O prazer de (com)parar #9

ILCML

«An Die Nachgeborenen», de Bertholt Brecht

I
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! / Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn /
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende / Hat die furchtbare Nachricht / Nur
noch nicht empfangen. // Was sind das für Zeiten, wo / Ein Gespräch über Bäume fast
ein Verbrechen ist. / Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt! / Der dort
ruhig über die Straße geht / Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde / Die in
Not sind? // Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt / Aber glaubt mir: das ist
nur ein Zufall. Nichts / Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen. /
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.) // Man sagt
mir: iß und trink du! Sei froh, daß du hast! / Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
/ Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und / Mein Glas Wasser einem
Verdurstenden fehlt? / Und doch esse und trinke ich. // Ich wäre gerne auch weise. / In
den alten Büchern steht, was weise ist: / Sich aus dem Streit der Welt halten und die
kurze Zeit / Ohne Furcht verbringen / Auch ohne Gewalt auskommen / Böses mit
Gutem vergelten / Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen / Gilt für weise. /
Alles das kann ich nicht: / Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

II
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung / Als da Hunger herrschte. / Unter die
Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs / Und ich empörte mich mit ihnen. / So
verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. // Mein Essen aß ich zwischen den
Schlachten / Schlafen legte ich mich unter die Mörder / Der Liebe pflegte ich achtlos /
Und die Natur sah ich ohne Geduld. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir
gegeben war. / Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit. / Die Sprache verriet
mich dem Schlächter. / Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden / Saßen ohne
mich sicherer, das hoffte ich. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war.
// Die Kräfte waren gering. Das Ziel / Lag in großer Ferne / Es war deutlich sichtbar,
wenn auch für mich / Kaum zu erreichen. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir
gegeben war.

III
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut / In der wir untergegangen sind / Gedenkt /
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht / Auch der finsteren Zeit / Der ihr entronnen
seid. // Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd / Durch die Kriege
der Klassen, verzweifelt / Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung. // Dabei
wissen wir doch: / Auch der Haß gegen die Niedrigkeit / verzerrt die Züge. / Auch der
Zorn über das Unrecht / Macht die Stimme heiser. Ach, wir / Die wir den Boden
bereiten wollten für Freundlichkeit / Konnten selber nicht freundlich sein. // Ihr aber,
wenn es so weit sein wird / Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist / Gedenkt
unserer / Mit Nachsicht.

«Aos Que Vierem Depois De Nós» por Bertholt Brecht
I
Realmente, vivemos tempos sombrios! / A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas /
denota insensibilidade. Aquele que ri / ainda não recebeu a terrível notícia / que está
para chegar. // Que tempos são estes, em que / é quase um delito / falar de coisas
inocentes. / Pois implica silenciar tantos horrores! / Esse que cruza tranqüilamente a rua
/ não poderá jamais ser encontrado / pelos amigos que precisam de ajuda? // É certo:
ganho o meu pão ainda, / Mas acreditai-me: é pura casualidade. / Nada do que faço
justifica / que eu possa comer até fartar-me. / Por enquanto as coisas me correm bem /
(se a sorte me abandonar estou perdido). / E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois
tens o quê!”
Mas como posso comer e beber, / se ao faminto arrebato o que como, / se o copo de
água falta ao sedento? / E todavia continuo comendo e bebendo. // Também gostaria de
ser um sábio. / Os livros antigos nos falam da sabedoria: / é quedar-se afastado das lutas
do mundo / e, sem temores, / deixar correr o breve tempo. Mas / evitar a violência, /
retribuir o mal com o bem, / não satisfazer os desejos, antes esquecê-los / é o que
chamam sabedoria. / E eu não posso fazê-lo. Realmente, / vivemos tempos sombrios.

II
Para as cidades vim em tempos de desordem, / quando reinava a fome. / Misturei-me
aos homens em tempos turbulentos / e indignei-me com eles. / Assim passou o tempo /
que me foi concedido na terra. // Comi o meu pão em meio às batalhas. / Deitei-me para
dormir entre os assassinos. / Do amor me ocupei descuidadamente / e não tive paciência
com a Natureza. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // No meu
tempo as ruas conduziam aos atoleiros. / A palavra traiu-me ante o verdugo. / Era muito
pouco o que eu podia. Mas os governantes / Se sentiam, sem mim, mais seguros, —
espero. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // As forças eram
escassas. E a meta / achava-se muito distante. / Pude divisá-la claramente, / ainda
quando parecia, para mim, inatingível. / Assim passou o tempo / que me foi concedido
na terra.

III
Vós, que surgireis da maré / em que perecemos, / lembrai-vos também, / quando
falardes das nossas fraquezas, / lembrai-vos dos tempos sombrios / de que pudestes
escapar. // Íamos, com efeito, / mudando mais freqüentemente de país / do que de
sapatos, / através das lutas de classes, / desesperados, / quando havia só injustiça e
nenhuma indignação. // E, contudo, sabemos / que também o ódio contra a baixeza /
endurece a voz. Ah, os que quisemos / preparar terreno para a bondade / não pudemos
ser bons. / Vós, porém, quando chegar o momento / em que o homem seja bom para o
homem, / lembrai-vos de nós / com indulgência.

Bertholt Brecht, “Aos que vierem depois de nós”, tradução de Manuel Bandeira