“Why Don’t We Have More Interdisciplinary Research?”

“Por que é que não temos mais investigação interdisciplinar?” – é a questão a que Henrique Madeira1, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra, procura responder num ensaio dedicado à interdisciplinaridade e à investigação científica em Portugal. O texto em questão corresponde a um dos capítulos do livro, em vias de publicação (Imprensa da Universidade de Coimbra, em 2016), organizado por Carmen Soares, António Rafael Amaro, Álvaro Garrido e João Paulo Avelãs Nunes, na sequência do II Ciclo de Conferências e Debates Interdisciplinares, organizado pelo CEIS20 (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX) e III-UC (Instituto de Investigação Interdisciplinar – Universidade de Coimbra), 2014.

Destacamos aqui alguns excertos dessa reflexão:

Por que é que não temos mais investigação interdisciplinar?

Não havendo uma resposta única à questão de saber por que não temos mais investigação interdisciplinar, são [aqui] discutidos diversos fatores que nos parecem incontornáveis: alcançar entendimento e respeito mútuo na colaboração e articulação entre disciplinas, dotar as unidades com vocação interdisciplinar de recursos humanos próprios, designadamente de elementos com formação transdisciplinar em núcleos de disciplinas bem definidos, que possam ter um papel catalisador de projetos interdisciplinares, e abrir novas frentes de interdisciplinaridade, através da exploração de oportunidades de inovação no cruzamento de áreas tecnológicas e de engenharias com outras disciplinas. [p. 1]

Investigação interdisciplinar: retórica e realidade

A definição mais consensual de interdisciplinaridade evoca diversas palavras, convocando cada uma delas estádios diferentes de interligação, interpenetração ou mesmo integração de disciplinas. Tomemos o relatório sobre interdisciplinaridade do Conselho Consultivo da União Europeia para a Investigação como exemplo dos muitos textos que definem os termos consensualmente mais aceites na literatura [EURAB 2004]:

Multidisciplinaridade – diferentes disciplinas trabalham em conjunto, de forma articulada, sem que haja síntese cognitiva dessa interligação.

Interdisciplinaridade – diferentes disciplinas trabalham em conjunto, de forma articulada, procurando novas abordagens que constituam a síntese cognitiva da interligação entre essas disciplinas.

Ou seja, como referem Bernard Choi e Anita Pak [Choi e Pak 2006], na multidisciplinaridade cada disciplina permanece dentro das suas fronteiras, enquanto que na interdisciplinaridade se procura a análise, síntese e harmonização das ligações entre disciplinas num todo articulado e coerente. É comum encontrar-se um terceiro termo, transdisciplinaridade, que traduz a procura de uma visão integrada do conhecimento, transcendendo as fronteiras das disciplinas (e.g., [Choi e Pak 2006]).

Numa perspectiva operacional e eminentemente prática, Alan Porter e Ismael Rafols [Porter e Rafols 2009] definem investigação interdisciplinar de uma forma algo crua, como “um modo de investigação científica levada a cabo por equipas ou indivíduos, que integram perspectivas/conceitos/teorias, e/ou ferramentas/técnicas, e/ou informação/dados de dois ou mais corpos do saber ou de abordagens de investigação”. No extremo oposto, temos autores que, perante a abundância de termos e as inevitáveis variantes na sua interpretação, se recusam a definir explicitamente interdisciplinaridade, assumindo que, inevitavelmente, a noção emerge clara e límpida da discussão (e.g., [Blackwell et al. 2009]). [p. 5]

(…)

