O prazer de (com)parar

Todos os investigadores do ILC foram convidados a colaborar, durante o mês de Abril de 2020, na elaboração de um «Decameron do século XXI», sob a égide d’ “O prazer de (com)parar”, que, de algum modo, resgatasse os sentidos instigadores e enriquecedores contidos em palavras como «contágio» e «contaminação», e que naturalmente integram o nosso glossário de investigação.
Agradecemos a todos o contributo para este desafio, e pedimos desculpa pelas sugestões que não couberam no mês de Abril – o mais cruel dos meses, como lhe chamou T.S. Eliot – que nem em ano bissexto tem mais que 30 dias…

O Prazer de Comparar #19 – (30/04/2020)

(…)
Winston parou de ler por momentos. Algures, muito ao longe, a deflagração de uma bomba. Sentia-se feliz por estar ali sozinho com o livro proibido, numa sala sem telecrã: isso não se desvanecera. A solidão e a segurança manifestavam-se nele como sensações físicas, de certo modo confundindo-se com o cansaço do seu corpo, a moleza da cadeira, o contacto da leve brisa a afagar-lhe o rosto. O livro fascinava-o ou, mais precisamente, tranquilizava-o. Diga-se que não lhe trazia nada de novo, mas tal fazia parte da atracção sobre ele exercida. Afinal afirmava tudo quanto ele próprio teria dito, se conseguisse pôr no papel algumas ideias dispersas. Era o produto de um espírito semelhante ao seu, mas incomensuravelmente mais capaz, mais sistemático, menos tolhido pelo medo. Winston percebeu que os livros melhores são justamente os que nos dizem aquilo que já sabemos. Acabava de voltar ao Capítulo I quando ouviu os passos de Julia na escada; levantou-se logo da cadeira para a receber. Ela pousou no chão o saco castanho das ferramentas e caiu-lhe nos braços. Passara mais de uma semana sem se verem.
– Já tenho o livro – disse Winston, quando se separaram.
– Ai sim? Óptimo – disse ela, sem manifestar grande interesse, e quase a seguir pôs-se de joelhos diante do fogareiro a preparar o café.
Decorrera meia hora quando, na cama, voltaram ao assunto. A tarde, algo fresca, obrigou-os a taparem-se com a colcha. Lá em baixo, o som familiar das cantigas e dos pés a arrastar na laje. A mulher corpulenta, de braços vermelhos, que Winston vira na sua primeira visita, era quase um adereço daquele pátio. Aparentemente, não havia hora do dia em que não andasse cá e lá, entre o alguidar e o estendal, ora amordaçando-se com molas da roupa, ora irrompendo em alegre cantoria. Julia deitara-se de lado, prestes a adormecer. Ele estendeu a mão para o livro, caído no chão, e encostou-se à cabeceira da cama.
– Temos que lê-lo – disse. – Tu também. Todos os membros da Fraternidade têm que lê-lo.
– Lê tu – sugeriu ela, com os olhos fechados. – Lê em voz alta. É a melhor maneira. Assim podes-me ir explicando à medida que lês.
Os ponteiros do relógio marcavam as seis, ou seja, dezoito. Tinham três ou quatro horas à sua frente. Winston apoiou o livro nos joelhos e começou a ler:

Capítulo I
Ignorância é Força
Desde que há documentos escritos, e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, foram-lhes atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes recíprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo, tal como um giroscópio volta sempre ao ponto de equilíbrio por muito bruscamente que o desloquem nesta ou naquela direcção.

– Julia, estás acordada? – disse Winston.
– Claro, meu amor, estou a ouvir. Continua. É óptimo.
(…)

George Orwell, 1984, tradução de Ana Luísa Faria, pp. 208-209.

O Prazer de Comparar #18 – (29/04/2020)

A dança como expressão contagiosa da angústia: num mundo tecno-industrializado, rotinado, desde os gestos estropiados pelas fábricas aos trejeitos absurdos da vida de escritório, da falsa ergonomia dos automóveis ao encolher de barriga em hora de ponta no metro enquanto o polegar desliza até ao infinito pelo ecrã do telemóvel, a dança tanto pode ser um frémito de desespero, revolta epiléptica do corpo, como a (re)ritualização e estranhamento dos movimentos quotidianos, um convite a sacudir o corpo do seu ensimesmamento. A dança é “uma experiência humana […] fundadora de uma nova poética. É, certamente, uma experiência utópica no sentido em que inventa um ‘lugar’ até aí inexistente […].” (Laurence Louppe, Poética da Dança Contemporânea). Se, no espaço público, um de nós aceder a esse lugar, haverá outros que se lhe juntem?

