O prazer de (com)parar #10

ILCML

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Tal como a peste, o teatro é pois um apelo formidável de forças que, através do exemplo, conduzem o espírito à fonte dos seus conflitos. E o exemplo passional de Ford não passa, sentimo-lo muito bem, do símbolo de um trabalho mais grandioso e absolutamente essencial.

A aterrorizadora aparição do Mal que os Mistérios de Elêusis ofereciam na sua forma pura, e que era completamente revelada, responde ao tempo negro de certas tragédias antigas, que todo o verdadeiro teatro deve reencontrar.

Se o teatro essencial é como a peste, não será porque contagia mas porque é, como a peste, a revelação, o arranque, a projecção para o exterior de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam, num indivíduo ou num povo, todas as possibilidades perversas do espírito.

Como a peste, é o tempo do mal, o triunfo das forças negras que uma força ainda mais profunda alimenta até à extinção.

Há nele, como na peste, uma espécie de estranho sol, uma luz de intensidade anormal onde parece que o difícil, e até mesmo o impossível, de repente se fazem nosso elemento normal. Como todo o teatro verdadeiramente válido, a Annabellade Ford está sob o brilho desse estranho sol. Assemelha-se à liberdade da peste em que o agonizante dilata a sua personagem grau a grau, escalão a escalão, em que o vivo se faz, sucessivamente e à proporção, uma grandiosa e sobretensa criatura.

Pode agora dizer-se que toda a verdadeira liberdade do sexo, que também é negra sem que saibamos muito bem porquê. Porque o Eros platónico, o sentido genésico e a liberdade de vida desde há muito desapareceram sob o revestimento sombrio da Líbido que identificamos com tudo quanto há de sujo, abjecto, infamante no facto de vivermos, nos precipitarmos para a vida com um vigor natural e impuro, com uma força sempre renovada.

Por isso todos os grandes mitos são negros, e fora de uma atmosfera de carnificina, tortura e sangue derramado, não nos é possível imaginar todas essas magníficas Fábulas que às multidões contam a primeira partilha sexual e a primeira carnificina de essências que aparecem na criação.

Como a peste, o teatro é à imagem deste massacre, desta essencial separação. Deslinda conflitos, liberta forças, provoca possibilidades, e se estas possibilidades e estas forças forem negras, a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida.

A vida, tal como é e no-la fizeram, não vemos que ofereça muitos temas de exaltação. Dir-se-á que através da peste, e colectivamente, um gigantesco abcesso tão moral como social se esvazia; e, tal como a peste, o teatro é feito para esvaziar abcessos colectivamente.

 

Eu, António Artaud, tradução e apresentação de Aníbal Fernandes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007.