O prazer de (com)parar #13

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QUATRE FAÇONS DE CRACHER DE L’ÂME

Première façon : Atchoum ! Tu éternues en crachant vers moi une myriade de postillons. À cela je réponds poliment, comme on me l’a, depuis toujours, appris, et quelle que soit ma crainte d’attraper ton rhume : À tes souhaits ! Si tu avais toussé, par exemple, je n’aurais rien dit. Porquoi ? Porquoi cette obligation particulière vis-à-vis de l’éternuement ? Porquoi cette formule automatique et pratiquement dénuée de sens, ou alors pourvue d’un sens qui n’est plus tout à fait à ma disposition consciente ? Sans son livre Primitive Culture, publié en 1871 – et l’un des ouvrages fondateurs de la science ethnologique moderne –, Edward B. Tylor consacra un long passage aux coutumes liées à l’éternuement. Ces coutumes apparaissaient à ses yeux comme des «survivances» (survivals), au même titre que les pratiques divinatoires, des dictons ancestraux, les rituels de fondation ou encore les jeux enfantins. En sorte qu’observer ce qui se passe lorsque quelqu’un éternue, aujourd’hui même, serait «apprendre comment les vieilles coutumes conservent leurs racines dans un sol bouleversé par une nouvelle culture» ou la nouvelle époque historique d’une culture donnée.

Éternuer : présage en tout cas. Bon ou mauvais. Affaire d’âmes et de mouvements, fastes ou néfastes. Soit tu craches un peu de ton âme alentour, soit il s’agit d’une âme errante qui vient te chatouiller les narines. En éternuant tu montres que tu es en pleine forme – c’est-à-dire en plein communication avec les âmes – ou, au contraire, qu’une grave maladie te guette. Dans l’Odyssée, à un moment, Télémaque «éternue très fort» et Pénélope se met aussiôt à rire aux éclats, parce qu’elle a compris qu’il s’agissait d’un préssage heureux : «N’entends-tu pas mon fils éternuer à mes souhaits ?» Pétrone évoque la formule Salve !que l’on prononce à l’adresse de toute personne qui éternue. On dira Felicità ! en Italie, Gott hilf ! en Allemagne. Tylor raconte l’histoire d’une tribu étrange : quand le chef éternuait, tout le village se mettait à l’acclamer bruyamment, à tomber en prosternation, à embrasser la terre ou bien à battre des mains comme on applaudit une divade théâtre. Si l’on considère l’éternuement comme un signe néfaste – en temps de peste, par exemple -, on se détournera simplement en criant Loin de moi !

Deuxième façon : filets de bave. J’entendais l’autre jour Luis Pérez Oramas – qui prépare, au Museum of Modern Art de New York, une grande rétrospective consacrée à Lygia Clark – parler de cette œuvre fascinante intitulée Baba antropofágica, «Bave anthropophagique». C’était en 1973. Lygia Clark avait réuni plusieurs personnes autour d’un jeune homme nu étendu sur le dos ; chacune d’elle avait dans la bouche une pelote de fil qu’elle dévidait, enduit de la salive, sur tout le corps du jeune homme peu à peu emmailloté dans les fils comme un nouveau-né dans un cocon ou une mouche dans le piège de l’araignée.

Troisième façon (qui prolonge le paradigme de l’araignée) : drapé craché. Tu trempes un long châle de soie dans une substance huileuse et tu l’avales. C’est une technique classique des magiciens de foire. Quand le photographe arrive, tu commences ta mise en scène de «médium» : tu communiques avec les âmes. Au moment propice, tu pousses un long râle et tu vomis la draperie de ta bouche comme si c’était l’ectoplasme de Nostradamus en personne. Le photographe – tel Albert von Schrenck-Notzing en 1912-1013 – réalise d’admirables clichés où chacun verra bien que tu crachais des «âmes matérialisées» sous forme de «voiles ectoplasmiques».

Une dernière façon serait de mourir, tout simplement. En 1907, le médecin américain Duncan MacDougall prit le poids exact de six patients moribonds, avant et après leur mort. Il constata un léger écart qui était, selon lui, inexplicable biologiquement. Il en déduisit qu’il s’agissait du poids de l’âme exhalée au moment de la mort. Reconduisant l’expérience sur des chiens qu’il empoisonnait systématiquement, il ne constata aucune différence notable. Il se crut donc en possession à la fois d’une preuve que les animaux n’ont pas d’âme et d’une donnée expérimentale lui permettant de déduire le poids exact d’une âme humaine : vingt et un grammes. On n’arrête ni le progrès, ni la régression.