Andreia Faria, “Danças, dissidência e as linguagens de contágio: algumas notas soltas” (22.04.2020), in https://ionline.sapo.pt/artigo/693964/dancas-dissid-ncia-e-as-linguagens-do-contagio-algumas-notas-soltas?seccao=Mais_i

O Prazer de Comparar #17 – (28/04/2020)

MÉTHODE : CARESSE

Dialogue tactile, réciprocité du touchant et du touché. Vers ce qui me touche s’avance ma main. Par exemple, lorsque tu t’endors et que me touche ton abandon, et que je pose ma main sur ton sein. Cela m’étonne toujours de constater qu’en dépit de ta respiration – qui est déjà mouvement –, mes propres doigts s’oublient peu à peu s’ils restent immobiles. Alors je les déplace un peu, à peine, pour ne pas te réveiller, en sorte que reste vivante ma sensation, et cela s’appelle une caresse. Rien ne se touche qui ne le soit en mouvement.
Si je traduis cette petite expérience en termes de méthode : vers ce qui me touche j’avance quelques mots. Et je constate qu’en dépit de leurs significations respectives – et de leurs différences –, les mots s’oublient peu à peu s’ils restent immobiles. Alors je les déplace un peu pour tenir vivante ma pensée, et cela s’appelle un phrasé. Rien ne s’écrit qui ne le soit en mouvement. Je ne comprendrai rien si je veux seulement prendre. Prendre c’est immobiliser, immobiliser c’est ne pas comprendre. Il me faut donc accepter de ne prendre qu’au passage, qu’au vol, et de n’avoir pour tout trésor que les lambeaux d’un mouvement, les draperies ou les « traînes » de mes propres sensations.
Il faut, certes, donner forme, et sans relâche. Faire exister ce qui ne fait que passer. Inscrire l’aperçue*. Mais ne rien tenir immobile, pour que la caresse ne se fige pas, pour que le mot ne devienne pas mot d’ordre et pour que la forme ne devienne pas fétiche. Donc, donner bientôt une autre forme, une nouvelle forme. Assumer pour chaque forme – une phrase imprimée, un livre sont des formes – qu’elle soit transitoire, qu’elle se déplace sans relâche sur le corps du monde, comme une caresse.

(17.12.2011)
Georges Didi-Huberman, Aperçues, Paris, Les éditions de minuit, 2018.

* «Aperçues» est le terme appliqué aux images par G. Didi-Huberman, et qui donne son titre à ce livre à partir d’une proposition de Celan. « Et que seraient alors les images ?/Ce qui, une fois, et c’est chaque fois la seule fois, c’est seulement ici et seulement maintenant, est aperçu et à percevoir ». Paul Celan, Le Méridien (1960)

MÉTODO: CARÍCIA

Diálogo táctil, reciprocidade do tocando e do tocado. Para aquilo que me toca adianta-se-me a mão. Por exemplo, quando adormeces e me tocas no teu abandono, e pouso a mão no teu seio. Fico sempre atónito ao constatar que não obstante a tua respiração – que é desde já movimento –, esquecem-se-me aos poucos os próprios dedos se ficarem imóveis. Então, desloco-os um pouco, um quase nada, para não te acordar, de forma a que a minha sensação fique viva, eis o que se chama uma carícia. Nada se toca que não seja em movimento.
Se eu traduzir esta pequena experiência em termos de método: para aquilo que me toca adianto algumas palavras. E constato que, apesar das suas significações respetivas, – e das suas diferenças –, esquecem-se aos poucos as palavras se ficarem imóveis. Então, desloco-as um nada para manter vivo o meu pensamento, eis o que se chama um fraseado. Nada se escreve sem que seja em movimento. Nada hei-de compreender se apenas quiser apanhar. Apanhar é imobilizar, imobilizar é não compreender. Tenho pois que aceitar só apanhar de passagem, por alto, e ter como único tesouro os retalhos de um movimento, os drapeados ou as « caudas » das minhas próprias sensações.
Temos decerto que dar forma, incansavelmente. Fazer existir aquilo que só passa. Inscrever a apercebida*. Mas não manter nada imóvel, para a carícia não se congelar, para a palavra não se fazer palavra de ordem e para a forma não se fazer fetiche. Portanto, dar sem demora outra forma, uma nova forma. Assumir para cada forma – uma frase impressa, um livro são formas – que seja transitória, que se desloque incansavelmente pelo corpo do mundo, como uma carícia.

(17.12.2011)
Traduzido por Catherine Dumas

* «Aperçues» é o termo aplicado às imagens por G. Didi-Huberman, que dá o seu título a este livro a partir de uma proposta de Celan. « O que seriam então as imagens?/Aquilo que, uma vez, e de cada vez é a única vez, é só aqui e só agora, é apercebido e por perceber. » Paul Celan, Le Méridien (1960).

O Prazer de Comparar #16 – (27/04/2020)

ILCML

Ingmar Bergman, Fotograma do filme Persona  (1966)

O Prazer de Comparar #15 – (24/04/2020)

CORAGEM E CORAÇÃO

com pouco mais que serrim e aparas
dirão que está pronta a língua do carpinteiro
cujo único fito é perguntar-me
se podem pagar-me a pronto
e em géneros

dirão da oficina dirão da tão luz amarela a oficina
deste poente dilatado na retina
e na ampulheta
que só será sinal de decadência
para os que já decadentes são

debaixo da mesa
a ternura e a tremura
da criança subtraída à companhia dos seus
transformou-se no gesto preciso e felino
de arranhar pele até a carne ser guitarra

onde escondeste a coragem
o coração e a completude
nestas horas de ouro interminável?
aquela que mostraste o que só a ti pertencia
e era quase casco do navio língua?

