CFP “Mutants, Monsters and Marvels: Anomalous Human and Non-Human Bodies in Literature and the Arts” (Online, 30 de Junho and 1 de Julho 2025)
Prazo: 30 de abril 2025
A próxima fase da sensação global da Disney, o Universo Cinematográfico da Marvel, incluirá os muito acarinhados X-Men, um grupo heterogéneo de super-heróis mutantes. Como estas personagens são mais conhecidas pelos seus poderes espetaculares, raramente pensamos nelas como monstruosas, desviantes ou anómalas, uma vez que esses são termos que normalmente usamos para classificar corpos que se afastam da norma de uma forma conspicuamente “negativa”. Assim, embora a repressão e a condição de párias sejam um tema recorrente nas histórias dos X-Men, é difícil vê-los como oprimidos. Além disso, num mundo colonizado por franquias de super-heróis, cujas narrativas padronizadas determinam o nosso horizonte de possibilidades, o nosso sentido do maravilhoso (como algo verdadeiramente diferente e de outro mundo) praticamente se extinguiu.
No entanto, os corpos que nos rodeiam no mundo real, sejam humanos ou não, continuam tão excêntricos como sempre. A inclinação da natureza para gerar novas formas (criaturas que fogem ao molde, os verdadeiros mutantes, poder-se-ia dizer) significa que muitos dos nossos parentes, humanos ou não, exibem uma vasta gama de diferenças no que toca ao espectro da capacidade e da deficiência. No geral, o mundo natural está repleto de maravilhas à nossa escala: lulas-vampiro com capacidades cognitivas semelhantes às humanas, bactérias extremófilas que habitam as profundezas mais escuras do oceano ou animais curiosos como o axolote, que permanece na sua forma juvenil ao longo de toda a vida. Com o advento da biotecnologia, quimeras e monstros à semelhança de Frankenstein deixaram de pertencer exclusivamente ao domínio do mito e da ficção. Os alimentos geneticamente modificados são hoje omnipresentes e o transplante de órgãos entre humanos e animais é um debate premente. Por fim, ao olharmos para dentro de nós mesmos, percebemos que nunca fomos realmente “normais”: os nossos corpos são um híbrido interespécies, uma amálgama de material genético herdado de bactérias e vírus, e o nosso bem-estar depende do trabalho simbiótico dos milhares de milhões de microrganismos que transportamos dentro de nós.
Esta conferência propõe problematizar o conceito de normalidade a partir da perspetiva das humanidades médico-ambientais, tal como recentemente teorizado por Slovic, Rangarajan e Sarveswaran (2023). Os preconceitos sobre o que são corpos e ambientes saudáveis informam os discursos e as práticas de médicos e cientistas. No final de contas, está em jogo a própria definição de natureza. Tomando a literatura e as artes como ponto de partida, pretendemos promover um debate crítico sobre como os corpos anómalos são e devem ser percecionados, à medida que continuamos a avançar para um mundo mais igualitário e solidário, para além das fronteiras entre espécies.
Teremos muito gosto em avaliar propostas sobre estes e outros temas relacionados:
● Em que circunstâncias os seres vivos, humanos e não humanos, se tornam “monstros” e o que os torna “matáveis”? Interessam-nos discussões sobre eugenia e eutanásia, tanto no contexto das humanidades médicas como nos estudos animais.
● Discursos médico-científicos e o seu papel na disseminação de ideologias de normalidade e superioridade.
● Monstros animais: a alteridade das criaturas não humanas.
● “Outras alteridades”: que corpos são excluídos pelos discursos que promovem a diversidade?
● Representações da deficiência e da divergência corporal na cultura de massas: até que ponto os corpos anómalos devem ser glorificados? Como podemos tornar a deficiência mais visível na cultura em geral sem mercantilizar a experiência das pessoas com deficiência e/ou ser insensíveis à questão da dor? Podemos conceber uma sociedade que não assuma a normatividade do corpo apto e da neurotipicidade?
● Memória colonial em espaços não humanos (interessa-nos especialmente explorar como as noções de natureza, saúde e aptidão física são construídas no contexto da guerra em curso de Israel contra a Palestina).
● A diferença entre animais “desejáveis” e “indesejáveis”: até que ponto a preferência humana por espécies domésticas e endémicas é injusta?
● Animais e monstros do Pré-Antropoceno: espécies extintas e megafauna pré-histórica.
● Freakshows e gabinetes de curiosidades: quando é que os monstros se tornam maravilhas e quais são os problemas éticos/benefícios de transformar a anomalia em espetáculo?
● Quimeras e mutantes: até que ponto faz sentido a taxonomia num mundo cada vez mais híbrido, transgénico e contaminado?
Envie os seus resumos de 200 palavras para mutantsconference@gmail.com
Aceitamos propostas noutras línguas além do inglês, mas, caso sejam aceites, será necessário fornecer uma tradução do artigo antes do dia do evento.
Oradores Principais: Jeffrey Jerome Cohen e Maria Esther Maciel
Organização: João Paulo Guimarães, Ana Carolina Meireles, Ezra Beatriz Félix, Isadora Cavalcanti e Shayla Barros