Temos, então, um paradoxo. A apologia da interdisciplinaridade, patente na retórica das entidades que financiam a investigação científica, a crença de que os grandes avanços no conhecimento e na inovação residem na interdisciplinaridade, os mecanismos pensados para favorecer a investigação interdisciplinar, os Institutos de Investigação  Interdisciplinar que têm surgido um pouco por toda a parte, as novas “disciplinas” e cursos marcadamente interdisciplinares, tudo isto poderia fazer crer que a investigação interdisciplinar deveria ser hoje preponderante. Mas, paradoxalmente, tal não acontece. Pelo menos no que toca à investigação no seio das universidades e centros de investigação a estas associados, a investigação tradicional, disciplinar, continua a dominar de forma esmagadora. O já referido estudo publicado por Alan Porter e Ismael Rafols em 2009 [Porter e Rafols 2009], estuda a evolução da interdisciplinaridade num período de 30 anos, de 1975 a 2005. O estudo partiu de um total de 30261 artigos do Web of Science (WoS), cobrindo 244 categorias de assuntos, identificadas pelos tópicos indicados nos próprios artigos e considerados como as disciplinas de granularidade mais fina. Estes assuntos foram agregados em 21 macro-disciplinas, que são usadas no estudo essencialmente parta facilitar a visualização dos resultados. [pp. 9-10]

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Várias causas podem ser apontadas para esta situação. Em particular, a hipótese de o sistema de avaliação da qualidade da investigação tender a discriminar negativamente a investigação interdisciplinar [Nightingale e Scott 2007], especialmente porque o processo de avaliação por pares parece desfavorecer a interdisciplinaridade [Langfeldt 2006], e o processo de rankings das revistas, fortemente baseado em impacto e número de citações, acabar por relegar a avaliação dos trabalhos interdisciplinares para um plano de qualidade inferior [Rafols 2015]. Em sentido contrário, mas não suficiente para alterar a perceção geral, um estudo recente mostra que a investigação interdisciplinar compreendendo disciplinas muito afastadas entre si tem originado alguns trabalhos de grande impacto [Larivière 2015]. [p. 12]

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A avaliação da qualidade dos resultados da investigação científica através de indicadores coexiste com a tradicional avaliação por pares usada na ciência, em que o valor de um trabalho (e a consequente recomendação para publicação) é determinado por um pequeno grupo de especialistas com conhecimentos e competências semelhantes ao autor do trabalho em avaliação. Apesar das limitações e falhas da avaliação por pares, geralmente relacionadas com as fraquezas humanas inerentes ao processo, este método está há muito estabelecido como um dos pilares da credibilidade da ciência. Não deixa de ser estranho que a avaliação direta do valor dos resultados da investigação através dos pares coexista com métodos de avaliação indireta através de indicadores. Mas a realidade é que não apenas coexistem como se influenciam e articulam mutuamente.
[p. 31]

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O caráter indireto da avaliação da investigação científica por indicadores, já atrás referido, não é, porventura, o maior problema. O que aconteceu foi que, nos últimos anos, se assistiu à uniformização dos indicadores e dos critérios usados, impondo a algumas áreas disciplinares o quadro de avaliação de outras. Na prática, a qualidade da investigação na generalidade das áreas é aferida pelos critérios estabelecidos nas ciências básicas e nas áreas da saúde e da vida. [p. 32]

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Uma dificuldade essencial que importa resolver está na identificação dos problemas de investigação. Se se espera que os grandes avanços ocorram na fronteira ou interseção entre disciplinas é preciso identificar os problemas que residem justamente nessa interseção. Isto requer uma visão transdisciplinar que só surge se houver nas universidades uma estratégia e os meios para criar equipas em que haja alguns elementos (não necessariamente todos) com uma visão integrada do conhecimento, transcendendo as fronteiras de várias disciplinas. Significa também que unidades orgânicas focadas em investigação interdisciplinar, como é o caso do Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, necessitam de recursos humanos próprios, o que significa ter professores/investigadores com formação transdisciplinar, cobrindo núcleos de disciplinas, para as quais funcionem como agentes catalisadores da investigação interdisciplinar, contribuindo em particular para a identificação de oportunidades de investigação nas fronteiras das disciplinas.

