sublime. O resultado dessa resistência ou desse recalque (de acordo com o ponto de vista que possamos ter sobre o assunto) acompanha sintomaticamente a multiplicação das horizontalidades possíveis, a auto-regulação das paixões rentáveis, a intolerância a qualquer tipo de pensamento sobre a diferença que distingue e sobre a autonomia que desregula. Seria ingênuo deixar de constatar que, dessa perspectiva, o insistente mapeamento da “crise da poesia”, de sua falência ou de seu desaparelhamento contemporâneo, está estreitamente associado a estratégias de promoção ou de substituição cultural, em que as palavras de ordem da horizontalização ou do hibridismo espetaculoso não deixam de ter um papel.

A poesia para mim tem (ou tem tido) lugar. É (ou tem sido) meu modo de descobrir, de experimentar ou de suportar a tensão do acontecimento, de defrontar o que escapa a qualquer política e, ao mesmo tempo, de afrontar as políticas ou os discursos do “fato”. Outra maneira de dizer que a poesia, para mim, é (ou tem sido) o irresistível.

Paulo Franchetti (SP-Brasil, 1954)

A possibilidade de se apresentar esta questão já nos traz um caminho de resposta, pois não creio que essas mesmas perguntas se formulassem com tanta clareza para as outras artes. Por exemplo, faria sentido manter a pergunta tal e qual, substituindo apenas “poesia” por “música” ou por “escultura” – e, dentro do domínio das artes da palavra, por “romance”, ou “conto”, ou ainda “teatro”. No caso da música, é certo que seria importante particularizar de que música falamos: música popular, música pop, música erudita, música experimental, música étnica etc. Já no caso da escultura e da pintura, não saberia como determinar melhor os termos, de modo que a questão pudesse parecer, como a que deu origem a esta resposta, razoável. Mais notável é a dificuldade de aplicar a pergunta a outras modalidades literárias: “o romance é uma forma de resistência?”; “o teatro é uma forma de resistência?”. Nestes casos, mais do que a dificuldade de delimitar os termos (romance de terror, romance de amor, romance social, romance policial etc) impõe-se o estranhamento da pergunta: quem a formularia, e em que situações? Já no caso da poesia, parece natural a indagação, mesmo que não restrinjamos o sentido do termo. E quando o restringimos, como o fez há mais de 30 anos um ensaísta preocupado com o tema, Alfredo Bosi, é apenas para especificar a maneira própria de um tipo de poesia constituir resistência ao que seria o mundo hostil do capitalismo O exemplo de Bosi é interessante não apenas porque a poesia é identificada, nos tempos modernos a resistência, mas também porque – como implicitamente reconhece que há poesia integrada, não resistente – é a resistência que passa a ser, para ele, a senda da “verdadeira poesia”. Ou seja, identificar poesia e resistência é também uma forma de qualificar. A “verdadeira poesia” é resistência; a falsa ou a não-poesia é aquela a que falta resistência. E, portanto, o verdadeiro cinema seria o de resistência, a verdadeira arquitetura, o verdadeiro romance etc. O que é o mesmo que dizer que, no limite, a arte em geral, na sociedade capitalista, é resistência. Ou ainda que só é verdadeira (ou contemporânea, no sentido de situar-se corretamente no seu tempo) a arte que consistir em resistência.

Se adotasse esse ponto de vista, responderia que sim, com a modalização necessária: que a verdadeira poesia é resistência, que na modernidade ela o é por definição, em qualquer contexto. Ou então não é arte. Ou seja, voltando ao mesmo ponto: a arte é resistência. Tese difícil de demonstrar, quando pensasse em casos concretos: a arte de Picasso é resistência? E a de Andy Warhol? O cinema de Hitchcock e Bergman? E o de John Ford? Os edifícios públicos de Niemeyer e as casas de Gaudi? A música dos Stones e a de Keith Jarrett? A literatura de Somerset Maugham e de Gabriel Garcia Marques? Não que fosse impossível, mas demandaria tal elasticidade do conceito de resistência que ele se tornaria inútil, ou então obrigaria a uma seleção drástica do âmbito do artístico, especialmente no que diz respeito às artes de apelo mais popular, como o cinema e a música. Na verdade, o que tal operação significaria, no meu caso, é que eu trataria de usar o conceito de resistência (ampliando-o e modalizando-o conforme a necessidade) para atribuir verdade aos objetos que julgo interessantes ou que estão sacralizados pela tradição. Só não seria assim se eu dispusesse de um ponto fixo de referência, sempre igual a si mesmo, que pudesse ser um aferidor da verdade e do reto caminho – a mente de Deus, por exemplo, ou a “essência humana”, apenas momentaneamente desvirtuada pelo capitalismo. Como não disponho, não posso responder nesses termos.