ó pai que me abandonaste
nessa idade de se ser abandonado
de se ficar infinitamente só
por entre gentes, lentes e dentes,
ó pai que horas são na tua eternidade?

Regina Guimarães (inédito)

O Prazer de Comparar #14 – (23/04/2020)

Poem #314 (c. 1862)

“Hope” is the thing with feathers –
That perches in the soul –
And sings the tune without the words –
And never stops – at all –

And sweetest – in the Gale – is heard –
And sore must be the storm –
That could abash the little Bird
That kept so many warm –

I’ve heard it in the chillest land –
And on the strangest Sea –
Yet – never – in Extremity,
It asked a crumb – of me.

Emily Dickinson, The Poems of Emily Dickinson. Ed. R. W. FRanklin. Cambridge, Massachusetts, and London, England: The Belknap Press of Harvard University Press, 1999.

O Prazer de Comparar #13 – (22/04/2020)

QUATRE FAÇONS DE CRACHER DE L’ÂME

Première façon : Atchoum ! Tu éternues en crachant vers moi une myriade de postillons. À cela je réponds poliment, comme on me l’a, depuis toujours, appris, et quelle que soit ma crainte d’attraper ton rhume : À tes souhaits ! Si tu avais toussé, par exemple, je n’aurais rien dit. Porquoi ? Porquoi cette obligation particulière vis-à-vis de l’éternuement ? Porquoi cette formule automatique et pratiquement dénuée de sens, ou alors pourvue d’un sens qui n’est plus tout à fait à ma disposition consciente ? Sans son livre Primitive Culture, publié en 1871 – et l’un des ouvrages fondateurs de la science ethnologique moderne –, Edward B. Tylor consacra un long passage aux coutumes liées à l’éternuement. Ces coutumes apparaissaient à ses yeux comme des «survivances» (survivals), au même titre que les pratiques divinatoires, des dictons ancestraux, les rituels de fondation ou encore les jeux enfantins. En sorte qu’observer ce qui se passe lorsque quelqu’un éternue, aujourd’hui même, serait «apprendre comment les vieilles coutumes conservent leurs racines dans un sol bouleversé par une nouvelle culture» ou la nouvelle époque historique d’une culture donnée.

Éternuer : présage en tout cas. Bon ou mauvais. Affaire d’âmes et de mouvements, fastes ou néfastes. Soit tu craches un peu de ton âme alentour, soit il s’agit d’une âme errante qui vient te chatouiller les narines. En éternuant tu montres que tu es en pleine forme – c’est-à-dire en plein communication avec les âmes – ou, au contraire, qu’une grave maladie te guette. Dans l’Odyssée, à un moment, Télémaque «éternue très fort» et Pénélope se met aussiôt à rire aux éclats, parce qu’elle a compris qu’il s’agissait d’un préssage heureux : «N’entends-tu pas mon fils éternuer à mes souhaits ?» Pétrone évoque la formule Salve !que l’on prononce à l’adresse de toute personne qui éternue. On dira Felicità ! en Italie, Gott hilf ! en Allemagne. Tylor raconte l’histoire d’une tribu étrange : quand le chef éternuait, tout le village se mettait à l’acclamer bruyamment, à tomber en prosternation, à embrasser la terre ou bien à battre des mains comme on applaudit une divade théâtre. Si l’on considère l’éternuement comme un signe néfaste – en temps de peste, par exemple -, on se détournera simplement en criant Loin de moi !

Deuxième façon : filets de bave. J’entendais l’autre jour Luis Pérez Oramas – qui prépare, au Museum of Modern Art de New York, une grande rétrospective consacrée à Lygia Clark – parler de cette œuvre fascinante intitulée Baba antropofágica, «Bave anthropophagique». C’était en 1973. Lygia Clark avait réuni plusieurs personnes autour d’un jeune homme nu étendu sur le dos ; chacune d’elle avait dans la bouche une pelote de fil qu’elle dévidait, enduit de la salive, sur tout le corps du jeune homme peu à peu emmailloté dans les fils comme un nouveau-né dans un cocon ou une mouche dans le piège de l’araignée.

Troisième façon (qui prolonge le paradigme de l’araignée) : drapé craché. Tu trempes un long châle de soie dans une substance huileuse et tu l’avales. C’est une technique classique des magiciens de foire. Quand le photographe arrive, tu commences ta mise en scène de «médium» : tu communiques avec les âmes. Au moment propice, tu pousses un long râle et tu vomis la draperie de ta bouche comme si c’était l’ectoplasme de Nostradamus en personne. Le photographe – tel Albert von Schrenck-Notzing en 1912-1013 – réalise d’admirables clichés où chacun verra bien que tu crachais des «âmes matérialisées» sous forme de «voiles ectoplasmiques».

