Encontra-se disponível os Cadernos “Intersexualidades em Questão”

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Entre os famosos Fragmentos de um discurso amoroso (1977), de Roland Barthes, e o aparecimento da teoria e dos estudos queer, os estudos de literatura transformaram-se radicalmente. A  publicação   de Fragmentos marca definitivamente   o  fim   da    vaga estruturalista e sepultam o poder detido pela crítica ao longo de pelo menos dois séculos de existência. Ao reconhecer a ação crítica como um ato de leitura, Barthes conferiu a quem lê o poder que críticos acreditavam possuir – não há método, não há ciência que descreva o amor imenso do(a) leitor(a) pelo texto, pela literatura. Além de falar de amor, Barthes tratava do amor à Literatura, por isso a sua pergunta e, por isso, as mutações que os estudos de literatura sofreram nas décadas seguintes.  Mutações profundas que aproximaram os estudiosos da produção de leitura, da(s) forma(s) que fazem uma obra ser lida ou não, num tempo e num espaço determinados, que fazem uma obra deslizar no tempo  e no  espaço, fecundar outras obras e ser por outras fecundada. O amador-leitor – ou a amadora-leitora! – vale, então, pela leitura que produz.

Barthes, que morreu em 1980, não viu a revolução académica, do qual foi um dos geradores, que abalou as formas tradicionais de se fazer crítica. Barthes não viu o reconhecimento da autoridade de um sujeito que fala de si mesmo. Barthes não viu os estudos de género, não viu os estudos gaye lésbicos e, muito menos, a teoria queer abalarem as estruturas burguesas da universidade e, porque não dizer, da própria linguagem. Mas tinha consciência de como fazer isso, daí a fragmentação como procedimento – especialmente, em Roland Barthes por Roland Barthes (1975) ou em Fragmentos de um discurso amoroso (1977), obras nas quais o mestre ao se fragmentar, fragmentando o discurso, deixou claro que se sempre fala de si, mesmo quando se fala do outro. Ou seja, Barthes, de alguma forma e como fazem os grandes escritores, previu o que aconteceria quando a teoria queer e seus estudos passaram não a examinar objetos queer, mas a queerizarem objetos não queer – ou melhor, quando compreendemos que o olhar, a leitura, o ato de interpretar garantiram a emergência da alteridade e, portanto, colocaram em xeque identidades estáveis, objetos estáveis, sujeitos estáveis, discursos estáveis.

O número 39 dos Cadernos de Literatura Comparada divide-se em três partes: a primeira, um dossier composto por quinze artigos, debruça-se sobre género, feminismos e sexualidades e os seus cruzamentos com a literatura. A segunda parte, a secção Vária, é composta por três ensaios diversos que, não se centrando nas sexualidades, se ocupam, porém, de temas comparatistas.  Finalmente, a última parte, composta por oito recensões elaboradas por investigadores do projeto Alimentopia  / Utopian  Foodways, alguns deles membros do Instituto de Literatura Comparada, expande preocupações afetas à investigação desenvolvida pelo Instituto de Literatura  Comparada Margarida Losa e pelo seu projeto aglutinador “Literatura e Fronteiras do Conhecimento: Políticas de Inclusão. Esta ultima secção reúne, assim, oito relatórios de leitura de monografias e antologias de textos que dão conta do cruzamento dos Estudos sobre a Alimentação com os Estudos sobre a Utopia, inflectindo também nas questões de género.

 

N. 39 (2018): INTERSEXUALIDADES EM QUESTÃO

CONSELHO DE REDAÇÃO DOS CADERNOS
DIRECTORES
ANA LUÍSA AMARAL
ANA PAULA COUTINHO
GONÇALO VILAS-BOAS
ROSA MARIA MARTELO

ORGANIZADORES DO Nº 39
EMERSON INÁCIO
MÁRIO LUGARINHO
MAXIMILIANO TORRES
ANA LUÍSA AMARAL
MARINELA FREITAS

ASSISTENTE EDITORIAL
LURDES GONÇALVES