Cadernos de Literatura Comparada #48

Novembro 13, 2022

Cadernos de Literatura Comparada #48

Desaparecimento e mutação do mundo conhecido.

Abordagens identitárias, pós-coloniais e ecocríticas

Junho de 2023 | Chamada de artigos (até 26 de fevereiro de 2023)

Certamente mais do que noutras épocas, as nossas sociedades tomaram plena consciência da possibilidade concreta do desaparecimento ou da simples mutação. Percebem-se mutáveis, mesmo que lhes custe admiti-lo e lhes falte algum recuo para pensá-lo, o que Paul Valéry traduzia no contexto do seu tempo por We later civilizations . . . we too know that we are mortal.

Com efeito, a uma perceção estável e imutável das coisas, fundada numa ontologia fixa, foram-se historicamente opondo abordagens dinâmicas do curso da História. Pense-se na conceção heraclitiana da perpétua mudança e da renovação do cosmos, retomada por Camões no célebre Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Ou ainda na desconfiança em relação à metafísica ocidental de que Édouard Glissant é, mais perto de nós, o teórico herdeiro ao desenvolver o conceito operatório de “caos-mundo” (Glissant, 1997) ou de “Poética da Relação” (Glissant, 1990), reinterpretado ultimamente a partir da leitura das complexidades do contemporâneo proposta por Dominique Viart (2019), nomeadamente ao cruzar esse mesmo conceito com o de inseparado lançado por Dominique Quessada (2013).

De igual modo, a tensão messiânica judaico-cristã, ao introduzir na narrativa escatológica a esperança numa nova terra, numa terra prometida, ativou a perceção da mutação necessária, e inclusive desejável, do mundo, revezada pela modernidade, quando hipostasia, nas suas várias meta-narrativas, as categorias da revolução e do progresso (Lyotard, 1979).

Na verdade, a História, trágica porque inacabada, não deixou de ilustrar essa dinâmica de mutação dos impérios, dos povos e das nações de que resulta forçosamente, conforme os lugares e as circunstâncias, o desaparecimento do mundo conhecido. Este traduziu-se historicamente pela sucessão das potências, o encadeamento das grandes religiões e espiritualidades, as empresas evangelizadora e islamizadora, a consolidação das colonizações consecutivas a partir dos Descobrimentos, a complexidade e a interconexão do tráfico de escravos e comércio triangular.

Com efeito, dele sempre resultaram migrações, alterações de fronteiras, conversões mais ou menos forçadas, desenraizamentos culturais, perdas de referências identitárias e de habitats. Neste sentido, toda a preocupação com a preservação e a perpetuação de um qualquer mundo esbarra com dinâmicas que votam esse mundo ao desaparecimento, ou à mutação radical. Para nos convencermos disso, bastará projetarmo-nos na história do Magrebe, das Américas ou, mais recentemente, da Europa pós-comunista.

Se o dinamismo histórico induz reações ideológicas e reticências sociais extremas e opostas, como se observam na Europa de hoje, as quais vão do todo multicultural à reivindicação identitária nacionalista, ou do sentimento nostálgico em relação a certezas e referências desmoronadas, e de que o fenómeno de “Ostalgia” (Ahbe, 2005), ou a vivência traumática pós-memorial (Hirsch, 2008) são exemplos, também motivou e mobilizou abordagens teóricas do fenómeno literário que, a partir dos Estudos pós-coloniais (Bhabba, 2007 ; Amar, 2008), dos Estudos decoloniais (Mignolo, 2013), dos Estudos Culturais (Baetens, 2003 ; Engel, 2008), dos Estudos de Área e atlânticos (Gilroy, 1993; Schäfer, 2010) à Ecocrítica (Barry, 2009), descrevem as complexidades do mundo atual a partir de um prisma móvel, global e problematizador (Damrosch, 2003).

Contudo, o desaparecimento e a mutação do mundo conhecido envolvem igualmente outras questões e fenómenos contemporâneos como sejam a migração digital (Doueihi, 2013) e a mudança estrutural da esfera pública e política provocada pelo recurso aos meios digitais (Han, 2021). Inscrevem-se também no desmantelamento do proletariado (Ellul, 1982), da classe média (Gaggi et Narduzzi, 2006) e de certos ofícios em benefício de novas profissões, bem como na irreconhecibilidade de certos bairros das cidades-mundo (Sassen, 1991), redefinidos enquanto lugares de mestiçagem, de crioulização, de cosmopolitismo, ou de uma nova aculturação do autóctone face ao contexto diversitário.

Assim, convidamos os investigadores a debruçarem-se, num quadro comparatista, sobre a reflexão em torno destas problemáticas históricas ou em curso que a literatura interroga, a partir dos seguintes eixos relativos às implicações do desaparecimento e da mutação:

  1. do território e das referências socioculturais;
  2. do habitat humano ou ecológico;
  3. das referências identitárias pessoais ou coletivas;
  4. dos fundamentos identitários nacionais;
  5. do quadro tradicional e analógico pela digitalização.

Todos os artigos devem ser enviados, por e-mail, para o cadernospreviewjune@gmail.com até 26 de fevereiro de 2023. Os artigos submetidos devem estar de acordo com as normas de publicação dos Cadernos de Literatura Comparada, disponíveis em: https://ilc-cadernos.com/index.php/cadernos/about/submissions (se os artigos não estiverem de acordo com as normas de edição, estes poderão ser rejeitados e não são submetidos à revisão cega por pares).

Serão aceites trabalhos inéditos nos seguintes idiomas: português, inglês, espanhol e francês.

Este número 48 dos Cadernos de Literatura Comparada é organizado por: Maria de Fátima Outeirinho (UP – ILCML) e José Domingues de Almeida (UP – ILCML).

A chamada de artigos está disponível também em inglês e francês.

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