O prazer de (com)parar #4

ILCML

Em Todo o Lado e em Parte Nenhuma

Quando viajo desapareço do mapa. Ninguém sabe onde estou. Se estou ainda no ponto de partida ou se estou já no ponto de chegada. Será que existe um «entre» as coisa? Ou serei eu como aquele dia perdido que acontece quando se viaja para leste ou aquele noite recuperada quando viajo para oeste? Será que sou regida por aquela lei que é o orgulho da Física Quântica – a partícula pode existir simultaneamente em dois lugares distintos? Ou talvez por outra lei, ainda desconhecida e por comprovar – a de poder não existir duplamente num mesmo lugar? Penso que há muitas pessoas como eu. Desaparecidas, ausentes que, de repente, aparecem nos terminais dos aeroportos e só começam a existir quando os funcionários da alfândega lhes carimbam os passaportes ou quando um gentil recepcionista de hotel lhes entrega uma chave. Já devem ter descoberta a sua instabilidade e a sua dependência de lugares, horas do dia, línguas ou cidades e suas ambiências. Fluidez, mobilidade, ilusão – eis o que significa ser civilizado. Os bárbaros não viajam, dirigem-se diretamente para o destino ou, então, fazem incursões.

Assim pensa a mulher que me oferece um chá de plantas, guardado num termo, enquanto aguardamos o autocarro que nos leva da estação para o aeroporto. Tem, nas mãos pintadas com hena, um padrão complicado que se esbate cada dia que passa. Quando nos sentamos, dá-me uma lição sobre a noção de tempo. Afirma que os povos sedentários que se dedicam à agricultura, preferem os prazeres facultados pelo tempo circular, no seio do qual todos os acontecimentos retornam ao seu próprio princípio, enroscando-se para formar um embrião e repetir o processo de amadurecimento e morte. Mas os nómadas e os mercadores, que se encontram constantemente em viagem, tiveram de inventar um tipo de tempo que melhor se adaptasse à sua condição de viajantes. Trata-se de um tempo linear, mais prático, que lhes permite medir a distância percorrida até alcançar o destino e a evolução dos proveitos obtidos. Cada momento é único e nunca se repete, o que favorece o risco, reforça o usufruto do presente e a fruição do momento. Mas, no fundo, trata-se de uma amarga descoberta – se a mudança no tempo se torna irreversível, a perda e o luto tornam-se algo quotidiano e, por tal razão, os seus lábios jamais dirão palavras como «esgotado» ou «inútil».

– Esforços inúteis contas bancárias esgotadas – ri-se a mulher, pondo as mãos pintadas atrás da cabeça.

Diz que a única maneira de sobreviver num tempo linear que se distende é conservando a distância, uma dança que consiste em aproximar-se e afastar-se, um passo para a frente e um passo para trás, um passo para a esquerda, outro para a direita – passos fáceis de decorar. E quanto maior o mundo se tornar maior será a distância que pode ser dançada desta maneira – emigrar para além de sete mares, para além de duas línguas e de uma religião.

Eu, porém, tenho uma opinião diferente sobre a noção de tempo. O tempo de todos os viajantes é constituído por muitos tempos reunidos num, uma multiplicidade de tempos. Há o lugar insular, arquipélagos da ordem no oceano do caos; há o tempo produzido pelos relógios das estações de comboios, que é diferente consoante os lugares; há o tempo convencionado do meridiano e, por conseguinte, é bom que ninguém o leve muito a sério. Há as horas que desapareceram num avião em pleno voo, onde o amanhecer é repentino como um relâmpago e, logo, ameaçado pelo meio-dia e pelo anoitecer. Há o tempo caótico das grandes cidades onde permanecemos um momento para nos entregarmos à escravidão de um serão. E há o tempo preguiçoso das planícies desabitadas, vistas do alto de um avião.

Também acho que o mundo se encontra no interior de nós próprios, nos sulcos dos cérebros e na glândula pineal. É um globo entalado na garganta e, a bem dizer, poderíamos tossir e desengasgar-nos, cuspindo-o.

Olga Tokarczuk, Viagens, trad. Teresa Fernandes Swiakiewicz, Cavalo de Ferro, 2019, [2007], pp. 49-52.