Une dernière façon serait de mourir, tout simplement. En 1907, le médecin américain Duncan MacDougall prit le poids exact de six patients moribonds, avant et après leur mort. Il constata un léger écart qui était, selon lui, inexplicable biologiquement. Il en déduisit qu’il s’agissait du poids de l’âme exhalée au moment de la mort. Reconduisant l’expérience sur des chiens qu’il empoisonnait systématiquement, il ne constata aucune différence notable. Il se crut donc en possession à la fois d’une preuve que les animaux n’ont pas d’âme et d’une donnée expérimentale lui permettant de déduire le poids exact d’une âme humaine : vingt et un grammes. On n’arrête ni le progrès, ni la régression.

(14.11.2013)

Georges Didi-Huberman, Aperçues, Les Éditions Minuit, 2018

O Prazer de Comparar #12 – (21/04/2020)

Ode aos livros
que não posso comprar

Hoje, fiz uma lista de livros,
e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
– sem eles, também eu morreria de fome, porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.

Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

Jorge de Sena,1944

O Prazer de Comparar #11 – (20/04/2020)

Le point de non-retour

C’était hier
plage noire de la Caspienne
sur des racines blanchies rejetées par la mer
sur de menus éclats de bambou
nous faisions cuire un tout petit poisson
sa chair rose
prenait une couleur de fumée

Douce pluie d’automne
cœur au chaud  sous la laine
au Nord
un fabuleux champignon d’orage
montait sur la Crimée
et s’étendait jusqu’à la Chine

Ce midi-là
la vie était si égarante et bonne
que tu lui as dit ou plutôt murmuré
« va-t’en me perdre où tu voudras »
Les vagues ont répondu « tu n’en reviendras pas ».

Trébizonde, 1953.

Nicolas Bouvier, Le Dehors et le Dedans, poèmes, Carouge-Genève, Editions Zoé, 1997.

O Prazer de Comparar #10 – (17/04/2020)

(…)

Tal como a peste, o teatro é pois um apelo formidável de forças que, através do exemplo, conduzem o espírito à fonte dos seus conflitos. E o exemplo passional de Ford não passa, sentimo-lo muito bem, do símbolo de um trabalho mais grandioso e absolutamente essencial.

A aterrorizadora aparição do Mal que os Mistérios de Elêusis ofereciam na sua forma pura, e que era completamente revelada, responde ao tempo negro de certas tragédias antigas, que todo o verdadeiro teatro deve reencontrar.

Se o teatro essencial é como a peste, não será porque contagia mas porque é, como a peste, a revelação, o arranque, a projecção para o exterior de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam, num indivíduo ou num povo, todas as possibilidades perversas do espírito.

Como a peste, é o tempo do mal, o triunfo das forças negras que uma força ainda mais profunda alimenta até à extinção.

Há nele, como na peste, uma espécie de estranho sol, uma luz de intensidade anormal onde parece que o difícil, e até mesmo o impossível, de repente se fazem nosso elemento normal. Como todo o teatro verdadeiramente válido, a Annabellade Ford está sob o brilho desse estranho sol. Assemelha-se à liberdade da peste em que o agonizante dilata a sua personagem grau a grau, escalão a escalão, em que o vivo se faz, sucessivamente e à proporção, uma grandiosa e sobretensa criatura.

Pode agora dizer-se que toda a verdadeira liberdade do sexo, que também é negra sem que saibamos muito bem porquê. Porque o Eros platónico, o sentido genésico e a liberdade de vida desde há muito desapareceram sob o revestimento sombrio da Líbido que identificamos com tudo quanto há de sujo, abjecto, infamante no facto de vivermos, nos precipitarmos para a vida com um vigor natural e impuro, com uma força sempre renovada.

Por isso todos os grandes mitos são negros, e fora de uma atmosfera de carnificina, tortura e sangue derramado, não nos é possível imaginar todas essas magníficas Fábulas que às multidões contam a primeira partilha sexual e a primeira carnificina de essências que aparecem na criação.

Como a peste, o teatro é à imagem deste massacre, desta essencial separação. Deslinda conflitos, liberta forças, provoca possibilidades, e se estas possibilidades e estas forças forem negras, a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida.

A vida, tal como é e no-la fizeram, não vemos que ofereça muitos temas de exaltação. Dir-se-á que através da peste, e colectivamente, um gigantesco abcesso tão moral como social se esvazia; e, tal como a peste, o teatro é feito para esvaziar abcessos colectivamente.

Eu, António Artaud, tradução e apresentação de Aníbal Fernandes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2007.

O Prazer de Comparar #9 – (16/04/2020)

«An Die Nachgeborenen», de Bertholt Brecht

I
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! / Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn /
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende / Hat die furchtbare Nachricht / Nur
noch nicht empfangen. // Was sind das für Zeiten, wo / Ein Gespräch über Bäume fast
ein Verbrechen ist. / Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt! / Der dort
ruhig über die Straße geht / Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde / Die in
Not sind? // Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt / Aber glaubt mir: das ist
nur ein Zufall. Nichts / Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen. /
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.) // Man sagt
mir: iß und trink du! Sei froh, daß du hast! / Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
/ Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und / Mein Glas Wasser einem
Verdurstenden fehlt? / Und doch esse und trinke ich. // Ich wäre gerne auch weise. / In
den alten Büchern steht, was weise ist: / Sich aus dem Streit der Welt halten und die
kurze Zeit / Ohne Furcht verbringen / Auch ohne Gewalt auskommen / Böses mit
Gutem vergelten / Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen / Gilt für weise. /
Alles das kann ich nicht: / Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!

