O prazer de (com)parar #19

ILCML

(…)
Winston parou de ler por momentos. Algures, muito ao longe, a deflagração de uma bomba. Sentia-se feliz por estar ali sozinho com o livro proibido, numa sala sem telecrã: isso não se desvanecera. A solidão e a segurança manifestavam-se nele como sensações físicas, de certo modo confundindo-se com o cansaço do seu corpo, a moleza da cadeira, o contacto da leve brisa a afagar-lhe o rosto. O livro fascinava-o ou, mais precisamente, tranquilizava-o. Diga-se que não lhe trazia nada de novo, mas tal fazia parte da atracção sobre ele exercida. Afinal afirmava tudo quanto ele próprio teria dito, se conseguisse pôr no papel algumas ideias dispersas. Era o produto de um espírito semelhante ao seu, mas incomensuravelmente mais capaz, mais sistemático, menos tolhido pelo medo. Winston percebeu que os livros melhores são justamente os que nos dizem aquilo que já sabemos. Acabava de voltar ao Capítulo I quando ouviu os passos de Julia na escada; levantou-se logo da cadeira para a receber. Ela pousou no chão o saco castanho das ferramentas e caiu-lhe nos braços. Passara mais de uma semana sem se verem.
– Já tenho o livro – disse Winston, quando se separaram.
– Ai sim? Óptimo – disse ela, sem manifestar grande interesse, e quase a seguir pôs-se de joelhos diante do fogareiro a preparar o café.
Decorrera meia hora quando, na cama, voltaram ao assunto. A tarde, algo fresca, obrigou-os a taparem-se com a colcha. Lá em baixo, o som familiar das cantigas e dos pés a arrastar na laje. A mulher corpulenta, de braços vermelhos, que Winston vira na sua primeira visita, era quase um adereço daquele pátio. Aparentemente, não havia hora do dia em que não andasse cá e lá, entre o alguidar e o estendal, ora amordaçando-se com molas da roupa, ora irrompendo em alegre cantoria. Julia deitara-se de lado, prestes a adormecer. Ele estendeu a mão para o livro, caído no chão, e encostou-se à cabeceira da cama.
– Temos que lê-lo – disse. – Tu também. Todos os membros da Fraternidade têm que lê-lo.
– Lê tu – sugeriu ela, com os olhos fechados. – Lê em voz alta. É a melhor maneira. Assim podes-me ir explicando à medida que lês.
Os ponteiros do relógio marcavam as seis, ou seja, dezoito. Tinham três ou quatro horas à sua frente. Winston apoiou o livro nos joelhos e começou a ler:

Capítulo I
Ignorância é Força
Desde que há documentos escritos, e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, foram-lhes atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes recíprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo, tal como um giroscópio volta sempre ao ponto de equilíbrio por muito bruscamente que o desloquem nesta ou naquela direcção.

– Julia, estás acordada? – disse Winston.
– Claro, meu amor, estou a ouvir. Continua. É óptimo.
(…)

George Orwell, 1984, tradução de Ana Luísa Faria, pp. 208-209.