(14.11.2013)

Georges Didi-Huberman, Aperçues, Les Éditions Minuit, 2018

O prazer de (com)parar #12

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Ode aos livros
que não posso comprar

Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
– sem eles, também eu morreria de fome, porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.

Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

Jorge de Sena,1944

O prazer de (com)parar #11

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Le point de non-retour

C’était hier
plage noire de la Caspienne
sur des racines blanchies rejetées par la mer
sur de menus éclats de bambou
nous faisions cuire un tout petit poisson
sa chair rose
prenait une couleur de fumée

Douce pluie d’automne
cœur au chaud  sous la laine
au Nord
un fabuleux champignon d’orage
montait sur la Crimée
et s’étendait jusqu’à la Chine

Ce midi-là
la vie était si égarante et bonne
que tu lui as dit ou plutôt murmuré
« va-t’en me perdre où tu voudras »
Les vagues ont répondu « tu n’en reviendras pas ».

Trébizonde, 1953.

Nicolas Bouvier, Le Dehors et le Dedans, poèmes, Carouge-Genève, Editions Zoé, 1997.

O prazer de (com)parar #10

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(…)

Tal como a peste, o teatro é pois um apelo formidável de forças que, através do exemplo, conduzem o espírito à fonte dos seus conflitos. E o exemplo passional de Ford não passa, sentimo-lo muito bem, do símbolo de um trabalho mais grandioso e absolutamente essencial.

A aterrorizadora aparição do Mal que os Mistérios de Elêusis ofereciam na sua forma pura, e que era completamente revelada, responde ao tempo negro de certas tragédias antigas, que todo o verdadeiro teatro deve reencontrar.

Se o teatro essencial é como a peste, não será porque contagia mas porque é, como a peste, a revelação, o arranque, a projecção para o exterior de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam, num indivíduo ou num povo, todas as possibilidades perversas do espírito.

Como a peste, é o tempo do mal, o triunfo das forças negras que uma força ainda mais profunda alimenta até à extinção.

Há nele, como na peste, uma espécie de estranho sol, uma luz de intensidade anormal onde parece que o difícil, e até mesmo o impossível, de repente se fazem nosso elemento normal. Como todo o teatro verdadeiramente válido, a Annabellade Ford está sob o brilho desse estranho sol. Assemelha-se à liberdade da peste em que o agonizante dilata a sua personagem grau a grau, escalão a escalão, em que o vivo se faz, sucessivamente e à proporção, uma grandiosa e sobretensa criatura.

Pode agora dizer-se que toda a verdadeira liberdade do sexo, que também é negra sem que saibamos muito bem porquê. Porque o Eros platónico, o sentido genésico e a liberdade de vida desde há muito desapareceram sob o revestimento sombrio da Líbido que identificamos com tudo quanto há de sujo, abjecto, infamante no facto de vivermos, nos precipitarmos para a vida com um vigor natural e impuro, com uma força sempre renovada.

Por isso todos os grandes mitos são negros, e fora de uma atmosfera de carnificina, tortura e sangue derramado, não nos é possível imaginar todas essas magníficas Fábulas que às multidões contam a primeira partilha sexual e a primeira carnificina de essências que aparecem na criação.

Como a peste, o teatro é à imagem deste massacre, desta essencial separação. Deslinda conflitos, liberta forças, provoca possibilidades, e se estas possibilidades e estas forças forem negras, a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida.

A vida, tal como é e no-la fizeram, não vemos que ofereça muitos temas de exaltação. Dir-se-á que através da peste, e colectivamente, um gigantesco abcesso tão moral como social se esvazia; e, tal como a peste, o teatro é feito para esvaziar abcessos colectivamente.

 

Eu, António Artaud, tradução e apresentação de Aníbal Fernandes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007.

O prazer de (com)parar #9

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«An Die Nachgeborenen», de Bertholt Brecht

I
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! / Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn /
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende / Hat die furchtbare Nachricht / Nur
noch nicht empfangen. // Was sind das für Zeiten, wo / Ein Gespräch über Bäume fast
ein Verbrechen ist. / Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt! / Der dort
ruhig über die Straße geht / Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde / Die in
Not sind? // Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt / Aber glaubt mir: das ist
nur ein Zufall. Nichts / Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen. /
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.) // Man sagt
mir: iß und trink du! Sei froh, daß du hast! / Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
/ Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und / Mein Glas Wasser einem
Verdurstenden fehlt? / Und doch esse und trinke ich. // Ich wäre gerne auch weise. / In
den alten Büchern steht, was weise ist: / Sich aus dem Streit der Welt halten und die
kurze Zeit / Ohne Furcht verbringen / Auch ohne Gewalt auskommen / Böses mit
Gutem vergelten / Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen / Gilt für weise. /
Alles das kann ich nicht: / Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