Prefiro, por isso, pensar no que a apresentação de uma pergunta como a que estou tentando responder significa. A começar pelo fato, a que acima me referi, de que ela não é usual sequer no campo de estudos das outras artes da palavra – exceto se pensarmos no conjunto delas: “a literatura é resistência?” –, mas nesse caso, imagino que a poesia esteja subsumindo os demais tipos de arte recobertos pela palavra “literatura”. E a terminar pela suposição, que ela implica, de uma unidade da “poesia” que dispense essa palavra de qualquer qualificativo. Passando pelo fato de que a modalização das perguntas subsequentes à primeira demonstram que a expectativa de resposta a ela seja positiva.

Minha intuição é que temos de ter um raciocínio de mão dupla: perguntar se a poesia é resistência é também perguntar se há resistência à poesia em nossa sociedade. E se a afirmação de uma não implica a resposta de outra. Se fizermos essa pergunta, porém, nos deparamos com a verdade de que não há resistência a todo tipo de poesia, mas apenas a alguns tipos.

Quanto à resistência mútua, João Cabral de Melo Neto, em textos do início dos anos 1950, apresentou um quadro muito claro. Para ele, a responsabilidade principal pela grave questão do abismo que julgava abrir-se entre o poeta e o público residia na forma e alcance do típico poema moderno, fechado ao leitor e de temática restrita. A resistência à poesia era, assim, uma resposta à inadequação do poema. Sua proposta de superação do impasse era que os poetas buscassem a comunicação com o leitor, fazendo poemas mais adequados aos tempos modernos, valendo-se inclusive das novas formas massivas de difusão da palavra, como era o caso do rádio. Com essa mesma preocupação nasceu também o movimento da poesia concreta brasileira, que buscava, num primeiro momento, a integração no universo dos produtos industriais e no mundo moderno, mas que em breve refluiu para a típica posição de resistência ao público, cujo gosto ou formação seria incapaz de gerar uma recepção positiva à poesia, e passou a ocupar o lugar clássico da vanguarda de produtora de poesia para um público futuro ou para poetas que preparariam esse público ainda inexistente.

Mas não nos devemos iludir: a falta de integração – ou de sucesso de público, para usar uma palavra crua – era de apenas um tipo de poesia: aquele que merecia a consideração crítica. Porque sempre houve poesia de grande receptividade, à qual normalmente se negou (e ainda se nega) o caráter de arte séria ou mesmo de arte. Basta lembrar, como contraponto à tese da incomunicabilidade da poesia no século XX, entre outras referências possíveis, as enormes tiragens de J. G. de Araújo Jorge (seu livro Amo!, de 1938, vendeu 80.000 exemplares) e da poesia psicografada por Chico Xavier (seu Parnaso de Além-Túmulo vendeu mais de 100.000 cópias – e continua em catálogo).

Essas reflexões trazem para primeiro plano uma forma de resistência que caracteriza a poesia moderna canônica que merece ser destacada: a resistência à perda do valor de novidade, ao valor de estranhamento que a linguagem poética deve ter para ser reconhecida como tal, a “resistência de fato faz parte da definição do tipo de poesia que identificamos como significativa e contemporânea, mas num nível complexo, no qual se combinam a recusa à repetição e a afirmação da autonomia do discurso poético. Ao mesmo tempo, suspeito de que a afirmação da autonomia tem sido muitas vezes confundida, de modo simplório, com a eficácia de estratégias que visam apenas provocar a resistência do público mais amplo.

Ainda uma última consideração – que apenas reafirma a minha incapacidade de responder às perguntas: a louvação da poesia como resistência é um dos grandes temas da literatura e da crítica moderna. Não espanta que ela tenha logo passado de tema ou descrição a prescrição. Nem que o caráter prescritivo se imponha, pois é um dos requisitos para a postulação de contemporaneidade – importante valor, qualificativo a que cada vez uma gama menor de produtos parece ter direito em nosso tempo.

Por fim, no que diz respeito à minha prática poética, percebo (também ao responder a este questionário) que há nela uma resistência de fundo: uma resistência a programas, à injunção de fazer sempre o novo a partir de um traçado histórico que define uma linha evolutiva, à ideia de que o leitor comum é dispensável ou, em princípio, inepto para dar conta da boa poesia, ou à proposição de que o mundo contemporâneo seja mais hostil à poesia do que qualquer outro mundo, bem como ao jargão crítico-poético trazido para dentro do poema ou à busca de procedimentos constantes, que funcionem como uma marca registrada ou uma garantia de procedência do produto. E já agora, no que toca a este momento, uma resistência à ideia ou bandeira da literatura como resistência. Ou seja, termino por perceber que possuo uma paradoxal resistência à ideia de resistência.

E é tudo que, como poeta e como estudioso da literatura, me ocorre dizer neste momento.