II
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung / Als da Hunger herrschte. / Unter die
Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs / Und ich empörte mich mit ihnen. / So
verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war. // Mein Essen aß ich zwischen den
Schlachten / Schlafen legte ich mich unter die Mörder / Der Liebe pflegte ich achtlos /
Und die Natur sah ich ohne Geduld. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir
gegeben war. / Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit. / Die Sprache verriet
mich dem Schlächter. / Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden / Saßen ohne
mich sicherer, das hoffte ich. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir gegeben war.
// Die Kräfte waren gering. Das Ziel / Lag in großer Ferne / Es war deutlich sichtbar,
wenn auch für mich / Kaum zu erreichen. / So verging meine Zeit / Die auf Erden mir
gegeben war.

III
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut / In der wir untergegangen sind / Gedenkt /
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht / Auch der finsteren Zeit / Der ihr entronnen
seid. // Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd / Durch die Kriege
der Klassen, verzweifelt / Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung. // Dabei
wissen wir doch: / Auch der Haß gegen die Niedrigkeit / verzerrt die Züge. / Auch der
Zorn über das Unrecht / Macht die Stimme heiser. Ach, wir / Die wir den Boden
bereiten wollten für Freundlichkeit / Konnten selber nicht freundlich sein. // Ihr aber,
wenn es so weit sein wird / Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist / Gedenkt
unserer / Mit Nachsicht.

«Aos Que Vierem Depois De Nós» por Bertholt Brecht
I
Realmente, vivemos tempos sombrios! / A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas /
denota insensibilidade. Aquele que ri / ainda não recebeu a terrível notícia / que está
para chegar. // Que tempos são estes, em que / é quase um delito / falar de coisas
inocentes. / Pois implica silenciar tantos horrores! / Esse que cruza tranqüilamente a rua
/ não poderá jamais ser encontrado / pelos amigos que precisam de ajuda? // É certo:
ganho o meu pão ainda, / Mas acreditai-me: é pura casualidade. / Nada do que faço
justifica / que eu possa comer até fartar-me. / Por enquanto as coisas me correm bem /
(se a sorte me abandonar estou perdido). / E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois
tens o quê!”
Mas como posso comer e beber, / se ao faminto arrebato o que como, / se o copo de
água falta ao sedento? / E todavia continuo comendo e bebendo. // Também gostaria de
ser um sábio. / Os livros antigos nos falam da sabedoria: / é quedar-se afastado das lutas
do mundo / e, sem temores, / deixar correr o breve tempo. Mas / evitar a violência, /
retribuir o mal com o bem, / não satisfazer os desejos, antes esquecê-los / é o que
chamam sabedoria. / E eu não posso fazê-lo. Realmente, / vivemos tempos sombrios.

II
Para as cidades vim em tempos de desordem, / quando reinava a fome. / Misturei-me
aos homens em tempos turbulentos / e indignei-me com eles. / Assim passou o tempo /
que me foi concedido na terra. // Comi o meu pão em meio às batalhas. / Deitei-me para
dormir entre os assassinos. / Do amor me ocupei descuidadamente / e não tive paciência
com a Natureza. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // No meu
tempo as ruas conduziam aos atoleiros. / A palavra traiu-me ante o verdugo. / Era muito
pouco o que eu podia. Mas os governantes / Se sentiam, sem mim, mais seguros, —
espero. / Assim passou o tempo / que me foi concedido na terra. // As forças eram
escassas. E a meta / achava-se muito distante. / Pude divisá-la claramente, / ainda
quando parecia, para mim, inatingível. / Assim passou o tempo / que me foi concedido
na terra.

III
Vós, que surgireis da maré / em que perecemos, / lembrai-vos também, / quando
falardes das nossas fraquezas, / lembrai-vos dos tempos sombrios / de que pudestes
escapar. // Íamos, com efeito, / mudando mais freqüentemente de país / do que de
sapatos, / através das lutas de classes, / desesperados, / quando havia só injustiça e
nenhuma indignação. // E, contudo, sabemos / que também o ódio contra a baixeza /
endurece a voz. Ah, os que quisemos / preparar terreno para a bondade / não pudemos
ser bons. / Vós, porém, quando chegar o momento / em que o homem seja bom para o
homem, / lembrai-vos de nós / com indulgência.

Bertholt Brecht, “Aos que vierem depois de nós”, tradução de Manuel Bandeira

O Prazer de Comparar #8 – (15/04/2020)

(…)

Les curieux événements qui font le sujet de cette chronique se sont produits en 194., à Oran. De l’avis général, ils n’y étaient pas à leur place, sortant un peu de l’ordinaire. À première vue, Oran est, en effet, une ville ordinaire et rien de plus qu’une préfecture française de la côte algérienne.