II
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung / Als da Hunger herrschte. / Unter die
Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs / Und ich empörte mich mit ihnen. / So
verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. // Mein Essen aß ich zwischen den
Schlachten / Schlafen legte ich mich unter die Mörder / Der Liebe pflegte ich achtlos /
Und die Natur sah ich ohne Geduld. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir
gegeben war. / Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit. / Die Sprache verriet
mich dem Schlächter. / Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden / Saßen ohne
mich sicherer, das hoffte ich. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war.
// Die Kräfte waren gering. Das Ziel / Lag in großer Ferne / Es war deutlich sichtbar,
wenn auch für mich / Kaum zu erreichen. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir
gegeben war.

III
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut / In der wir untergegangen sind / Gedenkt /
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht / Auch der finsteren Zeit / Der ihr entronnen
seid. // Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd / Durch die Kriege
der Klassen, verzweifelt / Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung. // Dabei
wissen wir doch: / Auch der Haß gegen die Niedrigkeit / verzerrt die Züge. / Auch der
Zorn über das Unrecht / Macht die Stimme heiser. Ach, wir / Die wir den Boden
bereiten wollten für Freundlichkeit / Konnten selber nicht freundlich sein. // Ihr aber,
wenn es so weit sein wird / Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist / Gedenkt
unserer / Mit Nachsicht.

«Aos Que Vierem Depois De Nós» por Bertholt Brecht
I
Realmente, vivemos tempos sombrios! / A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas /
denota insensibilidade. Aquele que ri / ainda não recebeu a terrível notícia / que está
para chegar. // Que tempos são estes, em que / é quase um delito / falar de coisas
inocentes. / Pois implica silenciar tantos horrores! / Esse que cruza tranqüilamente a rua
/ não poderá jamais ser encontrado / pelos amigos que precisam de ajuda? // É certo:
ganho o meu pão ainda, / Mas acreditai-me: é pura casualidade. / Nada do que faço
justifica / que eu possa comer até fartar-me. / Por enquanto as coisas me correm bem /
(se a sorte me abandonar estou perdido). / E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois
tens o quê!”
Mas como posso comer e beber, / se ao faminto arrebato o que como, / se o copo de
água falta ao sedento? / E todavia continuo comendo e bebendo. // Também gostaria de
ser um sábio. / Os livros antigos nos falam da sabedoria: / é quedar-se afastado das lutas
do mundo / e, sem temores, / deixar correr o breve tempo. Mas / evitar a violência, /
retribuir o mal com o bem, / não satisfazer os desejos, antes esquecê-los / é o que
chamam sabedoria. / E eu não posso fazê-lo. Realmente, / vivemos tempos sombrios.

II
Para as cidades vim em tempos de desordem, / quando reinava a fome. / Misturei-me
aos homens em tempos turbulentos / e indignei-me com eles. / Assim passou o tempo /
que me foi concedido na terra. // Comi o meu pão em meio às batalhas. / Deitei-me para
dormir entre os assassinos. / Do amor me ocupei descuidadamente / e não tive paciência
com a Natureza. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // No meu
tempo as ruas conduziam aos atoleiros. / A palavra traiu-me ante o verdugo. / Era muito
pouco o que eu podia. Mas os governantes / Se sentiam, sem mim, mais seguros, —
espero. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // As forças eram
escassas. E a meta / achava-se muito distante. / Pude divisá-la claramente, / ainda
quando parecia, para mim, inatingível. / Assim passou o tempo / que me foi concedido
na terra.

III
Vós, que surgireis da maré / em que perecemos, / lembrai-vos também, / quando
falardes das nossas fraquezas, / lembrai-vos dos tempos sombrios / de que pudestes
escapar. // Íamos, com efeito, / mudando mais freqüentemente de país / do que de
sapatos, / através das lutas de classes, / desesperados, / quando havia só injustiça e
nenhuma indignação. // E, contudo, sabemos / que também o ódio contra a baixeza /
endurece a voz. Ah, os que quisemos / preparar terreno para a bondade / não pudemos
ser bons. / Vós, porém, quando chegar o momento / em que o homem seja bom para o
homem, / lembrai-vos de nós / com indulgência.

Bertholt Brecht, “Aos que vierem depois de nós”, tradução de Manuel Bandeira