Ricardo Corona (PR-Brasil, 1965)

A poesia é uma forma de resistência? Sempre, por definição? Ou apenas em determinados contextos – sociais, políticos, culturais? Como pode resistir a poesia e a quê? Eis uma questão virtuosa para a incorruptível poesia. Seus corredores labirínticos, sutis indagações, sugerindo à poesia definir-se. Um sintoma próprio da poesia. Questões se abrem, pequenas e grandes, ansiosas em defini-la. E isso talvez quase a define, caso não resistisse a definições. A questão e suas sutis indagações, hidra de várias cabeças e cada cabeça uma sentença, implica as mesmas fugas do vivente que ousa falar com desespero do carinho extremo. Uma fala do coração. Uma fala qualquer, mas não qualquer fala. Os franceses e os ingleses dizem par coeur, by heart, e nós, de memória. Em qual supermercado; discurso; lojinha; secos & molhados; escritório; ministério de cultura; secretaria de educação? A de Ana Ajmátova resistiu ao bolchevismo; a de Nietzsche aos nazi; assim como se resiste hoje aos nóias capitalistas e à democracia de câmeras. A poesia resiste, sim. É o seu sentido. Resiste aos poetas, ao poético e à própria poesia, se pensarmos com Nancy (e eu penso): o seu sentido de poesia: sempre por fazer. Acordei com vontade de rodar pela cidade com a minha bicicleta Poesia. Será a bicicleta uma forma de resistir?

Rodrigo Garcia Lopes (PR-Brasil, 1965)

A poesia permanece como força de resistência contra a apatia, a automatização e pasteurização de comportamentos, de usos de linguagem e percepções. Em temposvelozes e saturados, em que tudo seduz as pessoas para longe do livro e paraperto da TV, da internet, dos celulares, IPods etc, a poesia ainda tem a missão de apontar e incorporar outros modos de ver, sentir, ser e estar no mundo.Acredito na capacidade crítica e na busca do estranhamento ao chamado “mundo real” que a linguagem poética pode exercer, cumprindo seu papel ideológico de ser intérprete de uma época, de questionar os padrões medianos de sensibilidade e sentido, e de provocar uma re-sensibilização no leitor. Ou seja, de”ensinar a sentir”, de ser capaz de recriar e criticar a realidade. A poesia (a arte da linguagem verbal), requer, ao contrário do que nosexige estes tempos excessivos e velozes, uma leitura lenta, uma maior atenção,o pensar e a reflexão que a sociedade do espetáculo (termo de Guy Debord) cadavez mais desconsidera. É, sobretudo, a capacidade crítica e na busca do estranhamento ao chamado “mundo real” (cada vez mais virtual) que a linguagem poética pode cumprir seu papel de intérprete de uma época, de questionar os padrões medianos de sensibilidade e sentido e de provocar uma re-sensibilização no leitor.

Salgado Maranhão (MA – Brasil, 1954)

Pela sua intrínseca gratuidade, e pela sua natureza de produto à revelia do mercado, a poesia é, de fato, um poderoso instrumento de resistência. Inadaptável a qualquer tipo de enquadramento ou tutelagem, ela tem atravessado os séculos como, talvez, o único fórum, ao nível da linguagem verbal, em que a psique humana se revela plenamente em seus conflitos incontornáveis. Todas as demais manifestações da arte ou do pensamento, de algum modo, cedem ao contexto social. A grandeza da poesia, no entanto, está em ser como o riso ou o choro da criança, imprevisível e desobediente. Irreverente e inventiva para falar a espíritos diversos, ela sempre foi colo e voz dos povos soterrados pela opressão. E nestes tempos niilistas e de hegemonia do supérfluo, é, ainda, mais renitente e altruísta o seu papel. O próprio poeta, quando surge, é de geração espontânea, não há fórmula nem escola para inventá-lo. Também não há empregador para os seus serviços. Ainda assim, quando uma voz, verdadeiramente genuína canta, uma luz misteriosa acende as mentes e os corações sensíveis. E cada um toma para si o que gostaria de ter dito. Ser agente secreto da alma humana, é a principal recompensa do poeta, a musa quer entrega e abnegação. Porém, se houver talento e uma vida inteira garimpando nadas, certamente, algum ouro virá. A poesia é um campo de provas do que há de mais secreto em nós.

Sérgio Medeiros (MTS-Brasil, 1959)

A poesia resiste ao romance. Posso explicar isso citando os meus livros. Mas também posso mencionar, para início de conversa, o encontro que tive há pouco mais de um ano, aqui em Florianópolis, com o poeta Régis Bonvicino. Eu lhe perguntei se ele já havia sentido desejo de escrever um romance. Ele disse que não poderia escrever um, porque isso implica criar personagens. O pior de tudo, segundo confessou, é ter de dar-lhes nomes e sobrenomes.

