Da integração da investigação na avaliação de estudantes como estratégia inclusiva

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Da integração da investigação na avaliação de estudantes como estratégia inclusiva

A dupla condição de docente, na pós-graduação, e investigador que caracteriza vários dos membros intervenientes no projeto Literatura e Fronteiras do Conhecimento: Políticas de Inclusão não pode deixar de ser fator interpelante no que toca a uma reflexão sobre as possibilidades e potencialidades de cruzamento entre uma ação que envolve ensino e aprendizagem, nomeadamente no que se refere a uma dimensão de pesquisa, e uma ação que passa pelo desenvolvimento e consecução de investigação no quadro do projeto em curso no ILCML que, além do mais, assenta em preocupações de inclusão. Na verdade e com vista à implementação da pesquisa, nesse projeto elegem-se, como conceitos-chave os conceitos de fronteira, inclusão ou transdisciplinaridade que a Literatura Comparada, enquanto metadisciplina, permite acolher e promover.

Ora com efeito, diferentes membros integrados do ILCML estão envolvidos não apenas na coordenação científica de cursos ligados, por exemplo, aos estudos de teatro ou aos estudos literários, culturais e interartísticos como na lecionação de múltiplas unidades curriculares. Como trabalhar então em torno destes conceitos e contribuir para o projeto comum, articulando área de docência e pesquisa, e, desde logo, por um envolvimento mais efetivo de estudantes de pós-graduação?

No âmbito da unidade curricular “Literatura de viagens” que integra o curso de Mestrado em Estudos Literários, Culturais e Interartes no seu ramo de Estudos comparatistas e Relações Interculturais, a resposta surgiu através da proposta de integração da investigação no processo de avaliação dos estudantes, ao definir-se como componente fundamental de avaliação – após uma primeira etapa de pesquisa – a redação de um verbete, a publicar, mediante prévia aprovação científica, na base de dados Ulyssei@s. Perante uma unidade curricular que trabalha a narrativa de viagem, suporte com frequência de uma problematização das relações entre culturas e a permitir pensar questões de mediação cultural, a proposta passava então por convidar à colaboração no enriquecimento de uma “enciclopédia digital sobre Escritores e outros Criadores em Deslocação, [enciclopédia que] surge na sequência das atividades de um grupo de investigadores do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa.” (https://ilcml.com/ulysseis/)

Tratando-se de uma unidade curricular que acolhe um corpus de análise provindo de diferentes literaturas com inscrições linguístico-culturais diversas, o estudante deveria escolher um autor com obra publicada no campo da literatura de viagens, respeitando as seguintes orientações para as quais o texto de apresentação da base aponta:

  1. “a Ulyssei@s apresenta-se como espaço de divulgação de escritores e outros criadores artísticos dos séculos XX-XXI, cujas obras estiveram ou estão de algum modo ligadas às suas deslocações efetivas, e que desde logo tiveram Portugal como ponto de passagem, de partida e/ou de chegada.”
  2. “pretende-se relevar o seu contributo para a concepção / problematização de uma Europa cultural, dinâmica e inclusiva.”
  3. Trata-se de desenvolver “um trabalho de pesquisa reflexiva que visa superar o simples registo biográfico ou documental, ensaiando uma forma híbrida de discurso crítico pela articulação de informações criteriosamente selecionadas com a análise alicerçada no enfoque temático da base.

Face a este desafio, foram várias as obras e autores escolhidos de origem brasileira, espanhola, francesa e portuguesa que desencadearam todo um processo que passou por diversas etapas, desde a leitura e análise da obra, pesquisa de textos críticos, recolha, seleção e organização da informação, redação do verbete, até à apresentação oral do trabalho desenvolvido.

Propostas e experiências de integração da investigação durante uma etapa formativa dos estudantes são já múltiplas e lembremos, tão só, a dinamização desenvolvida pela FCT, há já alguns anos atrás, com a criação de Bolsas de Integração na Investigação – e a que o ILCML se associou com sucesso –, neste caso envolvendo estudantes de pré-graduação, e em que o objetivo passava por “criar condições de estímulo ao início da atividade científica e desenvolvimento de sentido crítico, criatividade e autonomia dos estudantes através da sua integração em equipas de projectos I&D.” (https://www.fct.pt/apoios/bolsas/concursos/BII2008.phtml.pt)

No quadro de um 2º ciclo, a incorporação da investigação num quadro avaliativo visa reconhecer a investigação como uma dimensão vital na formação do estudante e já num quadro de especialização em que o mestrado se situa. Deste modo e pensando em termos de benefícios, tal proposta não só valoriza a pesquisa como processo de aprendizagem como ainda permitirá ao estudante ganhar experiência e desenvolver competências de pensamento crítico que lhe serão extremamente úteis na etapa de preparação e posterior redação da dissertação. Numa ligação a uma unidade de investigação, outros benefícios não podem deixar de ser destacados: a tomada de consciência da importância do escrutínio e avaliação por terceiros da produção científica que se apresenta; a tomada de consciência da importância do contributo e participação individuais num projeto comum; a tomada de consciência da importância da partilha e disseminação dos resultados da investigação feita.

Do exposto, é para nós muito claro a pertinência de promover micro-projetos de investigação ainda durante a etapa letiva de formação no ensino pós-graduado, com esta vertente de divulgação pública do trabalho realizado. Desta forma, a integração da investigação na avaliação de estudantes revela-se não apenas como estratégia formativa adequada, mas ainda como estratégia inclusiva não negligenciável, a potenciar a emergência de uma massa crítica mais alargada e participativa.

Maria de Fátima Outeirinho

Membro do Grupo Inter/Transculturalidades do ILCML