La cité elle-même, on doit l’avouer, est laide. D’aspect tranquille, il faut quelque temps pour apercevoir ce qui la rend différente de tant d’autres villes commerçantes, sous toutes les latitudes. Comment faire imaginer, par exemple, une ville sans pigeons, sans arbres et sans jardins, où l’on ne rencontre ni battements d’ailes ni froissements de feuilles, un lieu neutre pour tout dire ? Le changement des saisons ne s’y lit que dans le ciel. Le printemps s’annonce seulement par la qualité de l’air ou par les corbeilles de fleurs que des petits vendeurs ramènent des banlieues ; c’est un printemps qu’on vend sur les marchés. Pendant l’été, le soleil incendie les maisons trop sèches et couvre les murs d’une cendre grise ; on ne peut plus vivre alors que dans l’ombre des volets clos. En automne, c’est, au contraire, un déluge de boue. Les beaux jours viennent seulement en hiver. Une manière commode de faire la connaissance d’une ville est de chercher comment on y travaille, comment on y aime et comment on y meurt. Dans notre petite ville, est-ce l’effet du climat, tout cela se fait ensemble, du même air frénétique et absent. C’est-à-dire qu’on s’y ennuie et qu’on s’y applique à prendre des habitudes. Nos concitoyens travaillent beaucoup, mais toujours pour s’enrichir. Ils s’intéressent surtout au commerce et ils s’occupent d’abord, selon leur expression, de faire des affaires. Naturellement ils ont du goût aussi pour les joies simples, ils aiment les femmes, le cinéma et les bains de mer. Mais, très raisonnablement, ils réservent ces plaisirs pour le samedi soir et le dimanche, essayant, les autres jours de la semaine, de gagner beaucoup d’argent. Le soir, lorsqu’ils quittent leurs bureaux, ils se réunissent à heure fixe dans les cafés, ils se promènent sur le même boulevard ou bien ils se mettent à leurs balcons. Les désirs des plus jeunes sont violents et brefs, tandis que les vices des plus âgés ne dépassent pas les associations de boulomanes, les banquets des amicales et les cercles où l’on joue gros jeu sur le hasard des cartes. On dira sans doute que cela n’est pas particulier à notre ville et qu’en somme tous nos contemporains sont ainsi. Sans doute, rien n’est plus naturel, aujourd’hui, que de voir des gens travailler du matin au soir et choisir ensuite de perdre aux cartes, au café, et en bavardages, le temps qui leur reste pour vivre. Mais il est des villes et des pays où les gens ont, de temps en temps, le soupçon d’autre chose. En général, cela ne change pas leur vie. Seulement, il y a eu le soupçon et c’est toujours cela de gagné. Oran, au contraire, est apparemment une ville sans soupçons, c’est-à-dire une ville tout à fait moderne.

Il n’est pas nécessaire, en conséquence, de préciser la façon dont on s’aime chez nous. Les hommes et les femmes, ou bien se dévorent rapidement dans ce qu’on appelle l’acte d’amour, ou bien s’engagent dans une longue habitude à deux. Entre ces extrêmes, il n’y a pas souvent de milieu. Cela non plus n’est pas original. À Oran comme ailleurs, faute de temps et de réflexion, on est bien obligé de s’aimer sans le savoir. Ce qui est plus original dans notre ville est la difficulté qu’on peut y trouver à mourir. Difficulté, d’ailleurs, n’est pas le bon mot et il serait plus juste de parler d’inconfort. Ce n’est jamais agréable d’être malade, mais il y a des villes et des pays qui vous soutiennent dans la maladie, où l’on peut, en quelque sorte, se laisser aller. Un malade a besoin de douceur, il aime à s’appuyer sur quelque chose, c’est bien naturel. Mais à Oran, les excès du climat, l’importance des affaires qu’on y traite, l’insignifiance du décor, la rapidité du crépuscule et la qualité des plaisirs, tout demande la bonne santé. Un malade s’y trouve bien seul. Qu’on pense alors à celui qui va mourir, pris au piège derrière des centaines de murs crépitants de chaleur, pendant qu’à la même minute, toute une population, au téléphone ou dans les cafés, parle de traites, de connaissements et d’escompte. On comprendra ce qu’il peut y avoir d’inconfortable dans la mort, même moderne, lorsqu’elle survient ainsi dans un lieu sec. Ces quelques indications donnent peut-être une idée suffisante de notre cité. Au demeurant, on ne doit rien exagérer. Ce qu’il fallait souligner, c’est l’aspect banal de la ville et de la vie. Mais on passe ses journées sans difficultés aussitôt qu’on a des habitudes. Du moment que notre ville favorise justement les habitudes, on peut dire que tout est pour le mieux. Sous cet angle, sans doute, la vie n’est pas très passionnante. Du moins, on ne connaît pas chez nous le désordre. Et notre population franche, sympathique et active, a toujours provoqué chez le voyageur une estime raisonnable. Cette cité sans pittoresque, sans végétation et sans âme finit par sembler reposante, on s’y endort enfin. Mais il est juste d’ajouter qu’elle s’est greffée sur un paysage sans égal, au milieu d’un plateau nu, entouré de collines lumineuses, devant une baie au dessin parfait. On peut seulement regretter qu’elle se soit construite en tournant le dos à cette baie et que, partant, il soit impossible d’apercevoir la mer qu’il faut toujours aller chercher. Arrivé là, on admettra sans peine que rien ne pouvait faire espérer à nos concitoyens les incidents qui se produisirent au printemps de cette année-là et qui furent, nous le comprîmes ensuite, comme les premiers signes de la série des graves événements dont on s’est proposé de faire ici la chronique. Ces faits paraîtront bien naturels à certains et, à d’autres, invraisemblables au contraire. Mais, après tout, un chroniqueur ne peut tenir compte de ces contradictions. Sa tâche est seulement de dire : « Ceci est arrivé », lorsqu’il sait que ceci est, en effet, arrivé, que ceci a intéressé la vie de tout un peuple, et qu’il y a donc des milliers de témoins qui estimeront dans leur cœur la vérité de ce qu’il dit.

