Chamada de artigos
Paisagem e(m) movimento
Eds. Dulce Soares e Lígia Bernardino

Pensar a representação da paisagem no século XXI implica reconhecer o movimento como uma das condições fundamentais da experiência contemporânea. Humanos e não humanos, objetos, imagens, tecnologias, memórias e materialidades circulam, cruzam-se e transformam continuamente os territórios, tornando a paisagem uma realidade em permanente devir. Entre fluxos turísticos, movimentos migratórios, transformações ambientais e processos de urbanização, a paisagem afirma-se simultaneamente como objeto de desejo e como espaço de constante reconfiguração.
Esta dinâmica ultrapassa, porém, a ação humana. Como propõe Jane Bennett (2009), a «matéria vibrante» participa ativamente na produção do real, conferindo agência aos múltiplos elementos que constituem o mundo. A paisagem deixa, assim, de ser entendida como um cenário estático para emergir como um processo relacional de co-constituição, produzido pelas interações entre materialidades, práticas, perceções e modos de habitar. Compreendê-la implica reconhecer que também as formas de a experienciar, representar e interpretar estão em contínua transformação.
Neste contexto, o movimento constitui uma dimensão estruturante da paisagem. A deslocação e a viagem configuram-se como formas privilegiadas de experiência, participando na produção dos territórios e dos imaginários que lhes dão forma. O tema propõe refletir sobre esta dupla aceção: a paisagem e o movimento, enquanto dimensões indissociáveis da experiência territorial, e a paisagem em movimento, entendida como processo de transformação material, social, cultural e simbólica. Das viagens de exploração às mobilidades contemporâneas, dos percursos quotidianos às migrações, do caminhar às práticas turísticas, a deslocação participa na construção da paisagem, não apenas enquanto objeto de observação, mas como realidade continuamente recriada pelas trajetórias, pelos encontros, pelos fluxos e pelas experiências que a atravessam.
As tecnologias digitais vieram intensificar esta condição. A Internet e a Inteligência Artificial transformam os modos de viajar, habitar e percecionar os territórios, disponibilizando antecipadamente imagens e informações que tendem a converter a viagem num exercício de confirmação mais do que de descoberta. Entre os «não-lugares» de Marc Augé (1992) e a dromosfera de Paul Virilio (1977), importa interrogar se a paisagem continua a constituir um espaço de conhecimento ou se se limita a reproduzir representações previamente construídas. Até que ponto o olhar é condicionado por imagens anteriores? Em que medida, como sugere Anne Cauquelin (2008), a paisagem permanece uma construção artística ou retórica? E de que formas a sua representação traduz as múltiplas experiências do século XXI?
Esta chamada de artigos pretende reunir contributos que explorem o potencial da paisagem na literatura e nas artes enquanto prática de representação, interpretação e reconfiguração do mundo contemporâneo. Privilegiam-se abordagens que problematizem as relações entre paisagem, mobilidade, deslocação, viagem, memória, representação e transformação, bem como os modos através dos quais estas dimensões contribuem para uma compreensão crítica do presente. Pretende-se, assim, promover um diálogo interdisciplinar que compreenda a paisagem como uma realidade processual, relacional e dinâmica.
Linhas temáticas possíveis:
- Literatura e mobilidade.
- A paisagem contemporânea nas artes visuais, no cinema e na literatura..
- Tensões resultantes da massificação da paisagem.
- Paisagem, viagem e experiência do lugar.
- Viagem, exploração e descoberta como formas de construção da paisagem.
- Mobilidades, migrações e paisagens em trânsito.
- Paisagens da memória, do exílio e da diáspora.
- Transformações ambientais e novas perceções da paisagem.
- Paisagem, tecnologias digitais e inteligência artificial.
As propostas de artigos devem ser enviadas até dia 18 de outubro de 2026 para o email: cadernosreviewdecember@gmail.com
Os artigos devem ser redigidos conforme as normas editoriais da revista indicadas em: https://ilc-cadernos.com/index.php/cadernos/about/submissions