Sem recursos humanos próprios, as intenções de fomentar a investigação interdisciplinar dificilmente irão além de poucas áreas, tais como, a título de exemplo, as ciências sociais ou, em parte, as ciências da vida, onde já prevalece uma certa tradição de trabalho de investigação interdisciplinar, impulsionada essencialmente pela natureza das disciplinas envolvidas e a facilidade em identificar problemas de investigação no cruzamento de várias disciplinas. O confinamento de casos de sucesso de investigação interdisciplinar a um pequeno número de áreas como as atrás referidas comporta o risco de cristalizar uma visão redutora da interdisciplinaridade, resultando em tentativas vãs de replicar os modelos que tiveram sucesso, por exemplo em projetos interdisciplinares que emanaram das ciências sociais, a novas frentes interdisciplinares, onde esses modelos não fazem qualquer sentido. Importa, por isso, incentivar a investigação interdisciplinar em novas frentes, mas procurando as abordagens mais adequadas. [pp. 35-36]

(…)

Persiste, no entanto, a forte expectativa de que “os grandes avanços em ciência ocorrem na fronteira ou interseção entre disciplinas”. O aproveitamento deste potencial implica a criação de condições para que investigadores de diferentes áreas vençam, em primeiro lugar, a barreira da comunicação e que, apesar das naturais diferenças nas linguagens e nos enquadramentos da investigação, atinjam um patamar de entendimento e de respeito mútuo.

A identificação dos problemas de investigação na interseção das diferentes disciplinas, essencial para a criação de verdadeiros desafios de investigação interdisciplinar (e não simples colaborações em que, inevitavelmente, as disciplinas veem as outras como meramente instrumentais), carece de uma visão transdisciplinar que só surge se houver nas universidades a estratégia e os meios para criar equipas em que haja elementos com formação transdisciplinar em núcleos de disciplinas bem definidos. A constituição de um pequeno número de elementos com formação transdisciplinar parece ser um recurso necessário, sem a qual a investigação interdisciplinar dificilmente descola dos relativamente raros exemplos bem-sucedidos em áreas onde há de facto alguma tradição de interdisciplinaridade. [p. 38]

O texto pode ser lido na íntegra aqui.

1Henrique Madeira é Professor Catedrático no Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCTUC), membro do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra (CISUC) e do Laboratório de Informática e Sistemas do Instituto Pedro Nunes. A sua actividade científica centra-se nas áreas de computadores tolerantes a falhas, segurança em sistemas informáticos e bases de dados, tendo coordenado dezenas de projectos europeus e nacionais e tem tido actividade intensa em comités científicos de conferências internacionais e em comités editoriais de revistas da sua área de especialidade. Os seus trabalhos científicos são citados regularmente, sendo conhecidas mais de 3500 citações em publicações internacionais. Recebeu vários prémios científicos tendo dois dos seus artigos recebido o prémio William Carter, promovido conjuntamente pelo IEEE e pela IFIP. Tem tido também intensa actividade na coordenação de projectos de interligação entre a Universidade, empresas e outras instituições. É co-autor de duas ferramentas de injecção de falhas, respectivamente RIFLE e Xception, que têm sido usadas em diversas Universidades e em agências espaciais, com destaque para a NASA (EUA) e INPE (Brasil). Foi presidente do Conselho do Departamento de Engenharia Informática e presidente da Comissão Executiva do Departamento (2003-2004), presidente do Comissão Científica do DEI (2004-2006) da FCTUC e presidente da Comissão Directiva do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra (2006-2008). Coordenou o processo de adaptação ao modelo de Bolonha dos cursos do Departamento de Engenharia Informática da FCTUC. Foi Vice-Reitor da Universidade de Coimbra entre 2009 e 2013 com responsabilidade nas áreas de inovação, transferência de saber, novos públicos, avaliação e recursos humanos. Henrique Madeira é também um contista, tendo publicado Uma Montra em África (prémio Joaquim Namorado) e Contos Infalíveis, 2015 (X Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca 2014).