Du reste, le narrateur, qu’on connaîtra toujours à temps, n’aurait guère de titre à faire valoir dans une entreprise de ce genre si le hasard ne l’avait mis à même de recueillir un certain nombre de dépositions et si la force des choses ne l’avait mêlé à tout ce qu’il prétend relater. C’est ce qui l’autorise à faire œuvre d’historien. Bien entendu, un historien, même s’il est un amateur, a toujours des documents. Le narrateur de cette histoire a donc les siens : son témoignage d’abord, celui des autres ensuite, puisque, par son rôle, il fut amené à recueillir les confidences de tous les personnages de cette chronique, et, en dernier lieu, les textes qui finirent par tomber entre ses mains. Il se propose d’y puiser quand il le jugera bon et de les utiliser comme il lui plaira. Il se propose encore… Mais il est peut-être temps de laisser les commentaires et les précautions de langage pour en venir au récit luimême. La relation des premières journées demande quelque minutie.

Albert Camus (1947), La Peste, Paris, Gallimard. Chap. 1 (Le début)

 

O Prazer de Comparar #7 – (14/04/2020)

(…)

– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa via, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aquentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos? (…)

 

Herberto Helder, Os Passos em Volta, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001, pp. 9-10.

O Prazer de Comparar #6 – (13/04/2020)

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade, C.D. Antologia Poética. 12ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978 p. 108 e 109

O Prazer de Comparar #5 – (08/04/2020)

Para ouvir:

O Prazer de Comparar #4 – (07/04/2020)

Em Todo o Lado e em Parte Nenhuma

Quando viajo desapareço do mapa. Ninguém sabe onde estou. Se estou ainda no ponto de partida ou se estou já no ponto de chegada. Será que existe um «entre» as coisa? Ou serei eu como aquele dia perdido que acontece quando se viaja para leste ou aquele noite recuperada quando viajo para oeste? Será que sou regida por aquela lei que é o orgulho da Física Quântica – a partícula pode existir simultaneamente em dois lugares distintos? Ou talvez por outra lei, ainda desconhecida e por comprovar – a de poder não existir duplamente num mesmo lugar? Penso que há muitas pessoas como eu. Desaparecidas, ausentes que, de repente, aparecem nos terminais dos aeroportos e só começam a existir quando os funcionários da alfândega lhes carimbam os passaportes ou quando um gentil recepcionista de hotel lhes entrega uma chave. Já devem ter descoberta a sua instabilidade e a sua dependência de lugares, horas do dia, línguas ou cidades e suas ambiências. Fluidez, mobilidade, ilusão – eis o que significa ser civilizado. Os bárbaros não viajam, dirigem-se diretamente para o destino ou, então, fazem incursões.

Assim pensa a mulher que me oferece um chá de plantas, guardado num termo, enquanto aguardamos o autocarro que nos leva da estação para o aeroporto. Tem, nas mãos pintadas com hena, um padrão complicado que se esbate cada dia que passa. Quando nos sentamos, dá-me uma lição sobre a noção de tempo. Afirma que os povos sedentários que se dedicam à agricultura, preferem os prazeres facultados pelo tempo circular, no seio do qual todos os acontecimentos retornam ao seu próprio princípio, enroscando-se para formar um embrião e repetir o processo de amadurecimento e morte. Mas os nómadas e os mercadores, que se encontram constantemente em viagem, tiveram de inventar um tipo de tempo que melhor se adaptasse à sua condição de viajantes. Trata-se de um tempo linear, mais prático, que lhes permite medir a distância percorrida até alcançar o destino e a evolução dos proveitos obtidos. Cada momento é único e nunca se repete, o que favorece o risco, reforça o usufruto do presente e a fruição do momento. Mas, no fundo, trata-se de uma amarga descoberta – se a mudança no tempo se torna irreversível, a perda e o luto tornam-se algo quotidiano e, por tal razão, os seus lábios jamais dirão palavras como «esgotado» ou «inútil».