Eu concordo com ele: sinto também que é muito difícil dar nomes de pessoas a pessoas nos meus textos. A minha poesia resiste a isso. Resiste ao romance. As pessoas até aparecem, mas pouco, prefiro inumanos (água, inseto, árvores, por exemplo). Meu último livro publicado, Figurantes (2011), é um longo desfile de “invasores” sem nome. Não são protagonistas, são figurantes, talvez bichos, insetos. Quando num livro só se veem figurantes, é poesia; quando aparecem protagonistas, herói e heroína, é romance. Batizar um figurante é a pior coisa que um poeta poderia fazer.

Não sei de onde os romancistas tiram tantos nomes e sobrenomes. Eu me sentiria ridículo se tivesse de ficar nomeando todo mundo, como eles fazem. Então a poesia me liberou disso.

Curiosamente, meus últimos trabalhos são romances. Ou melhor, “romances”. Em 2012, a Iluminuras, a editora que publica meus livros, vai lançar Enrique Flor. Eu sempre julguei impossível dar nome de personagem a um livro meu. Mas aconteceu. Só que esse nome, Enrique Flor, não é criação minha. Está no Ulysses, de James Joyce, o melhor romance de todos os tempos. Eu nunca li um romance melhor do que esse. E nele tem um personagem que me marcou muito: justamente o senhor Enrique Flor, um músico português que vai a Dublin. Portugal e Irlanda eram países completamente desmatados no início do século XX. O prodigioso senhor Enrique Flor, cada vez que tocava seu órgão, reflorestava o ambiente, as pessoas viravam folhas, troncos, árvores completas, flores. Eu decidi contar (imaginar) o final da vida de Enrique Flor, e então eu o trouxe ao Brasil, onde ele se depara com a selva. Isso vai mudar para sempre a música dele. Ele irá conceber de outra maneira o “sex appeal” vegetal.

Então, para concluir, escrevi um tipo de romance, um poema-romance. Mas os personagens vieram do romance de Joyce. Não precisei imaginar nomes e sobrenomes. Isso eu não gosto de fazer, não tenho paciência para isso. Só fui seguindo Joyce, citando e traduzindo os nomes e os sobrenomes que eu encontrava no Ulysses, sobretudo os sobrenomes, que são muito sonoros, sugestivos. Um poeta pode imitar um romancista, mas não ser um romancista puro, um romancista convicto. O romance sem convicção é o romance do poeta.

Seguindo o método de John Cage, que consiste em resumir drasticamente um grande livro (em todos os sentidos), para poder lê-lo com mais comodidade em voz alta e em público, decidi resumir Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: “Writing for the second time through Memórias Póstumas de Brás Cubas“. Evitei os nomes, pois me pareceram sem importância nesse resumo. Citei algumas situações-chave e as comentei, dando a elas uma “imagem”, uma “cena” nova, criada por mim. (Aproveitei ao máximo a noção de texto póstumo.) Esse “romance” foi incluído recentemente numa revista do Rio de Janeiro, Lado 7, da editora 7 Letras.

Esses dois trabalhos recentes que mencionei são a prova de que a poesia resiste ao romance e escreve contra ele, mas, ao mesmo tempo, graças a isso, é capaz de modificá-lo, de limpá-lo e expandi-lo de outro modo, ou seja, poeticamente, à falta de palavra melhor. Obviamente, estou falando do meu caso pessoal. Depois de Ulysses, o romance que considero mais importante é Memórias Póstumas de Brás Cubas. No capítulo 13 encontrei este nome, que considero incrível: Ludgero Barata. Eis aí o nome e o sobrenome de um pobre professor. Eu estou pensando em escrever o “poema” (a história) do professor Barata: um apócrifo fragmento póstumo do escritor brasileiro que mais admiro. Eu não poderia ter criado eu mesmo esse sobrenome, mas me sinto muito feliz de poder agora “roubá-lo” de Machado de Assis. Pois me convenço cada vez mais que nunca precisarei inventar nomes e sobrenomes. Não sou romancista, ainda bem!

O poeta sente essa felicidade — a de poder pegar nos romances já escritos os nomes que ele não pôde inventar, porque sabia, e sempre saberá, que dar nomes e sobrenomes a personagens é ridículo demais. Isso é tarefa do romancista. (Para o romancista não deve ser ridículo escrever sobrenomes, deve ser natural.) Então o poeta resiste todo o tempo a agir como o romancista, mas sem deixar de “observar” o romance…

Uso de propósito a palavra “observar”. Sempre defini a poesia como um posto de observação. É que aprecio a descrição, a imagem e a comparação. Então observo. Observo e descrevo, entre outras coisas, os romances. Para não fazer igual. Enquanto a poesia resistir ao romance, ela terá algo de seu, algo de muito específico para oferecer ao leitor.