– Esforços inúteis contas bancárias esgotadas – ri-se a mulher, pondo as mãos pintadas atrás da cabeça.

Diz que a única maneira de sobreviver num tempo linear que se distende é conservando a distância, uma dança que consiste em aproximar-se e afastar-se, um passo para a frente e um passo para trás, um passo para a esquerda, outro para a direita – passos fáceis de decorar. E quanto maior o mundo se tornar maior será a distância que pode ser dançada desta maneira – emigrar para além de sete mares, para além de duas línguas e de uma religião.

Eu, porém, tenho uma opinião diferente sobre a noção de tempo. O tempo de todos os viajantes é constituído por muitos tempos reunidos num, uma multiplicidade de tempos. Há o lugar insular, arquipélagos da ordem no oceano do caos; há o tempo produzido pelos relógios das estações de comboios, que é diferente consoante os lugares; há o tempo convencionado do meridiano e, por conseguinte, é bom que ninguém o leve muito a sério. Há as horas que desapareceram num avião em pleno voo, onde o amanhecer é repentino como um relâmpago e, logo, ameaçado pelo meio-dia e pelo anoitecer. Há o tempo caótico das grandes cidades onde permanecemos um momento para nos entregarmos à escravidão de um serão. E há o tempo preguiçoso das planícies desabitadas, vistas do alto de um avião.

Também acho que o mundo se encontra no interior de nós próprios, nos sulcos dos cérebros e na glândula pineal. É um globo entalado na garganta e, a bem dizer, poderíamos tossir e desengasgar-nos, cuspindo-o.

Olga Tokarczuk, Viagens, trad. Teresa Fernandes Swiakiewicz, Cavalo de Ferro, 2019, [2007], pp. 49-52.

O Prazer de Comparar #3 – (06/04/2020)

“Once there was a lake. Above the blue lake and into the
blue sky towered spring tree, green and yellow. Beyond it
the sky rested quietly on the arched mountain.

A wanderer sat at the foot of the tree. Yellow
petals drifted down to his shoulders. He was tired and had
closed his eyes. A dream drifted down to him from the
yellow tree.

The wanderer was small, he was a boy, he
heard his mother singing in the garden behind the house.
He saw a butterfly fluttering, yellow and fresh, a joyous
yellow in the blue sky. He ran after the butterfly. He ran
across the meadow, he ran across the brook, he ran to the
lake. There the butterfly flew away over the bright water,
and the boy flew after it, hovered brightly and easily,
flew happily through the blue space.”

Herman Hesse, “Lake, Tree, Mountain”, in Wandering
(Wanderung: Aufzeichnungen, 1920), London, Picador,
1977, p. 73.

O Prazer de Comparar #2 – (03/04/2020)

“Tarkovsky quartet”
François Couturier: Piano, composition
Jean-Marc Larché: Saxophone soprano
Anja Lechner : Violoncelle
Jean-Louis Matinier: Accordéon

Conception et réalisation vidéo : Andrej A. Tarkovsky

O Prazer de Comparar #1 – (01/04/2020)

PEQUENA ODE, EM ANOTAÇÃO QUASE BIOGRÁFICA

Bom dia, cão e gata,
por essa saudação e de manhã,
o corpo de veludo, a língua suave,
em simultânea tradução:
bom dia

Bom dia, sol, que entraste aqui,
me ofereces este espelho
onde me vejo agora, e tão de frente,
tornaste um pouco clara a folha de papel
e nela: em faixa transparente,
o tempo

Bom dia, coisas todas que brilham na varanda,
folha de japoneira, o nome cintilante,
o som daquele pássaro,
como se o mundo, de repente,
se fizesse mais mundo, e de maneira tal
que nunca mais se visse
escurecente o dia

Bom dia, gente pequenina
que não consigo olhar desta cadeira,
mas que está: formigas e aranhas,
minúsculos insectos
que hão-de morrer, mas aqui nascerão,
todos os dias

Bom dia, minha filha, igual a girassol,
quantas mais vezes te direi bom dia,
olhando o corredor,
tu, já não de baloiço, mas de amor
e pura filigrana,
eu, quase entardecendo

Bom dia, meu sofá,
onde me sento à noite, e devagar,
as flores que ora não são, ora às vezes
povoam esta mesa, a porta em vidro,
iluminada, em mais pura esquadria,
livros e quadros, curtas
fotografias em breve
desalinho

Bom dia, a ti também,
pelo perfume em fio que me trouxeste,
como se encera um chão rugoso de madeira,
os veios de uma planta desejosa de folhas,
ou mesmo as falhas na paz que me ofereceste,
e que desejo tua

Mesmo no tom cruel
que é acordar todos os dias
para um mundo sem sol em tantas mãos,
mesmo nesse desmando e tão violento curso
que é o mundo,
ainda assim, esta pequena anotação
de abrir os olhos e dizer bom dia,
e respirar de fresco o ar de tudo
em tudo –

Ana Luísa Amaral, in E todavia, Assírio & Alvim, 2015